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O PULO DO GATO

"O pulo do gato" (São Paulo: DPL Editora), de Felinto Elízio Duarte Campelo

 

Cansaço da vida

felinto elízio duarte campelo

- Mariinha, minha filha, está triste, suspirando! O que houve? Você se aborreceu com algum colega? Foi repreendida pela professora?
Não. Estou triste porque não tenho o que desejo e os outros têm de tudo que querem.
- Filha, por ora, o remédio é saber esperar com paciência. Apenas somos pobres e pobreza não é razão para desespero e lamentações.
- Mãe, paciência sem esperança é remédio azedo, enjoa, aborrece. Estou ficando cansada da vida.
- Você é uma menina, tem muito a aprender na vida. Olha, filha, diz o refrão popular: “Quem trabalha persevera, nunca é tarde, sempre alcança”. Então, espere, seus pais trabalham muito, vão até ao sacrifício para dar o sustento da casa, só não temos podido dar o supérfluo. Compreensão e conformação só ajudam a esperar.
- Eu sei, mas o João Carlos é filho de uma doméstica com um pedreiro, gente simples, e ele ganhou uma bicicleta que eu sonho ter há dois anos. O pai aproveitou uma promoção, vai pagar em doze vezes sem juros. Só eu vou a pé à escola, os que não vão de bicicleta, vão e voltam de carro com os pais. Alguns, até, têm motorista particular!
O desabafo da filha deixou Dona Laura apreensiva.
Perguntava-se, repetidas vezes, como  pode uma menina tão nova dizer que está ficando cansada da vida.
Dizendo que ia à mercearia comprar algo para o café da noite, Dona Laura procurou a professora Maria Tereza, falou de sua preocupação ao contar toda a conversa que, minutos antes, tivera com sua filha Mariinha.
- Realmente, o caso da menina merece cuidado embora não seja nada de alarmante. Verei como posso ajudar.
- E o que devo fazer? - Argüiu a mãe um tanto angustiada.
- Ore, peça ajuda para si e para sua filha. Em casa, aja com naturalidade, não demonstre preocupação, converse sobre assuntos variados, tente fazê-la mostrar os exercícios escolares. Elogie suas boas notas e estimule-a  a melhorar ainda mais seu aproveitamento. Isso a fará esquecer por algum tempo as  frustrações.
Era o cair da tarde, os tons avermelhados do poente tingiam o azul do céu da abençoada cidade de Jandiara, anunciando a aproximação da noite que traria, para enlevo dos homens, o cortejo de faiscantes estrelas como se fossem os olhos de Deus velando amorosamente por todos os Seus filhos e a dizer-lhes que nenhum deles se perderá.
Tomada pela emoção que o belo espetáculo da natureza proporcionara, Dona Laura retornou ao lar com a fé robustecida e as esperanças renovadas.
Terminados os afazeres domésticos, acomodou a filhinha para o repouso noturno e pôs o marido a par do ocorrido.
Ao recolherem-se, rezaram com fervor entregando ao Senhor a solução do o problema que, de certa forma, os afligia.
A quem bate, a porta será aberta; a quem pede, lhe será dado. Jesus jamais deixará de atender a um pedido justo e sincero.
Pai e mãe tiveram um sono tranqüilo e reparador para despertarem saudados por uma manhã de sol esplendoroso, o que soe acontecer em Jandiara, a cidade da esperança.
Às oito horas, a professora Maria Tereza recebia seus alunos para mais um dia de jornada escolar e de congraçamento.
Trinta minutos antes do encerramento da aula, Maria Tereza falou que ia contar a estória da conversa com Deus de um certo homem desiludido da vida, intitulada “Se eu me cansar da vida”:
“Senhor,
Se um dia eu estiver “cheio da vida”, com vontade de sumir, de  morrer, insatisfeito comigo mesmo e com o mundo em torno de mim,
PERGUNTA-ME se eu quero trocar a luz pelas trevas;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar a mesa farta pelos resto que tantos vêm buscar no lixo;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar meus pés por uma cadeira de rodas;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar minha voz pelos gestos;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar o mundo dos sons pelo silêncio dos que nada ouvem;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar o jornal que eu leio e depois jogo no lixo pela miséria dos que vão buscá-lo para fazer dele um cobertor;
PERGUNTA-ME se eu quero trocar a minha saúde pela enfermidades de tanta gente;
PERGUNTA-ME até quando não reconhecerei as tuas bênçãos a fim de fazer de minha vida um hino de louvor e gratidão e dizer, todos os dias, do fundo do meu coração:
OBRIGADO, Senhor, por mais um dia.
Agora, minhas queridas crianças, vocês que têm casa para morar, quando tantos vivem sem teto; têm escola para estudar, quando muitos convivem com as trevas do analfabetismo; têm um lar e pais que lhes dão amor e carinho, quando existem aqueles que não conhecem família, podem vocês revoltar-se com a vida? Podem reclamar de Deus? Quem acha que pode, levante o dedo e se explique.
Mariinha, ia levantando o dedo, parou, ficou indecisa, desistiu.
Observando a hesitação da garota, Maria Tereza indagou:
- Alguma dúvida, Mariinha? Quer falar? Diga o que pensa.
- Tia Tequinha, uns têm de menos, outros de sobra. Há justiça nisso?
- Deus nos dá na medida certa o que merecemos e aquilo de que precisamos para nosso aprimoramento espiritual. Lembremo-nos de que somos o resultado do nosso passado e estamos elaborando o nosso futuro. Como rico, o homem testa sua capacidade de vencer a prepotência, a vaidade, o orgulho e a inclinação para a avareza. Como pobre, vem exercitar o dom da humildade e o da resignação, pois que, provavelmente, em vida pregressa cultuou a soberba.
Mariinha deixou-se absorver por profundos pensamentos para, minutos depois, replicar:
- Tia, quer dizer que Deus pesa o merecimento e a necessidade dos espíritos com uma balança de alta precisão. Não erra nunca.
- Vejo que você entendeu bem a lição, por isso peço que hoje faça você a prece de agradecimento.
- Senhor, desculpe-me se alguma vez blasfemei. Serei conformada e compreensiva com o que a vida pode oferecer. Muito obrigada. Peço sua bênção. Assim seja.
Os olhos humanos não podiam ver, mas a sala de aula estava banhada de luz, pétalas de rosas caiam sobre as crianças, enquanto Maria Tereza era envolvida com um manto luminoso onde se lia “Bem-aventurados os puros de coração, bem-aventurados aqueles que sabem ensinar o caminho da redenção”.

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FELINTO ELÍZIO DUARTE CAMPELO é articulista espírita.

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