|
Antes de dedicar-se ao Espiritismo,
Allan Kardec – pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail –
exerceu, por trinta anos, a tarefa de educador. Discípulo de
Pestalozzi, foi o autor de diversas obras didáticas que o
conceituaram, na época, como respeitável intelectual e educador. A
partir de 1855, interessado no fenômeno das “mesas girantes”, por
intermédio das quais os espíritos se manifestavam, dedicou-se a
estudar as origens daquelas ocorrências, consideradas até então
sobrenaturais.
Em 18 de abril de 1857, lançou “O Livro dos Espíritos” (São Paulo:
Petit Editora), criando a expressão espírita, para aqueles
que adotassem a Doutrina Espírita como norma de vida. Em 1858 fundou
a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, e a "Revista Espírita".
Anos depois de sua morte, seus fiéis continuadores publicaram “Obras
Póstumas”, contendo, entre textos inéditos, de sua autoria,
informações sobre sua iniciação no Espiritismo e bases para o
conhecimento do desenvolvimento e propagação da Doutrina Espírita.
Natural de Lyon, na França, nasceu em 3 de outubro de 1804. Seus
pais foram Jean-Baptiste Antoine Rivail, magistrado íntegro, e
Jeanne Louise Duhamel. Ainda na infância, Kardec revelou-se
inteligente, observador, inclinado para o estudo das ciências e da
filosofia. Seu comportamento, responsável e respeitoso, contribuiu
muito para o progresso de seus estudos, iniciados em Lyon e
complementados, a partir dos dez anos no famoso Instituto de
Educação Pestalozzi, em Yverdun, Suíça, no castelo Zähringen. A
educação voltada para a fraternidade e o respeito ao próximo
transmitida por Pestalozzi encontrou no menino, Allan Kardec, campo
fértil para se desenvolver, convertendo-o em um dos mais fervorosos
discípulos do educador e filósofo, respeitado em toda a Europa. Essa
dedicação refletiu-se mais tarde, em várias ocasiões. Entre elas,
quando no ano de 1824 Kardec, aos dezenove anos de idade, publicou
seu primeiro livro, "Cours pratique et théorique d’Arithmétique d’aprés
la méthode de Pestalozzi, avec dês modifications", assinando “par
H.L.D. Rivail, disciple de Pestalozzi”, em dois volumes, com um
total de 624 páginas. O valor de seu trabalho confirmou-se nas
sucessivas reedições da obra, sendo que a segunda reedição ocorreu
no mesmo ano do lançamento.
No ano de 1828, tornou público seu estudo “Plan proposé pour l’amélioration
de l’education publique”, com a finalidade de contribuir para a
melhoria do ensino às crianças, propondo a criação de uma escola
teórica e prática de pedagogia. No ano de 1831, revelando notável
memória na defesa da tese “Quel est lê système d’etudes lê plus em
harmonie avec lês besoins de l’époque?”, Kardec foi premiado pela
Academia Real de Arrás.
No dia 6 de fevereiro de 1832, casou-se com Amélie-Gabrielle Boudet,
professora de Letras e Belas Artes, apesar de ter nove anos a mais
que Allan Kardec, não aparentava essa diferença, tal a jovialidade
física e espiritual que sempre demonstrou.
No ano de 1835, sofreu sérios reveses – quem sabe para testar sua fé
em Deus e em si mesmo – ao encerrar as atividades do Instituto
Rivail, que era dirigido por ele com elevado espírito missionário e
total desprendimento pessoal. A quantia que lhe coube referente à
liquidação do estabelecimento foi entregue a um negociante que,
realizando negócios sem sucesso, perdeu seu patrimônio,
impossibilitando-o assim, de restituir a Kardec a importância
devida.
Sem esmorecer, contando com o apoio incondicional da esposa que
nunca lhe faltou, Kardec ofereceu seus serviços de contador a
estabelecimentos comerciais, dedicando-se, à noite, na organização
de novos textos pedagógicos. Nessa época, de 1835 a 1840, ministrou,
em sua própria casa, cursos gratuitos de química, física,
astronomia, fisiologia e anatomia comparada.
Dirigiu, até o ano de 1850, o Liceu Polimático, na qualidade de
“chef d’institution” da Academia de Paris. Adotando o mesmo lema de
Rousseau e Pestalozzi – trabalho, solidariedade e esperança – Kardec
destacou-se por um trabalho incansável em favor da educação. Foi
respeitado e prestigiado pela sociedade francesa, possuía cerca de
dezenove obras pedagógicas – algumas delas com mais de uma dezena de
edições – e muitas adotadas pela Universidade de França.
Ainda a título de avaliar-se o valor desse que é denominado o
Codificador do Espiritismo, mencionamos alguns dos diplomas que
recebeu, durante o exercício de seu trabalho, nas funções de
professor e diretor de estabelecimento de ensino:
Fundador da Sociedade de Previdência dos Diretores de Instituições e
Pensões de Paris.
Diploma da Sociedade para a
Instrução Elementar.
Diploma do Instituto de
Línguas
Diploma da Sociedade de Ciências Naturais da França
Diploma da Sociedade de
Educação Nacional
Diploma da Sociedade
Gramatical e da Sociedade Real de Emulação de Agricultura, Ciências,
Letras e Artes do Departamento do Ain.
Diploma do Instituto Histórico
Diploma da Sociedade Francesa
de Estatística Universal
Diploma da Sociedade Promotora
da Indústria Nacional
Diploma da Academia da
Indústria
Diploma da Academia Real das
Ciências de Arrás
Profundo conhecedor do idioma alemão, dominava o inglês e o
holandês. Seus conhecimentos abrangiam ainda o latim, o grego, o
gaulês e línguas novilatinas.
Essa bagagem respeitável foi o respaldo intelectual e moral para que
Kardec assumisse a tarefa de empreender o notável trabalho que o
aguardava junto à Espiritualidade. No ano de 1855, ao observar fatos
mediúnicos de natureza incontestável, declarou: “Eu entrevia
naquelas aparentes futilidades, no passatempo em que haviam
transformado aqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a
revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo”. Kardec
pesquisou o fenômeno que se transformou em verdadeira celeuma na
Europa, as mesas girantes. Levando para os encontros com os
espíritos uma série de perguntas sobre problemas diversos, Kardec
impressionou-se diante das respostas precisas e inteligentes, que
demonstravam lógica e profundeza de conhecimentos.
Foi no ano de 1856, no dia 30 de abril, na casa de Rostam, que a
médium Japhet, transmitiu, pela primeira vez a Kardec, a missão que
caberia a ele desempenhar. A mesma informação, em outros locais e
circunstâncias, confirmou-se igualmente. Kardec empreendeu seu
trabalho em bases sólidas de observação e comparação, desenvolvendo
suas observações a partir do método da experimentação.
Organizando as informações de que dispunha, a partir de perguntas
respondidas pelos espíritos, considerações e mensagens mediúnicas,
Kardec enviou para o prelo – no início do ano de 1857 – os originais
de "O Livro dos Espíritos", lançado no dia 18 de abril do mesmo ano.
A obra alcançou êxito surpreendente. Com 176 páginas, diagramadas em
duas colunas, à direita as perguntas e, à esquerda as respostas.
Naquela primeira impressão, "O Livro dos Espíritos" apresentou 501
perguntas, tratando dos temas em que se dividia o texto: Doutrina
Espírita, Leis Morais, Esperanças e Consolações. É interessante a
razão do pseudônimo – Allan Kardec – adotado para assinar a obra.
Ficou indeciso quanto a identificar o autor como o conhecido
pedagogo que era, temendo causar desentendimento quanto ao grandioso
conteúdo que poderia ser confundido simplesmente como mais um
trabalho de sua própria autoria, o que não era verdadeiro. Movido
por essas considerações, sentiu-se seguro para assinar a obra como
Allan Kardec. Esse nome, segundo revelação dos espíritos, fora seu
em uma de suas encarnações, vivida entre o povo druida.
Dedicando-se com idealismo, empenho e perseverança na tarefa que
abraçou incondicionalmente, sacrificando sua vida pessoal e
familiar, Kardec prosseguiu. Suas obras compreendem:
O Livro dos Espíritos, 1857
Revista Espírita, 1857 a 1869,
sob sua direção
O que é o Espiritismo?, 1859
O Livro dos Médiuns, 1861
O Espiritismo em sua Expressão mais Simples, 1862
O Evangelho Segundo o
Espiritismo, 1864
O Céu e o Inferno, 1865
A Gênese, 1868
Viagem Espírita, 1862
Obras póstumas, 1890
Aos 64 anos de idade, Kardec voltou sua atenção para um estudo que
compreendia o desenvolvimento do lado prático e social da Doutrina
Espírita. A divulgação espírita exigia grandes esforços físicos de
sua parte: desde o ano de 1860, realizava palestras na França e na
Bélgica. No dia 31 de março do ano de 1869, Kardec preparava-se para
mudar de residência. Nessa ocasião, um aneurisma cerebral
interrompeu sua vida material: Kardec desencarnou, sem sofrimentos
ou despedidas, levado para nossa verdadeira pátria – o mundo dos
espíritos.
O túmulo onde se encontram os despojos de Allan Kardec – ao lado de
sua querida esposa Amélie-Gabrielle Boudet – está situado em
Pére-Lachaise. Discursando no dia da cerimônia fúnebre, o célebre
astrônomo Camille Flammarion sintetizou a expressão daquele que não
mediu sacrifícios pessoais no cumprimento do seu dever: “Kardec foi
o bom senso encarnado”.
|