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Mariinha, minha filha, está triste, suspirando! O que houve? Você se
aborreceu com algum colega? Foi repreendida pela professora?
Não.
Estou triste porque não tenho o que desejo e os outros têm de tudo
que querem.
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Filha, por ora, o remédio é saber esperar com paciência. Apenas
somos pobres e pobreza não é razão para desespero e lamentações.
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Mãe, paciência sem esperança é remédio azedo, enjoa, aborrece. Estou
ficando cansada da vida.
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Você é uma menina, tem muito a aprender na vida. Olha, filha, diz o
refrão popular: “Quem trabalha persevera, nunca é tarde, sempre
alcança”. Então, espere, seus pais trabalham muito, vão até ao
sacrifício para dar o sustento da casa, só não temos podido dar o
supérfluo. Compreensão e conformação só ajudam a esperar.
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Eu sei, mas o João Carlos é filho de uma doméstica com um pedreiro,
gente simples, e ele ganhou uma bicicleta que eu sonho ter há dois
anos. O pai aproveitou uma promoção, vai pagar em doze vezes sem
juros. Só eu vou a pé à escola, os que não vão de bicicleta, vão e
voltam de carro com os pais. Alguns, até, têm motorista particular!
O
desabafo da filha deixou Dona Laura apreensiva.
Perguntava-se, repetidas vezes, como pode uma menina tão nova dizer
que está ficando cansada da vida.
Dizendo que ia à mercearia comprar algo para o café da noite, Dona
Laura procurou a professora Maria Tereza, falou de sua preocupação
ao contar toda a conversa que, minutos antes, tivera com sua filha
Mariinha.
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Realmente, o caso da menina merece cuidado embora não seja nada de
alarmante. Verei como posso ajudar.
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E o que devo fazer? -
Argüiu a mãe um tanto angustiada.
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Ore, peça ajuda para si e para sua filha. Em casa, aja com
naturalidade, não demonstre preocupação, converse sobre assuntos
variados, tente fazê-la mostrar os exercícios escolares. Elogie suas
boas notas e estimule-a a melhorar ainda mais seu aproveitamento.
Isso a fará esquecer por algum tempo as frustrações.
Era o
cair da tarde, os tons avermelhados do poente tingiam o azul do céu
da abençoada cidade de Jandiara, anunciando a aproximação da noite
que traria, para enlevo dos homens, o cortejo de faiscantes estrelas
como se fossem os olhos de Deus velando amorosamente por todos os
Seus filhos e a dizer-lhes que nenhum deles se perderá.
Tomada pela emoção que o belo espetáculo da natureza proporcionara,
Dona Laura retornou ao lar com a fé robustecida e as esperanças
renovadas.
Terminados os afazeres domésticos, acomodou a filhinha para o
repouso noturno e pôs o marido a par do ocorrido.
Ao recolherem-se, rezaram com fervor entregando ao Senhor a solução
do o problema que, de certa forma, os afligia.
A quem bate, a porta será aberta; a quem pede, lhe será dado. Jesus
jamais deixará de atender a um pedido justo e sincero.
Pai e mãe tiveram um sono tranqüilo e reparador para despertarem
saudados por uma manhã de sol esplendoroso, o que soe acontecer em
Jandiara, a cidade da esperança.
Às oito horas, a professora Maria Tereza recebia seus alunos para
mais um dia de jornada escolar e de congraçamento.
Trinta minutos antes do encerramento da aula, Maria Tereza falou que
ia contar a estória da conversa com Deus de um certo homem
desiludido da vida, intitulada “Se eu me cansar da vida”:
“Senhor,
Se um dia eu estiver “cheio da vida”, com vontade de sumir, de
morrer, insatisfeito comigo mesmo e com o mundo em torno de mim,
PERGUNTA-ME se eu quero trocar a luz pelas trevas;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar a mesa farta pelos resto que tantos
vêm buscar no lixo;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar meus pés por uma cadeira de rodas;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar minha voz pelos gestos;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar o mundo dos sons pelo silêncio dos
que nada ouvem;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar o jornal que eu leio e depois jogo no
lixo pela miséria dos que vão buscá-lo para fazer dele um cobertor;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar a minha saúde pela enfermidades de
tanta gente;
PERGUNTA-ME até quando não reconhecerei as tuas bênçãos a fim de
fazer de minha vida um hino de louvor e gratidão e dizer, todos os
dias, do fundo do meu coração:
OBRIGADO, Senhor, por mais um dia.
Agora, minhas queridas crianças, vocês que têm casa para morar,
quando tantos vivem sem teto; têm escola para estudar, quando muitos
convivem com as trevas do analfabetismo; têm um lar e pais que lhes
dão amor e carinho, quando existem aqueles que não conhecem família,
podem vocês revoltar-se com a vida? Podem reclamar de Deus? Quem
acha que pode, levante o dedo e se explique.
Mariinha, ia levantando o dedo, parou, ficou indecisa, desistiu.
Observando a hesitação da garota, Maria Tereza indagou:
-
Alguma dúvida, Mariinha? Quer falar? Diga o que pensa.
-
Tia Tequinha, uns têm de menos, outros de sobra. Há justiça nisso?
-
Deus nos dá na medida certa o que merecemos e aquilo de que
precisamos para nosso aprimoramento espiritual. Lembremo-nos de que
somos o resultado do nosso passado e estamos elaborando o nosso
futuro. Como rico, o homem testa sua capacidade de vencer a
prepotência, a vaidade, o orgulho e a inclinação para a avareza.
Como pobre, vem exercitar o dom da humildade e o da resignação, pois
que, provavelmente, em vida pregressa cultuou a soberba.
Mariinha
deixou-se absorver por profundos pensamentos para, minutos depois,
replicar:
-
Tia, quer dizer que Deus pesa o merecimento e a necessidade dos
espíritos com uma balança de alta precisão. Não erra nunca.
-
Vejo que você entendeu bem a lição, por isso peço que hoje faça você
a prece de agradecimento.
-
Senhor, desculpe-me se alguma vez blasfemei. Serei conformada e
compreensiva com o que a vida pode oferecer. Muito obrigada. Peço
sua bênção. Assim seja.
Os olhos
humanos não podiam ver, mas a sala de aula estava banhada de luz,
pétalas de rosas caiam sobre as crianças, enquanto Maria Tereza era
envolvida com um manto luminoso onde se lia “Bem-aventurados os
puros de coração, bem-aventurados aqueles que sabem ensinar o
caminho da redenção”. 
Leia
outro artigo de Felinto Elízio Duarte Campelo:
Não à vingança...
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