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ZAMENHOF E O ESPERANTO
PERGUNTA:
O fato de Zamenhof nascer na Lituânia e haver descendido da raça
hebraica não tem, porventura, ligação com um plano diretamente
supervisionado pelo Espaço? Poderíamos crer que Zamenhof foi
realmente um predestinado para desempenhar a missão de
introduzir o Esperanto na Terra?
ESPÍRITO: Bastar-vos-á um pouco de reflexão para
verificardes que o espírito de Zamenhof reencarnou na Terra
exatamente no clima psicológico mais propício ao advento do
Esperanto. Na época de seu nascimento, em meados do século
dezenove, sua pátria era palco de tal confusão de idiomas, que
se poderia julgá-la um verdadeiro experimento prático de
internacionalidade lingüística. Afora os inúmeros dialetos
falados na pequena Lituânia, não só predominavam ali quatro
línguas principais e diferentes entre si, como ainda eram várias
as crenças dos seus habitantes. Devido ao desentendimento
contundente entre as próprias famílias, pois que os seus membros
mais íntimos tanto divergiam em matéria de fé como no falar,
sucediam-se inúmeros conflitos que acirravam velhos ódios e
culminavam em lutas sangrentas. Era um mundículo estranho,
alimentado por objetivos contraditórios e assaz caprichosos,
constituído por um punhado de criaturas que se odiavam e
hostilizavam, em virtude de não se ajustarem satisfatoriamente
através de um idioma pátrio comum.
Aumentava a desconfiança e se difundia o sarcasmo religioso
entre todos, pois, se num mesmo país, entre homens da mesma raça
e relacionados por um único idioma, não se conseguem evitar
conflitos e crimes resultantes da diferença de Crença religiosa,
imaginai o que ocorria na Lituânia, na época do nascimento de
Luís Lázaro Zamenhof, quando existiam ali quatro idiomas
principais, que só serviam para implantar antipatias e desordens
entre os seus conterrâneos.
Esse conflito idiomático e religioso entre os seus compatriotas
é que despertou no cérebro daquele estudante pobre e
profundamente fraterno o ideal de uma língua internacional,
capaz de ser um veículo afetuoso de entendimento humano entre
todos os homens. Como se tratava de um espírito assaz evoluído,
Zamenhof não cogitou de instituir um idioma neutro apenas para a
Lituânia, que era sua pátria, dividida pelo linguajar dos
judeus, polacos, russos e lituanos, e ainda algemada pelas suas
contradições religiosas, que acirravam ódios irremovíveis entre
todos. Mas ele, reconhecendo que a sua pátria tão contraditória
era apenas a miniatura do próprio mundo onde viera reencarnar,
refletia em que, se todos os homens pudessem compreender-se sob
um mesmo idioma, ainda que se tratasse de uma língua nova, não
seria difícil uma aproximação e confraternização afetuosa entre
eles. Graças, pois, à tenacidade e ao sacrifício, aliados à
pureza de intenção e ao ideal que sempre lhe inspirara os atos,
o jovem estudante Zamenhof conseguiu desempenhar a contento, na
Terra, a sua grandiosa missão.
PERGUNTA: Os progenitores de Zamenhof também influíram
para a realização desse ideal?
ESPÍRITO: Os mentores da "Missão Esperanto"
proporcionaram a Zamenhof o ambiente doméstico e a necessária
influência psicológica dos seus pais, a fim de que a semente
adormecida no seu coração boníssimo pudesse ser preservada até o
instante previsto para a sua divina eclosão. Marcos Zamenhof,
pai de Luís Lázaro Zamenhof, encontrava-se sob a tutela russa;
era um excelente pedagogo, homem prático, decidido e reto nos
seus deveres profissionais; a sua passagem pela Lituânia foi
marcada por uma conduta própria de um excelente cidadão regrado,
útil e benfeitor à sua coletividade. Rosália Soler, sua esposa,
filha de comerciante hebreu, era um espírito de graduação
superior no Espaço, pois, além de mulher terna e mãe extremosa
que foi para com o seu primogênito Luís, foi realmente quem
cultivou no seu coração os rebentos de alta espiritualidade, que
depois deveriam predominar na sua fase adulta. As importantes
manifestações de zelo, e o critério de elevado teor espiritual
bastante desenvolvido em Zamenhof, desabrocharam graças ao rigor
paterno e à doçura e estímulos maternos; mesmo os quatro irmãos
e as três irmãs de Luís não lhe causaram aborrecimentos nem com
ele promoveram conflitos de ordem sentimental. A vida da família
transcorria sob a atmosfera de austeridade imposta por Marcos
Zamenhof e suavizada pelo espírito compreensivo e delicado de
Rosália Soler.
Enquanto a terna Rosália acendia as luzes espirituais no coração
de Luís, seu pai, enérgico, prático e sob a orientação do
Espaço, modelava-lhe o caráter e impunha-lhe a disciplina tão
necessária para que o seu idealismo frutificasse de modo
positivo e lógico entre as dificuldades próprias do mundo
material. Luiz Zamenhof muito gozou, também, daquele magnífico
"bom senso" que na Terra caracterizou a figura impressionante de
Allan Kardec por ocasião da codificação do Espiritismo. Tanto
quanto sucede com o Espiritismo, esse bom senso ainda é hoje,
também, a garantia indiscutível da estrutura doutrinária
esperantista, na qual a ordem e a lógica constituem suas bases
definitivas e suas regras fundamentais. Naquele pequeno caos de
desentendimento idiomático e de hostilidades religiosas, que era
a Lituânia, Luís Lázaro Zamenhof instalou o seu arsenal de boa
vontade, disciplina e coerência, extraindo, ao vivo, o material
necessário para compor o magnífico idioma que há de ser, no
futuro, o instrumento definitivo das relações verbais entre os
homens terrícolas!
Marcos Zamenhof, seu pai, além de ser homem disciplinado,
prático e professor emérito, aceitara a profissão de censor de
imprensa, desejando assim aproveitar seus avançados
conhecimentos de línguas estrangeiras. Isto ajudou-o muitíssimo
a desenvolver-se para compor e editar em russo vários livros
didáticos sobre geografia, auxiliando-o também no desembaraço
intelectual do seu primogênito, o que resultou para o filho em
grande favorecimento para o estudo sensato das bases definitivas
do futuro idioma internacional!
A semelhança do ocorrido com Allan Kardec, quando codificava o
Espiritismo, Luís Lázaro Zamenhof sempre esteve debaixo da
supervisão coordenadora dos mentores e técnicos desencarnados,
do Além, impondo então a si aquela integridade de trabalho e
honestidade de ação, que tanto enobreceram a estrutura básica do
Esperanto.
Em verdade, foi ele um gênio que superou os mais difíceis
obstáculos, e basta uma singela observação de sua vida abençoada
para se poder comprovar que o seu caráter se firmou sobre três
preciosos elementos, que foram do mais valioso préstimo à sua
obra; Zamenhof herdara a inteligência e a energia do pai e o
coração e a bondade da progenitora, mas também cunhara
definitivamente, em si mesmo, as impressões do próprio lugar
onde viera nascer, compondo, assim, a moldura precisa para a sua
obra esperantista que, acima de tudo, é um importante objetivo
da natureza espiritual.
PERGUNTA: Zamenhof revelou desde cedo vocação para o
Esperanto ou tudo foi produto de uma eclosão posterior, como às
vezes ocorre na esfera da arte ou da ciência, quando se revelam
gênios que antes viviam em completa obscuridade?
ESPÍRITO: Ele foi um eleito pelo Alto para essa missão,
pois a sua vida foi sempre de uma dedicação incessante para com
esse nobre ideal. Desde moço se pôs a observar a falta de
compreensão entre os polacos, russos, hebreus e alemães, cujas
hostilidades, conforme já vos dissemos, geravam por vezes
conflitos homicidas e requeriam até intervenção das autoridades
para solucionarem as pendências sangrentas! Zamenhof percebeu a
luta tenaz de cada grupo nacionalista, tentando impor o seu
próprio idioma como língua oficial e de uso obrigatório em toda
a região. Desses esforços dispersivos e egocêntricos se
aproveitavam os mais hábeis políticos, e usufruíam vantagens
pessoais, embora fazendo conluios vergonhosos com interesses
estrangeiros e prejudiciais à sua comunidade. A preocupação
partidária do nacionalismo feroz, que cada grupo defendia sem
qualquer consideração aos prejuízos alheios, as contendas
insolúveis ante a heterogeneidade de vários idiomas falados no
mesmo agrupamento pátrio, terminaram comprovando a Zamenhof que
só seria possível uma solução definitiva pela adoção de uma
língua neutra, capaz de não ferir os brios patrióticos de nenhum
daqueles povos adversos.
E ele acabou por admitir que o próprio mundo terreno não passava
de outra Lituânia em grandes proporções, onde as nações se
atritam e semeiam a confusão sob códigos verbais tão diferentes.
Não lhe restava dúvida de que as soluções definitivas na esfera
da cultura, da benemerência e da paz do mundo só seriam
possíveis quando também fossem compreendidos sob um único idioma
de mútua confiança. Em conseqüência, o seu ardente ideal assumiu
tais proporções que, de princípio, lhe parecia inconcebível,
ante a necessidade de compor e espalhar um idioma que servisse a
toda a humanidade. Mas ele não ambicionava criar uma língua
neutra e nacional, capaz de só atender aos problemas
psicológicos e emotivos do povo de sua terra natal; seu sonho
ampliava-se pelo desejo de conseguir a fraternal solução para
todos os homens. Por isso, desde muito cedo revelou a vocação
messiânica para essa realização extraordinária, que somente a
humanidade futura poderá compreender em sua grandeza e
benemerência, tendo de reconhecer com humilde reverência a vida
missionária de Zamenhof, que foi dedicada sacrificialmente ao
advento do Esperanto e à compreensão fraterna entre a humanidade
terrena.
PERGUNTA: Desde o princípio do seu trabalho Zamenhof já
havia delineado essa admirável qualidade de síntese e
simplicidade do idioma internacional?
ESPÍRITO: Zamenhof pôs-se primeiramente a estudar os
meios de ajustar uma linguagem simples, lógica e sem perigo de
abastardamento, mas bastante fluente para servir a todas as
classes, culturais e dificuldades de entendimentos humanos.
Pensava na possibilidade de compor um idioma que se pudesse
transformar num elo afetuoso e sensato, servindo tanto à mais
requintada cultura, como às mentes mais empobrecidas, acessível
a todas as gentes e camadas sociais. Assim, ele esforçou-se para
evitar que no futuro as bases do seu idioma viessem a exigir
massudos compêndios de excessivo vocabulário, como é muito comum
às demais línguas desde a sua evolução e aplicação. Preocupava-o
imensamente não só essa probabilidade de sucessivo aumento e
incorporação de vocábulos novos ao seu idioma, como ainda o
desenvolvimento dos povos futuros e suas inevitáveis
modificações, obrigando-o a melhor ajustar o Esperanto a todas
as surpresas e imprevistos. Mas os seus elevados mentores
assistiam-no sempre e velavam por seus ideais santificantes
pois, à noite, quando ele se afastava do corpo físico, durante o
sono benfeitor, eles aconselhavam-no sobre o que devia fazer de
mais sensato. É por isso que no desenvolvimento do Esperanto
sempre permanece admirável segurança iniciativa tão bem
disciplinada por Zamenhof, pois, embora aumente a necessidade
filológica dos homens, persiste miraculosamente a qualidade
inata desse extraordinário idioma fraternal. Só a supervisão do
Alto é que realmente poderia orientar o jovem estudante a
entrosar tão sabiamente as raízes idiomáticas do Esperanto, que
ainda hoje se afiguram o indestrutível alicerce de garantia
contra quaisquer inovações e excentricidades.
PERGUNTA: Quais seriam as sugestões que os mentores
espirituais teriam dado a Zamenhof, durante a sua vida carnal,
para que ele pudesse acertar tão logicamente com o objetivo de
compor um idioma internacional? Gostaríamos de conhecer quais as
primeiras providências tomadas pelo Espaço, nesse sentido.
ESPÍRITO: Inegavelmente, Zamenhof era um espírito genial
e capaz de realizar na Terra quaisquer outras missões
semelhantes à que lhe coubera para o advento do Esperanto, por
cujo motivo entregou-se logo aos objetivos superiores que haviam
sido traçados pêlos seus mentores espirituais!
Como era sumamente observador, qualidade esta que ainda mais se
aprimorou sob a disciplina paterna, não tardou em verificar que
as principais dificuldades para um entendimento verbal fraterno
entre os homens residia, principalmente, no uso de excessivo
vocabulário sempre em crescimento e cada vez mais exaustivo.
Então, em suas horas de reflexões importantes, os mentores
espirituais puderam insuflar-lhe a idéia de que devia aproveitar
os afixos e transformá-los em temas iniciáticos de uma língua
neutra, os quais seriam então de mais fácil memorização e se
tornariam as bases fixas e desejada garantia para a criação de
outras palavras indispensáveis.
Bastante esclarecido pelo conhecimento de inúmeras dificuldades
de línguas estrangeiras que havia aprendido com o seu
progenitor, Zamenhof entregou-se afanosamente ao trabalho,
vislumbrando o louvável e genial processo de reduzir
satisfatoriamente a extensa quantidade de vocábulos comuns
exaustivamente utilizados em cada idioma. Dedicando-se a estudar
os afixos já existentes nos principais idiomas falados,
conseguiu então compor o "sistema de afixação", que é uma das
mais preciosas glórias do Esperanto, submetendo-o à disciplina
de suas dezesseis regras fundamentais.
Muitas vezes, em suas reflexões, pudera observar que a língua
inglesa já apresentava um sistema particular, fixo, através de
certas regras fundamentais, o que muito o ajudou na composição
do Esperanto e do que, mais tarde, resultou certa semelhança
entre as regras de ambos os idiomas.
PERGUNTA: Durante o desempenho de sua missão, Zamenhof
encontrou sempre favorecimento para o êxito de sua obra tão útil
à humanidade? Supomos que seu progenitor tenha sido um dos seus
mais devotados colaboradores; não é assim?
ESPÍRITO: Quase ao completar vinte anos de idade,
Zamenhof recebeu entusiástica adesão dos seus colegas de Liceu,
ao expor o seu projeto de uma língua auxiliar, que ele
denominava de "nobre causa" e assegurava tratar-se de duradouro
e valioso benefício à humanidade. Entretanto, à semelhança do
que é muito comum suceder aos homens que se sacrificam pelo
advento de um mundo melhor, ele também não tardou em ficar
sozinho com os seus entusiasmos e idéias elevadas, curtindo
tanto os sarcasmos e as conseqüências das descrenças alheias,
como sofrendo forte hostilidade daqueles que nutriam interesses
inconfessáveis no seio da confusão de sua pátria. Inúmeras vezes
fora assaltado pelo desânimo, e só a permanente assistência do
Alto, que supervisionava a sua espinhosa missão, impediu-o de
reduzir os seus esforços e deixar-se abater ante a excessiva
descrença e ironia humana, quase privando o vosso orbe desse
grandioso benefício lingüístico que, no futuro, se tornará um
dos mais fortes elos da sonhada confraternização humana!
E ainda um fato doloroso obrigou-o a perder o seu jubiloso
entusiasmo quando exatamente já previa o primeiro sucesso
esperantista conduzido pela sua vontade férrea: o progenitor de
Zamenhof — que ainda exercia sua autoridade severa sobre o filho
— influenciado por outros pedagogos e amigos da família e
temendo que o jovem estudante de vinte primaveras adoecesse por
excesso de trabalho, ou então ficasse perturbado no uso da razão
e viesse a prejudicar os seus estudos médicos, exigiu-lhe o
abandono definitivo do temerário projeto de compor uma língua
neutra e de natureza internacional! O jovem Luís, embora
considerando que o seu verdadeiro motivo de viver residia
fundamentalmente naquele ideal sonhado desde tenra idade, mais
uma vez se revelou obediente no seu caráter íntegro e humilde;
aceitou a imposição paterna e abandonou os seus apontamentos
sobre o idioma neutro, que ficaram esquecidos por algum tempo.
PERGUNTA: Acreditávamos que o pai de Zamenhof — por se
tratar de criatura de grande cultura e conhecedor abalizado das
dificuldades de outros idiomas pátrios — devesse ser um dos mais
entusiastas colaboradores do filho, sentindo a grandeza, a
lógica e a necessidade de um idioma internacional. Não deveria
ser assim?
ESPÍRITO — Muitas vezes o que significa para vós
impedimento ou intervenção indébita do "destino" a dificultar
objetivos e ideais elevados, pode-se constituir num elemento
criador ou no "fogo sagrado" das elevadas realizações
espirituais, que tanto beneficiam a humanidade e promovem a
felicidade dos seres. Enquanto o jovem Zamenhof, durante o
trabalho para atingir o seu grande ideal, era reanimado em suas
decepções cotidianas pela doçura da progenitora, através de seu
pai severo eram-lhe aguçadas as arestas do intelecto, e assim
iam ficando ajustados os elementos práticos e indispensáveis,
que deviam firmar a sensatez e a lógica, que ainda são as mais
valiosas garantias do sucesso do Esperanto.
Aconteceu, então, que, tendo Zamenhof, por ordem paterna,
seguido para Moscou, a fim de acelerar os seus estudos de
Medicina, quis o destino que, após dois anos, ele devesse
retornar à terra natal, devido à insuficiência de meios
financeiros para manter-se na capital russa, e assim teve de
continuar os seus estudos na Universidade de Varsóvia. Mas,
assim que tomou contato com o seu ambiente pátrio e familiar,
sentiu-se novamente invadido por intenso entusiasmo, que lhe
despertou ainda com mais veemência a antiga idéia de compor o
sonhado idioma que servisse fraternalmente para o uso de todos
os povos da Terra. Reconheceu, então, sem qualquer dúvida, que
aquilo representava sua vida, os seus sonhos mais puros e o seu
ideal mais perfeito! No entanto, debaixo de atuação sábia e
inescrutável decisão dos mentores espirituais desencarnados, o
pai de Zamenhof, temendo o desequilíbrio da razão do jovem
filho, já havia destruído todos os seus cadernos, manuscritos e
apontamentos que ainda pudessem auxiliá-lo na recomposição ou na
reestruturação do projetado idioma.
PERGUNTA: Não podemos aquilatar como sensata essa
intervenção dos espíritos mentores, na obra de Zamenhof,
chegando ao ponto de inspirarem o seu próprio pai e destruir
apontamentos valiosos e imprescindíveis ao êxito do idioma!
Podeis nos explicar onde se encontra a lógica desse ato, que nos
parece tão arbitrário?
ESPÍRITO: Como Luís era dotado de excelente memória, a
destruição dos seus cadernos de apontamentos trouxe-lhe um
benefício que só posteriormente se pôde avaliar; o pai havia
destruído muita coisa supérflua e que, se fosse revista mais
tarde, só causaria dificuldades ao jovem estudante para
escoimá-las de erros e furtar-se à tentação de um aproveitamento
inútil. Acresce ainda que, devido à necessidade de Luís rever
mentalmente os escritos destruídos, isso favoreceu-lhe a eclosão
de novos raciocínios e descobertas filológicas mais geniais!
Recorrendo à sua valiosa memória, ele conseguiu reconstituir com
mais precisão muitos elementos essenciais ao seu trabalho, pois
é comum, em nossas evocações mentais, identificarmos os
assuntos mais importantes do passado, enquanto o supérfluo fica
olvidado na câmara do cérebro. Então ele deixou-se tomar
definitivamente pela força do seu ideal messiânico; isolou-se
do público e entregou-se a intensivo trabalho por mais de seis
anos, em cujo tempo evitou até as imprescindíveis relações
sociais, as diversões ou quaisquer outros desperdícios de horas
úteis nos ambientes exteriores. A destruição dos seus cadernos
afastou a sua atenção de muitos detalhes e elementos inúteis
que, assim, não lhe atravancaram o labor exercido nos seis anos
seguintes. Submetendo-se ao exaustivo trabalho de avaliar quais
as distorções, prejuízos ou deformações que a "teoria" da língua
pudesse causar, quando transferida para a vida prática do mundo,
ele corrigiu e substituiu fórmulas, ajustou palavras e
provou-as, cotejando-as sob todos os módulos imagináveis da voz
humana.
Em face dessa heróica dedicação, o Além vibrou de júbilo,
comoveram-se as entidades laboriosas e benfeitoras que haviam
atuado incessantemente sobre o espírito de Luís Lázaro Zamenhof,
assim como se fizeram ardentes vaticínios para a mais breve
ventura espiritual da Terra, sob a dádiva abençoada de um idioma
internacional. Muitas manifestações jubilosas se registraram
entre os núcleos, departamentos e instituições de Esperanto
sediadas no mundo Astral e circunvizinhanças ao vosso globo,
pois graças à tenacidade e à genialidade do jovem Zamenhof, a
criatura terrena já contava com o divino elo verbal de
entendimento fraterno, podendo aplainar o caminho para o
advento mais breve da telepatia, assim como integrar-se ao
Evangelho de Jesus. O Esperanto estava pois estruturado de uma
forma tão escorreita e sensata, que o seu êxito e a sua
integridade ultrapassaram as próprias previsões dos seus
mentores do Além!
PERGUNTA: Em seguida ao advento do Esperanto, Zamenhof
dedicou-se exclusivamente a esse seu propósito tão ardentemente
sonhado?
ESPÍRITO: Depois de haver se diplomado como médico aos 26
anos de idade, Zamenhof iniciou a sua sacrificial missão de
curador, necessária ao seu próprio sustento, porque então já se
havia casado com Clara Zilbernil. Seu sogro financiou a edição
de sua primeira gramática esperantista, com as dezesseis regras
fundamentais do idioma, a qual, além de um vocabulário auxiliar,
constituído por quase um milheiro de radicais, ainda continha o
"Padre Nosso" e alguns Versos.
Esse homem tão nobre aliava ainda à sua genialidade um generoso
coração, pois, exercendo a profissão médica, não cobrava dos
clientes que faleciam, assim como se recusava a receber dinheiro
daqueles que não conseguia curar ou sequer aliviar os
padecimentos. Embora fosse o editor das próprias obras
esperantistas, renunciou sempre a todos os seus direitos,
assegurando que "uma língua internacional dispensava
proprietário, por se tratar de um idioma de propriedade comum".
Realmente, tratava-se de um espírito de elevadíssima graduação
no Espaço, pois Zamenhof, em vidas pregressas e no cumprimento
de outras tarefas benfeitoras no campo lingüístico e da
filosofia, já havia deixado outras réstias de luz no vosso
globo!
Graças a esse elevado grau de renúncia, retidão de caráter e
cristalinidade espiritual, foi possível aos mentores espirituais
cimentarem o Esperanto como um idioma fraterno, pois realmente
ele traz em seu conteúdo as vibrações amorosas do seu criador,
que foi um espírito puro e essencialmente tolerante. O amor de
Zamenhof para com a humanidade, e a sua abnegação em servir aos
seus próprios detratores, impregnaram a língua Esperanto de uma
vibração psíquica de ternura espiritual tão sensível, na sua
expressão idiomática, que a maioria dos seus simpatizantes é
atraída por essa aura de bondade que foi a marca predominante do
seu grande missionário.
Este é um dos motivos porque os espíritos superiores transmitem
continuamente para Terra o slogan de que o "Esperanto é o
Evangelho das línguas", pois Luís Lázaro Zamenhof ainda
adicionou ao seu magnífico trabalho lingüístico as suas próprias
vibrações de ternura, humildade e devotamento, lembrando os
sublimes preceitos que inspiram o próprio Evangelho de Jesus.
Eis porque não lograram êxito outros idiomas e experimentações
semelhantes, inclusive o 'Volapuk" de Schleyer porque, além do
seu visível artificialismo complicações e arbitrariedades
idiomáticas, faltavam-lhe a singeleza e o "dom" de simpatia
espiritual, que emana continuamente de linguajar terno do
Esperanto.
PERGUNTA: Zamenhof chegou a gozar, ainda em vida, a
glória e o júbilo de sua obra tão notável?
ESPÍRITO: O abnegado Doutor Zamenhof terminou seus dias
vivendo sob a mais admirável modéstia e, tanto foi o seu
incondicional amor ao próximo, que mereceu o apelido popular de
"Médico-Providência", ficando assim definitivamente consagrado
entre os homens de boa vontade e de bons sentimentos. Ele mesmo
traduziu depois muitas obras para o Esperanto, inclusive a
Bíblia Sagrada, Efigênia, Hamlet e outras. Em princípios deste
século, o Esperanto logrou o êxito desejado, e os próprios
cientistas auxiliaram muitíssimo a sua divulgação, quando o
reconheceram como um idioma perfeito e emancipado para
entendimento de todos os povos. A França, que já fora a pátria
de Allan Kardec e comumente o berço da civilização moderna, mais
uma vez glorificou a dádiva do Esperanto à humanidade terráquea
quando, no ano de 1906, em Bologne-sur-Mer, promoveu o primeiro
congresso esperantista. Zamenhof, que ainda pôde estar presente
àquele elevado conclave, viveu dias de júbilo e sentiu-se
compensado do seu heróico esforço e renúncia a favor do idioma.
Enquanto isso, as flâmulas tremulavam ao vento, e a insígnia
esperantista, da cor esverdeada e simbólica da esperança por um
mundo melhor, se ostentava nas lapelas, parecendo anunciar o
advento da confraternização do verbo humano!
Zamenhof deixou o vosso mundo em abril de 1917, tendo vivido 57
anos; o seu ingresso no Espaço foi através de imensurável
esteira de luz balsamizada dos mais suaves perfumes das altas
regiões celestiais, enquanto inefáveis vozes cantavam a glória
imortal de ter sido ele o sublime mensageiro do mecanismo verbal
para a mais breve aproximação entre os povos terráqueos! Seu
corpo ainda dormia sereno no esquife forrado de rosas e palmas
simbólicas; as insígnias do mundo ainda cercavam a sua
derradeira morada física, mas o seu espírito já gozava a alegria
imortal de ter cumprido fielmente o mandato celestial, pois o
seu organismo de carne nada mais fora do que um glorioso
instrumento de convocação ao verbalismo internacional e cristão
do orbe. Ele pudera escrever, na superfície da matéria densa, o
mais belo poema lingüístico da confraternização humana, cuja
limpidez, beleza e ternura merecem que se as compare, em símbolo
e virtude, ao doce Evangelho de Jesus, pois o que este ensina e
recomenda poderá agora ser transmitido ao coração e ao cérebro
de todos os homens sob as asas de ternura verbal do Esperanto.
Sem dúvida, pois, o "Esperanto é o Evangelho das línguas". 
Ler outro
artigo de Joel Moreira Augusto:
Esperanto: ótimo investimento...
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