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Allan Kardec (1804-1869)

Kardec: um dos mais fervorosos discípulos de Pestalozzi

AFONSO MOREIRA JR.

Antes de dedicar-se ao Espiritismo, Allan Kardec – pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail – exerceu, por trinta anos, a tarefa de educador. Discípulo de Pestalozzi, foi o autor de diversas obras didáticas que o conceituaram, na época, como respeitável intelectual e educador. A partir de 1855, interessado no fenômeno das “mesas girantes”, por intermédio das quais os espíritos se manifestavam, dedicou-se a estudar as origens daquelas ocorrências, consideradas até então sobrenaturais. Em 18 de abril de 1857, lançou “O Livro dos Espíritos” (São Paulo: Petit Editora), criando a expressão espírita, para aqueles que adotassem a Doutrina Espírita como norma de vida. Em 1858 fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, e a "Revista Espírita". Anos depois de sua morte, seus fiéis continuadores publicaram “Obras Póstumas”, contendo, entre textos inéditos, de sua autoria, informações sobre sua iniciação no Espiritismo e bases para o conhecimento do desenvolvimento e propagação da Doutrina Espírita.
Natural de Lyon, na França, nasceu em 3 de outubro de 1804. Seus pais foram Jean-Baptiste Antoine Rivail, magistrado íntegro, e Jeanne Louise Duhamel. Ainda na infância, Kardec revelou-se inteligente, observador, inclinado para o estudo das ciências e da filosofia. Seu comportamento, responsável e respeitoso, contribuiu muito para o progresso de seus estudos, iniciados em Lyon e complementados, a partir dos dez anos no famoso Instituto de Educação Pestalozzi, em Yverdun, Suíça, no castelo Zähringen. A educação voltada para a fraternidade e o respeito ao próximo transmitida por Pestalozzi encontrou no menino, Allan Kardec, campo fértil para se desenvolver, convertendo-o em um dos mais fervorosos discípulos do educador e filósofo, respeitado em toda a Europa. Essa dedicação refletiu-se mais tarde, em várias ocasiões. Entre elas, quando no ano de 1824 Kardec, aos dezenove anos de idade, publicou seu primeiro livro, "Cours pratique et théorique d’Arithmétique d’aprés la méthode de Pestalozzi, avec dês modifications", assinando “par H.L.D. Rivail, disciple de Pestalozzi”, em dois volumes, com um total de 624 páginas. O valor de seu trabalho confirmou-se nas sucessivas reedições da obra, sendo que a segunda reedição ocorreu no mesmo ano do lançamento.
No ano de 1828, tornou público seu estudo “Plan proposé pour l’amélioration de l’education publique”, com a finalidade de contribuir para a melhoria do ensino às crianças, propondo a criação de uma escola teórica e prática de pedagogia. No ano de 1831, revelando notável memória na defesa da tese “Quel est lê système d’etudes lê plus em harmonie avec lês besoins de l’époque?”, Kardec foi premiado pela Academia Real de Arrás.
No dia 6 de fevereiro de 1832, casou-se com Amélie-Gabrielle Boudet, professora de Letras e Belas Artes, apesar de ter nove anos a mais que Allan Kardec, não aparentava essa diferença, tal a jovialidade física e espiritual que sempre demonstrou.
No ano de 1835, sofreu sérios reveses – quem sabe para testar sua fé em Deus e em si mesmo – ao encerrar as atividades do Instituto Rivail, que era dirigido por ele com elevado espírito missionário e total desprendimento pessoal. A quantia que lhe coube referente à liquidação do estabelecimento foi entregue a um negociante que, realizando negócios sem sucesso, perdeu seu patrimônio, impossibilitando-o assim, de restituir a Kardec a importância devida.
Sem esmorecer, contando com o apoio incondicional da esposa que nunca lhe faltou, Kardec ofereceu seus serviços de contador a estabelecimentos comerciais, dedicando-se, à noite, na organização de novos textos pedagógicos. Nessa época, de 1835 a 1840, ministrou, em sua própria casa, cursos gratuitos de química, física, astronomia, fisiologia e anatomia comparada.
Dirigiu, até o ano de 1850, o Liceu Polimático, na qualidade de “chef d’institution” da Academia de Paris. Adotando o mesmo lema de Rousseau e Pestalozzi – trabalho, solidariedade e esperança – Kardec destacou-se por um trabalho incansável em favor da educação. Foi respeitado e prestigiado pela sociedade francesa, possuía cerca de dezenove obras pedagógicas – algumas delas com mais de uma dezena de edições – e muitas adotadas pela Universidade de França.
Ainda a título de avaliar-se o valor desse que é denominado o Codificador do Espiritismo, mencionamos alguns dos diplomas que recebeu, durante o exercício de seu trabalho, nas funções de professor e diretor de estabelecimento de ensino:
Fundador da Sociedade de Previdência dos Diretores de Instituições e Pensões de Paris.
Diploma da Sociedade para a Instrução Elementar.
Diploma do Instituto de Línguas
Diploma da Sociedade de Ciências Naturais da França
Diploma da Sociedade de Educação Nacional
Diploma da Sociedade Gramatical e da Sociedade Real de Emulação de Agricultura, Ciências, Letras e Artes do Departamento do Ain.
Diploma do Instituto Histórico
Diploma da Sociedade Francesa de Estatística Universal
Diploma da Sociedade Promotora da Indústria Nacional
Diploma da Academia da Indústria
Diploma da Academia Real das Ciências de Arrás
Profundo conhecedor do idioma alemão, dominava o inglês e o holandês. Seus conhecimentos abrangiam ainda o latim, o grego, o gaulês e línguas novilatinas.
Essa bagagem respeitável foi o respaldo intelectual e moral para que Kardec assumisse a tarefa de empreender o notável trabalho que o aguardava junto à Espiritualidade. No ano de 1855, ao observar fatos mediúnicos de natureza incontestável, declarou: “Eu entrevia naquelas aparentes futilidades, no passatempo em que haviam transformado aqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo”. Kardec pesquisou o fenômeno que se transformou em verdadeira celeuma na Europa, as mesas girantes. Levando para os encontros com os espíritos uma série de perguntas sobre problemas diversos, Kardec impressionou-se diante das respostas precisas e inteligentes, que demonstravam lógica e profundeza de conhecimentos.
Foi no ano de 1856, no dia 30 de abril, na casa de Rostam, que a médium Japhet, transmitiu, pela primeira vez a Kardec, a missão que caberia a ele desempenhar. A mesma informação, em outros locais e circunstâncias, confirmou-se igualmente. Kardec empreendeu seu trabalho em bases sólidas de observação e comparação, desenvolvendo suas observações a partir do método da experimentação.
Organizando as informações de que dispunha, a partir de perguntas respondidas pelos espíritos, considerações e mensagens mediúnicas, Kardec enviou para o prelo – no início do ano de 1857 – os originais de "O Livro dos Espíritos", lançado no dia 18 de abril do mesmo ano. A obra alcançou êxito surpreendente. Com 176 páginas, diagramadas em duas colunas, à direita as perguntas e, à esquerda as respostas. Naquela primeira impressão, "O Livro dos Espíritos" apresentou 501 perguntas, tratando dos temas em que se dividia o texto: Doutrina Espírita, Leis Morais, Esperanças e Consolações. É interessante a razão do pseudônimo – Allan Kardec – adotado para assinar a obra. Ficou indeciso quanto a identificar o autor como o conhecido pedagogo que era, temendo causar desentendimento quanto ao grandioso conteúdo que poderia ser confundido simplesmente como mais um trabalho de sua própria autoria, o que não era verdadeiro. Movido por essas considerações, sentiu-se seguro para assinar a obra como Allan Kardec. Esse nome, segundo revelação dos espíritos, fora seu em uma de suas encarnações, vivida entre o povo druida.
Dedicando-se com idealismo, empenho e perseverança na tarefa que abraçou incondicionalmente, sacrificando sua vida pessoal e familiar, Kardec prosseguiu. Suas obras compreendem:
O Livro dos Espíritos, 1857
Revista Espírita, 1857 a 1869, sob sua direção
O que é o Espiritismo?, 1859
O Livro dos Médiuns, 1861
O Espiritismo em sua Expressão mais Simples, 1862
O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1864
O Céu e o Inferno, 1865
A Gênese, 1868
Viagem Espírita, 1862
Obras póstumas, 1890
Aos 64 anos de idade, Kardec voltou sua atenção para um estudo que compreendia o desenvolvimento do lado prático e social da Doutrina Espírita. A divulgação espírita exigia grandes esforços físicos de sua parte: desde o ano de 1860, realizava palestras na França e na Bélgica. No dia 31 de março do ano de 1869, Kardec preparava-se para mudar de residência. Nessa ocasião, um aneurisma cerebral interrompeu sua vida material: Kardec desencarnou, sem sofrimentos ou despedidas, levado para nossa verdadeira pátria – o mundo dos espíritos.
O túmulo onde se encontram os despojos de Allan Kardec – ao lado de sua querida esposa Amélie-Gabrielle Boudet – está situado em Pére-Lachaise. Discursando no dia da cerimônia fúnebre, o célebre astrônomo Camille Flammarion sintetizou a expressão daquele que não mediu sacrifícios pessoais no cumprimento do seu dever: “Kardec foi o bom senso encarnado”.

Bibliografia:
Zêus Wantuil, Grandes espíritas do Brasil, Grandes Espíritas do Brasil. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
Canuto de Abreu, O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária. São Paulo: LFU – Lar da Família Universal.


Relação de artigos de Afonso Moreira Jr...

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AFONSO MOREIRA JR. é expositor e colaborador na "Federação Espírita do Estado de São Paulo", diretor responsável pelo "Grupo Espírita Geam", Rua Força Pública, 24 (Santana), São Paulo, SP. Telefone (11) 6221-1464, autor de obras paradidáticas e editor do Jornal dos Espíritos, e-mail afonsomoreirajr@jornaldosespiritos.com


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