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Uma mulher, 20 personalidades

CRISTINA FIBE (PARA A REVISTA DA FOLHA)

Um caso extremo do distúrbio dissociativo da identidade faz com que vinte pessoas vivam da artista inglesa Kim Noble.
Seu nome nos documentos é Kim Noble, mas Kim não existe. No corpo que seria dela vivem mais de vinte personalidades que não se conhecem, a não ser por meio de relatos.
Kim, 45 anos, mora numa casa simples, no sul de Londres, e convive com o DDI, distúrbio dissociativo de identidade, desde a infância, quando se dividiu em várias pessoas para se proteger de traumas - abusos psicológicos e físicos - sobre os quais até hoje não fala.
Há dez anos, depois de ser diagnosticada com as mais diversas doenças, de anorexia à esquizofrenia, passando por amnésia e estresse pós-traumático, a medicina inglesa enquadrou Kim como um caso extremo de DDI.
Kim e suas "personagens" pararam de tomar remédios e são acompanhadas por um terapeuta desde então. As idas a hospitais - que começaram aos 14 anos, após uma tentativa de suicídio com overdose de remédios - pararam. Há dois anos, incentivadas por uma arteterapeuta, algumas personalidades começaram a pintar.
Hoje, doze artistas e mais de trezentas telas depois, a atividade ajuda Kim ( na verdade, Patrícia, a personalidade mais presente) a acompanhar quem esteve ocupando seu corpo - cada pintor tem um estilo completamente diferente - e a organizar a sua vida e a de sua filha, Aimee, 9 anos, com quem mora.
É Patrícia King quem recebe a Revista da Folha em sua casa. Magra, simpática e falante, ela trata com bom humor o distúrbio. Reclama qual a última vez que apareceu um rato em sua casa - episódio comum em Londres - ficou seis horas em cima de um cadeira e nenhuma outra personalidade apareceu para tirá-la da situação.
"Todas elas têm senso de humor. É uma característica que passa por todo o sistema", orgulha-se. Ela só perde o jeito debochado quando fala sobre o período em que ficou sem a guarda da filha, logo após seu nascimento, por decisão do serviço social inglês, que a considerou incapaz de tomar conta do bebê.
Ela brigou na Justiça durante seis meses até ter Aimee de volta. Hoje, sua filha, que sabe da síndrome, não se envergonha  da mãe."Outro dia perguntei para a Aimee como era ter uma mãe com DDI e ela me respondeu: Como é não ter?''
Aimee tem um livro montado por Bonny, a "mãe" mais presente no seus quatro primeiros anos de vida, com explicações didáticas e infantis sobre a síndrome. Para a filha, o distúrbio é normal, acha Patrícia, e ela sabe até se diverte com as várias possibilidades de convivência com a mãe - quando MJ, uma personalidade ainda criança, aparece, Aimee tira os sapatos e meias e sobe ao estúdio para ajudá-la a pintar.
Aimee, como Patrícia, não quer que Kim busque uma cura para o DDI. Alguns terapeutas acreditam na integração, processo pelo qual todas as personalidades, depois de acreditarem e concordarem em superar o distúrbio e os traumas mas, são levadas a se integrar e virar uma só. "Expliquei há pouco tempo a integração para Aimee e ela ficou chorosa, pensou que ia perder a gente e em quem ficaria no lugar".
A personalidade que deu à luz Aimee, Dawn, ainda procura pela filha que tiraram dela. Isso porque Dawn não aceita o DDI. Embora todas já tenham ouvido falar da síndrome, só Patrícia e Bonny acreditam no distúrbio.
"Você tem que aceitar muita coisa num período muito curto. Mas é também um alívio, porque junta as peças. As outras personalidades estão perdendo tanto. A Dawn, por exemplo, sente falta da filha, a filha está lá e ela não pode ver. Ela ama a Aimee, mas ainda quer a filha de volta. Quando entender o DDI, olha o que já terá perdido! E a Judy (uma adolescente bulímica), se você falar que ela tem uma filha, ela vai dizer que só tem 15 anos!"
Lapsos de memória - A própria Patrícia demorou para acreditar e levou um choque ao entender o distúrbio. Ela pensa ter 21 anos, e teve que aceitar que seu corpo tinha 41. Isso, depois de ter ouvido durante seis anos que tinha a síndrome.
"Quando me explicaram, eu dizia, não, estou só bebendo demais. Era a minha desculpa. Acredito que nenhuma personalidade vá aceitar o DDI até estar pronta", diz Patrícia.
Os lapsos de memória são a principal marca da troca entre as personalidades. É tudo o que cada uma consegue perceber - um pulo no tempo e um branco sobre o que passou. Mas Patrícia diz que isso não é tudo  põe elas, acostumadas à situação desde a infância, como algo anormal.
"Quando você aprende que não é normal é que fica difícil. Uma pessoa como a Judy, por exemplo, acha que isso acontece com você também, é o normal, não há razão para questionar. Então são só as outras pessoas questionando, porque nunca acontece com elas. Eu poderia virar para você e dizer: Hum, é estranho, você está sempre aí. Não tem ninguém para te ajudar? Você não percebeu que isso não é normal? A realidade é que, sim, você perde o tempo e tem lapsos de memória, e não questionarmos isso. O questionário é o fato de outras pessoas tomarem conta de seu corpo. Isso é de outro planeta. Eu não questiono porque agora sei sobre o DDI e tudo faz completo sentido para mim", conclui.
Caso especial - Patrícia não sabe muito sobre aquelas com quem dividiu seu corpo, sua casa e seu tempo. Com a ajuda da terapia e da filha, já conseguiu diferenciar vinte pessoas. Mas diz  que podem haver outras, ainda não identificadas. Como nem todas aparecem com freqüência, coloca oito na "linha de frente", as mais presentes e sobre as quais sabe mais.
Ela às vezes deixa bilhetes para se comunicar com as outras, com quem divide seu ateliê de pintura, um quarto no sobrado onde mora. "Geralmente, falo sobre as telas. Às vezes digo que um quadro ficaria melhor de outro jeito. E elas me respondem  também com um bilhete, cuide mais do seu nariz. Judy uma vez falou para Aimee me dizer para eu não me meter mais na pintura dela e cuidar da minha vida", ri.
É Patrícia quem organiza as exposições de Kim e coloca em todos os quadros as iniciais KN. Foi a arte que levou Patrícia a decidir  assumir o DDI publicamente, no ano passado. "Há um ano e meio fui a uma galeria mostrar meu portofólio, e me disseram para eu voltar quando meu estilo se definisse. Nunca vai se definir. Foi difícil, porque tive que agüentar as opiniões sobre DDI, além das críticas à arte".
Desde então, Kim deu entrevistas a jornais e programas de televisão e seu caso ganhou dimensão nacional na Inglaterra. Patrícia diz que esperava ouvir ofensas, mas que isso não aconteceu. "Estou tendo muito retorno positivo. Só me encorajou a continuar com a minha arte".
Kim nunca trabalhou fora, e sua arte, embora já tenha vendido algumas telas (a mais cara por 700 libras, cerca de R$ 2.800, de autoria de Judy), ainda não a sustenta. Patrícia diz que ela se mantém por meio de doações. Distante dos pais e da irmã mais velha, ela evita o assunto e afirma que às vezes a família também ajuda. Mas são os amigos que acompanham sua rotina, freqüentadores assíduos de sua casa, para garantir que tudo corra bem.
Hoje, Kim é também uma artista residente no Hospital Universitário de Springfielde. Ela trabalha com grupos de pacientes e ex-pacientes psiquiátricos, junto com um terapeuta, pintando e conversando. "Espero que as pinturas inspirem outros pacientes psiquiátricos", diz.
Mesmo sabendo do DDI e lutando por uma vida feliz, Patrícia abriu mão das relações amorosas. "Nós não nos incomodamos mais com isso. Não há mais tempo, com a arte e a Aimee. E também é difícil, porque elas não escolhem o mesmo homem." Patrícia não sabe quem é o pai de Aimee.
A personalidade mais presente de Kim também decidiu não comer, por não conseguir controlar o que as outras personalidades comem. "Se todas tomassem café da manhã, a gente comeria vinte vezes de manhã e ficaria muito gorda. Então não como, e suponho que muitas não comam. Não sinto fome. "Ela deixa para sua personalidade bulímica, Judy, a função de fazer as refeições." Se a Judy não aparecer, eu vou perder muito peso, e se ela aparecer muito vou engordar", conclui.
Depois que começaram a pintar, as várias Kins encontraram uma forma de expressar os sentimentos que representam suas identidades. O resultado são doze artistas (em um corpo), que em pouco mais de um ano já fizeram quatorze exposições. Para conhecer mais sobre as artistas em Kim, visite o site www.kimnoble.com
Um distúrbio feminino - Jhon Morton, professor do instituto de neurociência cognitiva da university college, em Londres, e pesquisador do DDI, explica mais sobre a doença.
Por que Kim Noble é considerada um caso extremo de DDI?
Eu a considero um caso extremo por duas razões. A primeira é a profundidade da amnésia entre os estados de personalidade que se alteram. Fiz experimentos que envolvem ensinar algo a um alter (personagem) e depois testar no qual Kim foi a única pessoa com DDI que passou. O segundo fator é que nenhum dos alteres que vi possuem qualquer comunicação um com o outro. Em todos os outros casos de DDI havia pelo menos dois alteres capazes de se comunicar e ouvir o que estava acontecendo lá fora quando outro estava no controle, segundo os relatos.
O que causa a divisão em tantas personalidades?
Há duas hipóteses. Primeiro, quase todos os pacientes relatam profundos abusos sexuais e físicos antes dos quatro anos. Com freqüência é relatado que esse abuso é praticado por um responsável, como os pais. A criança teria, então, duas representações mutuamente contraditórias desse individuo: uma daquele que dá a vida e outra do que dá a dor.
O que se diz é que a criança se desassocia durante o abuso para não sentir a dor. Dos quatro aos cinco anos, quando ela está no processo de integração da personalidade, isso é impedido pela existência das representações conflitantes. Assim, ela desenvolve outras personalidades, com histórias autobiográficas diferentes.
A segunda hipótese nega que esses indivíduos foram abusados. Há uma combinação de fatores sugerida, como o desejo de obter atenção, o DDI como uma moda adotada por mulheres histéricas, e terapeutas que influenciam seus pacientes a apresentar certos sintomas.
Qual é a porcentagem da população com DDI? As mulheres são mais afetadas?
O cálculo da porcentagem da população depende de quão extensa é a definição do DDI. Algumas pessoas classificam viver sonhando acordado de dissociação. No outro extremo está uma pessoa como Kim. Por isso, as estimativas variam muito. De cerca de 5% da população para algo como em 100 mil. Pacientes homens com DDI são extremamente raros.
Existe uma cura para o DDI?
Não sou terapeuta, sou um psicólogo cognitivo com um grande interesse na memória. Há aqueles que acreditam na segunda explicação para o DDI, sobre a qual me referi acima, que alegam que o tratamento seria efetivamente ignorar o distúrbio e se negar a permitir qualquer apresentação de sintomas mais extravagantes. Se, por outro lado, você acredita que o abuso tem peso no distúrbio, existem alguns problemas conceituais. A divisão em estados de personalidade alternativos acontece para proteger a personalidade que comanda a vida de enfrentar "flashbacks" das memórias traumáticas dos eventos da infância.
Questão cultural - por Marianne Piemote
No Brasil, os distúrbios dissociativos são incluídos entre os transtornos histriônicos. Para Erlei Sassi, psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Transtornos de Personalidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, existem descrições de quadros como o da inglesa Kim Noble datados de mais de quatro mil anos.
No entanto, ele acredita que a doença seja característica dos povos anglo-saxões. "A prevalência desses transtornos tem aumentado quase que somente nos Estados Unidos, o que poderia indicar que se trata de uma síndrome específica", disse.
Sassi acredita que esse tipo de problema é mais comum em pacientes com quadros clínicos que incluem alta sugestionabilidade. "Num país onde há a cultura de religiões como a umbanda e o candomblé, como o Brasil, esses quadros se confundem com episódios de transe e possessão. Há casos em que uma mulher recebe a "Maria" para arrumar a casa ou baixa a cigana fulana de tal para uma noite de sexo incomum com o marido, por exemplo. Justamente por esse traço cultural, podemos dizer que aqui há mais tolerância para esse tipo de distúrbio", contou a Revista.
Para o psicanalista Contardo Calligaris, a "multiply personality disorder" foi uma moda nos anos 70 e 80, desencadeada pelo livro "Sybil", da norte-americana Flora Rheta Schreiber, publicado em 1973 e transformado depois em filme. Na versão cinematográfica protagonizada pela atriz Sally Field, o Ápice da história é uma sessão de terapia na qual ocorre a fusão de todas as personalidades na mais atuante.


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