Um
caso extremo do distúrbio dissociativo da
identidade faz com que vinte pessoas vivam da
artista inglesa Kim Noble.
Seu nome nos documentos é Kim Noble, mas Kim não
existe. No corpo que seria dela vivem mais de
vinte personalidades que não se conhecem, a não
ser por meio de relatos.
Kim, 45 anos, mora numa casa simples, no sul de
Londres, e convive com o DDI, distúrbio
dissociativo de identidade, desde a infância,
quando se dividiu em várias pessoas para se
proteger de traumas - abusos psicológicos e
físicos - sobre os quais até hoje não fala.
Há dez anos, depois de ser diagnosticada com as
mais diversas doenças, de anorexia à
esquizofrenia, passando por amnésia e estresse
pós-traumático, a medicina inglesa enquadrou Kim
como um caso extremo de DDI.
Kim e suas "personagens" pararam de tomar
remédios e são acompanhadas por um terapeuta
desde então. As idas a hospitais - que começaram
aos 14 anos, após uma tentativa de suicídio com
overdose de remédios - pararam. Há dois anos,
incentivadas por uma arteterapeuta, algumas
personalidades começaram a pintar.
Hoje, doze artistas e mais de trezentas telas
depois, a atividade ajuda Kim ( na verdade,
Patrícia, a personalidade mais presente) a
acompanhar quem esteve ocupando seu corpo - cada
pintor tem um estilo completamente diferente - e
a organizar a sua vida e a de sua filha, Aimee,
9 anos, com quem mora.
É Patrícia King quem recebe a Revista da
Folha em sua casa. Magra, simpática e falante,
ela trata com bom humor o distúrbio. Reclama
qual a última vez que apareceu um rato em sua
casa - episódio comum em Londres - ficou seis
horas em cima de um cadeira e nenhuma outra
personalidade apareceu para tirá-la da situação.
"Todas elas têm senso de humor. É uma
característica que passa por todo o sistema",
orgulha-se. Ela só perde o jeito debochado
quando fala sobre o período em que ficou sem a
guarda da filha, logo após seu nascimento, por
decisão do serviço social inglês, que a
considerou incapaz de tomar conta do bebê.
Ela brigou na Justiça durante seis meses até ter
Aimee de volta. Hoje, sua filha, que sabe da
síndrome, não se envergonha da mãe."Outro dia
perguntei para a Aimee como era ter uma mãe com
DDI e ela me respondeu: Como é não ter?''
Aimee tem um livro montado por Bonny, a "mãe"
mais presente no seus quatro primeiros anos de
vida, com explicações didáticas e infantis sobre
a síndrome. Para a filha, o distúrbio é normal,
acha Patrícia, e ela sabe até se diverte com as
várias possibilidades de convivência com a mãe -
quando MJ, uma personalidade ainda criança,
aparece, Aimee tira os sapatos e meias e sobe ao
estúdio para ajudá-la a pintar.
Aimee, como Patrícia, não quer que Kim busque
uma cura para o DDI. Alguns terapeutas acreditam
na integração, processo pelo qual todas as
personalidades, depois de acreditarem e
concordarem em superar o distúrbio e os traumas
mas, são levadas a se integrar e virar uma só.
"Expliquei há pouco tempo a integração para
Aimee e ela ficou chorosa, pensou que ia perder
a gente e em quem ficaria no lugar".
A personalidade que deu à luz Aimee, Dawn, ainda
procura pela filha que tiraram dela. Isso porque
Dawn não aceita o DDI. Embora todas já tenham
ouvido falar da síndrome, só Patrícia e Bonny
acreditam no distúrbio.
"Você tem que aceitar muita coisa num período
muito curto. Mas é também um alívio, porque
junta as peças. As outras personalidades estão
perdendo tanto. A Dawn, por exemplo, sente falta
da filha, a filha está lá e ela não pode ver.
Ela ama a Aimee, mas ainda quer a filha de
volta. Quando entender o DDI, olha o que já terá
perdido! E a Judy (uma adolescente bulímica), se
você falar que ela tem uma filha, ela vai dizer
que só tem 15 anos!"
Lapsos de memória - A própria
Patrícia demorou para acreditar e levou um
choque ao entender o distúrbio. Ela pensa ter 21
anos, e teve que aceitar que seu corpo tinha 41.
Isso, depois de ter ouvido durante seis anos que
tinha a síndrome.
"Quando me explicaram, eu dizia, não, estou só
bebendo demais. Era a minha desculpa. Acredito
que nenhuma personalidade vá aceitar o DDI até
estar pronta", diz Patrícia.
Os lapsos de memória são a principal marca da
troca entre as personalidades. É tudo o que cada
uma consegue perceber - um pulo no tempo e um
branco sobre o que passou. Mas Patrícia diz que
isso não é tudo põe elas, acostumadas à
situação desde a infância, como algo anormal.
"Quando você aprende que não é normal é que fica
difícil. Uma pessoa como a Judy, por exemplo,
acha que isso acontece com você também, é o
normal, não há razão para questionar. Então são
só as outras pessoas questionando, porque nunca
acontece com elas. Eu poderia virar para você e
dizer: Hum, é estranho, você está sempre aí. Não
tem ninguém para te ajudar? Você não percebeu
que isso não é normal? A realidade é que, sim,
você perde o tempo e tem lapsos de memória, e
não questionarmos isso. O questionário é o fato
de outras pessoas tomarem conta de seu corpo.
Isso é de outro planeta. Eu não questiono porque
agora sei sobre o DDI e tudo faz completo
sentido para mim", conclui.
Caso especial - Patrícia não sabe muito sobre
aquelas com quem dividiu seu corpo, sua casa e
seu tempo. Com a ajuda da terapia e da filha, já
conseguiu diferenciar vinte pessoas. Mas diz
que podem haver outras, ainda não identificadas.
Como nem todas aparecem com freqüência, coloca
oito na "linha de frente", as mais presentes e
sobre as quais sabe mais.
Ela às vezes deixa bilhetes para se comunicar
com as outras, com quem divide seu ateliê de
pintura, um quarto no sobrado onde mora.
"Geralmente, falo sobre as telas. Às vezes digo
que um quadro ficaria melhor de outro jeito. E
elas me respondem também com um bilhete, cuide
mais do seu nariz. Judy uma vez falou para Aimee
me dizer para eu não me meter mais na pintura
dela e cuidar da minha vida", ri.
É Patrícia quem organiza as exposições de Kim e
coloca em todos os quadros as iniciais KN. Foi a
arte que levou Patrícia a decidir assumir o DDI
publicamente, no ano passado. "Há um ano e meio
fui a uma galeria mostrar meu portofólio, e me
disseram para eu voltar quando meu estilo se
definisse. Nunca vai se definir. Foi difícil,
porque tive que agüentar as opiniões sobre DDI,
além das críticas à arte".
Desde então, Kim deu entrevistas a jornais e
programas de televisão e seu caso ganhou
dimensão nacional na Inglaterra. Patrícia diz
que esperava ouvir ofensas, mas que isso não
aconteceu. "Estou tendo muito retorno positivo.
Só me encorajou a continuar com a minha arte".
Kim nunca trabalhou fora, e sua arte, embora já
tenha vendido algumas telas (a mais cara por 700
libras, cerca de R$ 2.800, de autoria de Judy),
ainda não a sustenta. Patrícia diz que ela se
mantém por meio de doações. Distante dos pais e
da irmã mais velha, ela evita o assunto e afirma
que às vezes a família também ajuda. Mas são os
amigos que acompanham sua rotina, freqüentadores
assíduos de sua casa, para garantir que tudo
corra bem.
Hoje, Kim é também uma artista residente no
Hospital Universitário de Springfielde. Ela
trabalha com grupos de pacientes e ex-pacientes
psiquiátricos, junto com um terapeuta, pintando
e conversando. "Espero que as pinturas inspirem
outros pacientes psiquiátricos", diz.
Mesmo sabendo do DDI e lutando por uma vida
feliz, Patrícia abriu mão das relações amorosas.
"Nós não nos incomodamos mais com isso. Não há
mais tempo, com a arte e a Aimee. E também é
difícil, porque elas não escolhem o mesmo
homem." Patrícia não sabe quem é o pai de Aimee.
A personalidade mais presente de Kim também
decidiu não comer, por não conseguir controlar o
que as outras personalidades comem. "Se todas
tomassem café da manhã, a gente comeria vinte
vezes de manhã e ficaria muito gorda. Então não
como, e suponho que muitas não comam. Não sinto
fome. "Ela deixa para sua personalidade bulímica,
Judy, a função de fazer as refeições." Se a Judy
não aparecer, eu vou perder muito peso, e se ela
aparecer muito vou engordar", conclui.
Depois que começaram a pintar, as várias Kins
encontraram uma forma de expressar os
sentimentos que representam suas identidades. O
resultado são doze artistas (em um corpo), que
em pouco mais de um ano já fizeram quatorze
exposições. Para conhecer mais sobre as artistas
em Kim, visite o site www.kimnoble.com
Um distúrbio feminino
- Jhon Morton, professor do instituto de
neurociência cognitiva da university college, em
Londres, e pesquisador do DDI, explica mais
sobre a doença.
Por que Kim Noble é considerada um caso
extremo de DDI?
Eu a considero um caso extremo por duas razões.
A primeira é a profundidade da amnésia entre os
estados de personalidade que se alteram. Fiz
experimentos que envolvem ensinar algo a um
alter (personagem) e depois testar no qual Kim
foi a única pessoa com DDI que passou. O segundo
fator é que nenhum dos alteres que vi possuem
qualquer comunicação um com o outro. Em todos os
outros casos de DDI havia pelo menos dois
alteres capazes de se comunicar e ouvir o que
estava acontecendo lá fora quando outro estava
no controle, segundo os relatos.
O que causa a divisão em tantas
personalidades?
Há duas hipóteses. Primeiro, quase todos os
pacientes relatam profundos abusos sexuais e
físicos antes dos quatro anos. Com freqüência é
relatado que esse abuso é praticado por um
responsável, como os pais. A criança teria,
então, duas representações mutuamente
contraditórias desse individuo: uma daquele que
dá a vida e outra do que dá a dor.
O que se diz é que a criança se desassocia
durante o abuso para não sentir a dor. Dos
quatro aos cinco anos, quando ela está no
processo de integração da personalidade, isso é
impedido pela existência das representações
conflitantes. Assim, ela desenvolve outras
personalidades, com histórias autobiográficas
diferentes.
A segunda hipótese nega que esses indivíduos
foram abusados. Há uma combinação de fatores
sugerida, como o desejo de obter atenção, o DDI
como uma moda adotada por mulheres histéricas, e
terapeutas que influenciam seus pacientes a
apresentar certos sintomas.
Qual é a porcentagem da população com DDI? As
mulheres são mais afetadas?
O cálculo da porcentagem da população
depende de quão extensa é a definição do DDI.
Algumas pessoas classificam viver sonhando
acordado de dissociação. No outro extremo está
uma pessoa como Kim. Por isso, as estimativas
variam muito. De cerca de 5% da população para
algo como em 100 mil. Pacientes homens com DDI
são extremamente raros.
Existe uma cura para o DDI?
Não sou terapeuta, sou um psicólogo cognitivo
com um grande interesse na memória. Há aqueles
que acreditam na segunda explicação para o DDI,
sobre a qual me referi acima, que alegam que o
tratamento seria efetivamente ignorar o
distúrbio e se negar a permitir qualquer
apresentação de sintomas mais extravagantes. Se,
por outro lado, você acredita que o abuso tem
peso no distúrbio, existem alguns problemas
conceituais. A divisão em estados de
personalidade alternativos acontece para
proteger a personalidade que comanda a vida de
enfrentar "flashbacks" das memórias traumáticas
dos eventos da infância.
Questão cultural - por
Marianne Piemote
No Brasil, os distúrbios dissociativos são
incluídos entre os transtornos histriônicos.
Para Erlei Sassi, psiquiatra e coordenador do
Ambulatório de Transtornos de Personalidade do
Hospital das Clínicas de São Paulo, existem
descrições de quadros como o da inglesa Kim
Noble datados de mais de quatro mil anos.
No entanto, ele acredita que a doença seja
característica dos povos anglo-saxões. "A
prevalência desses transtornos tem aumentado
quase que somente nos Estados Unidos, o que
poderia indicar que se trata de uma síndrome
específica", disse.
Sassi acredita que esse tipo de problema é mais
comum em pacientes com quadros clínicos que
incluem alta sugestionabilidade. "Num país onde
há a cultura de religiões como a umbanda e o
candomblé, como o Brasil, esses quadros se
confundem com episódios de transe e possessão.
Há casos em que uma mulher recebe a "Maria" para
arrumar a casa ou baixa a cigana fulana de tal
para uma noite de sexo incomum com o marido, por
exemplo. Justamente por esse traço cultural,
podemos dizer que aqui há mais tolerância para
esse tipo de distúrbio", contou a Revista.
Para o psicanalista Contardo Calligaris, a "multiply
personality disorder" foi uma moda nos anos 70 e
80, desencadeada pelo livro "Sybil", da
norte-americana Flora Rheta Schreiber, publicado
em 1973 e transformado depois em filme. Na
versão cinematográfica protagonizada pela atriz
Sally Field, o Ápice da história é uma sessão de
terapia na qual ocorre a fusão de todas as
personalidades na mais atuante.
Leia outro artigo sobre o tema:
A escola em pânico
1ª e 2ª parte, do doutor Américo Canhoto
Pânico à luz do Espiritismo, do doutor
Américo Canhoto
Por que o medo
de sair de casa?,
do doutor Joel Rennó
Síndrome do pânico, de Valdeniza Sire
Voltar
para página principal...