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Retaliação, a ordem do dia...

DORIS MADEIRA GRANDES

RETALIAÇÃO - Ato ou efeito de retaliar; represália; imposição da pena de talião - "Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa" (Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira).
Praticamente não há um só grupo de pessoas que se reúna onde não surja logo, logo uma conversa sobre a violência de todos os tipos que se vê grassar em todos os níveis.  O medo se alastra rapidamente em todas as camadas sociais – agora não mais apenas entre os de posses, os da elite;  mas igualmente entre a classe média alta e baixa, e até na dos mais pobres, que muitas vezes se vêem cercados, envolvidos e sujeitos à violência independentemente de sua vontade.
Além da violência ostensiva, isto é, a dos crimes, seqüestros, estupros e outros tantos graves delitos sociais, sofremos as violências mais estapafúrdias, como as perpetradas pela própria Justiça, criada para defesa do cidadão, quando concede indultos a assassinos após breve cumprimento de penas bem maiores;  quando liberta da prisão usurpadores renomados do patrimônio público...  Como a violência daqueles encarregados de fazer cumprir a lei que garante um tratamento e um julgamento justo para todos quando, ao conduzirem um delinqüente em sua viatura ou o receberem em seus cárceres, o espancam brutalmente e até mesmo o matam...
A resposta a determinados eventos vem se resumindo em retaliar ou retalhar pessoas, grupos e até nações inteiras, quer seja por intermédio de guerras utilizando equipamentos bélicos de alta tecnologia ou por meio de empréstimos a juros criminosos, sanções ou bloqueios econômico-financeiros, deixando milhões de criaturas sujeitas a condições de vida miseráveis, com fome, sem moradia adequada, sem saúde e sem educação de qualquer tipo.
O problema é que essas criaturas muitas vezes são aquelas que, individualmente ou em pequenos grupos, acabam buscando promover a qualquer custo o respeito à sua condição humana, algumas vezes de forma absolutamente equivocada, como no caso dos atos de terrorismo;  isso quando não conseguem reunir uma grande massa de indivíduos e vemos então, como já tantas vezes a história nos mostrou, as revoluções sangrentas e dolorosas...
Retaliar, retalhar, vingar-se, revidar, na realidade são sinônimos de intolerância; de incapacidade de entender a verdadeira extensão do problema e procurar, compreendendo as  suas raízes, erradicar essas raízes para não ter que destruir os homens, todos criaturas perfectíveis – para os que conhecem a imortalidade da alma e a lei de evolução – ou pelo menos, dentro dos conceitos tradicionais, todos irmãos, filhos de Deus.  Trata-se igualmente de demonstração de inferioridade moral, de conservar ainda em grau superlativo o instinto animal em detrimento do espiritual, "O Livro dos Espíritos" (São Paulo: Petit Editora), de Allan Kardec, pergunta 742.
Jamais a violência erradicou a violência – ou já não mais haveria violência neste planeta visto que a milênios os homens vêm guerreando, matando em nome da lei, da justiça e até de Deus, assumindo compromissos onerosos e de difícil resgate...
Fala-se atualmente em aumentar o tempo das reclusões, em instituir no país a prisão perpétua e sabe-se até mesmo de defensores da pena de morte; mas ouve-se pouco na mídia em geral a defesa da implantação séria e criteriosa, de modo urgente e prioritário, de meios educativos de largo alcance, ou seja, que forneçam instrução e formação, que façam da criança e do jovem um ser social, ético, moral e solidário, lúcido e consciente.
Muito menos se ouve clamar por condições humanitárias re-educativas para os que se encontram nas prisões, amontoados, ociosos, relegados ao abandono, em meio a sujeira e promiscuidade.  Porque não proporcionar àqueles que prejudicaram a sociedade em dado momento a oportunidade de trabalhar a benefício dessa mesma sociedade...  E também porque não estabelecer para eles o estudo ao final do dia, com turmas organizadas em conformidade com o nível e as possibilidades de cada um...
Relembramos os comentários de Kardec na pergunta 685a de "O Livro dos Espíritos" (São Paulo: Petit Editora):  “Quando se pensa na massa de indivíduos diariamente lançados na corrente da população, sem princípios, sem freios, entregues aos próprios instintos, deve-se admirar das conseqüências desastrosas desse fato?  A desordem e a imprevidência são duas chagas que somente a educação bem compreendida pode curar.  Nisso está o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, a garantia da segurança de todos.”
Custa-nos quase acreditar que Allan Kardec escreveu isso em 1857, tamanha a sua atualidade...
Contudo, os mesmos amigos nos dão ainda a “dica” para a destruição do egoísmo, pai de todos os nossos problemas; nos dizem eles que “o egoísmo se enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a vida material”.
Com isso por acaso querem dizer que não precisamos da vida material, dos meios materiais para a sobrevivência da nossa vida física de forma digna e adequada?  Absolutamente.  Esses meios inclusive constituem o nosso ferramental evolutivo, "O Livro dos Espíritos" (São Paulo: Petit Editora), pergunta 230.  Afirmam tão somente que o que deve predominar em nós é o senso moral, a compreensão de que somente na vigência do respeito aos direitos individuais é que encontraremos a felicidade – tal como Jesus de Nazaré, esse bom e evoluído irmão, nos ensinou:  “faça ao próximo o que você deseja que ele lhe faça”.
Finalmente, ao constatar o que hoje se passa com a humanidade, compreendemos a resposta à pergunta de Kardec se os homens se entenderiam algum dia: “Sim, quando praticarem a lei de justiça” - "O Livro dos Espíritos" (São Paulo: Petit Editora), pergunta 812a.
Nós, espíritas, não estamos dispensados da nossa participação no meio e no desenvolvimento sócio-cultural, de acordo com as capacidades e faculdades de cada um de nós; muito ao contrário, pois aquele que conhece a doutrina espírita deverá estar bem melhor preparado do que qualquer outro para “assumir seu papel de colaborador na obra da criação”, "O Livro dos Espíritos" (São Paulo: Petit Editora), pergunta 132.  Como bem esclarecia nosso ilustre escritor e jornalista espírita Deolindo Amorim, “O Espiritismo quer o homem no mundo para ajudar a transformá-lo para melhor”, no livro "O Espiritismo e os Problemas Humanos".
Não basta nos reunirmos em grupos de prece, trancados em nossas casas espíritas ou em nossas próprias casas – cabe-nos agir, com amor, firmeza e decisão.  Não basta distribuir a cesta básica e o agasalho – é imperioso distribuir o esclarecimento, colaborar na educação de todas as formas ao nosso alcance.  Não basta querer justiça – é imprescindível auxiliar a implantá-la, a partir de nós, em nossos lares, na nossa vida profissional e até mesmo participando de manifestações, passeatas e protestos quando necessário, sem violência porém conscientes da nossa responsabilidade de cidadãos no mundo, de “seres inteligentes da criação”, "O Livro dos Espíritos" (São Paulo: Petit Editora), pergunta 76.
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Doris Madeira Gandres articulista espírita, dorisgandres@yahoo.com.br


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