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Esperanto: língua internacional

JOEL MOREIRA AUGUSTO

ZAMENHOF E O ESPERANTO
PERGUNTA: O fato de Zamenhof nascer na Lituânia e haver descendido da raça hebraica não tem, porventura, ligação com um plano diretamente supervisionado pelo Espaço? Podería­mos crer que Zamenhof foi realmente um predestinado para desempenhar a missão de introduzir o Esperanto na Terra?
ESPÍRITO: Bastar-vos-á um pouco de reflexão para verificardes que o espírito de Zamenhof reencarnou na Terra exatamente no clima psicológico mais propício ao advento do Esperanto. Na época de seu nascimento, em meados do século dezenove, sua pátria era palco de tal confusão de idiomas, que se poderia julgá-la um verdadeiro experimento prático de internacionalidade lingüística. Afora os inúmeros dialetos falados na pequena Lituânia, não só predominavam ali quatro línguas principais e diferentes entre si, como ainda eram várias as crenças dos seus habitantes. Devido ao desentendimento contundente entre as próprias famílias, pois que os seus membros mais íntimos tanto divergiam em matéria de fé como no falar, sucediam-se inúmeros conflitos que acirravam velhos ódios e culminavam em lutas sangrentas. Era um mundículo estranho, alimentado por objetivos contraditórios e assaz caprichosos, constituído por um punhado de criaturas que se odiavam e hostilizavam, em virtude de não se ajustarem satisfatoriamente através de um idioma pátrio comum.
Aumentava a desconfiança e se difundia o sarcasmo religioso entre todos, pois, se num mesmo país, entre homens da mesma raça e relacionados por um único idioma, não se conseguem evitar conflitos e crimes resultantes da diferença de Crença religiosa, imaginai o que ocorria na Lituânia, na época do nascimento de Luís Lázaro Zamenhof, quando existiam ali quatro idiomas principais, que só serviam para implantar antipatias e desordens entre os seus conterrâneos.
Esse conflito idiomático e religioso entre os seus compatriotas é que despertou no cérebro daquele estudante pobre e profundamente fraterno o ideal de uma língua internacional, capaz de ser um veículo afetuoso de entendimento humano entre todos os ho­mens. Como se tratava de um espírito assaz evoluído, Zamenhof não cogitou de instituir um idioma neutro apenas para a Lituânia, que era sua pátria, dividida pelo linguajar dos judeus, polacos, russos e lituanos, e ainda algemada pelas suas contradições religiosas, que acirravam ódios irremovíveis entre todos. Mas ele, reconhecendo que a sua pátria tão contraditória era apenas a miniatura do próprio mundo onde viera reencarnar, refletia em que, se todos os homens pudessem compreender-se sob um mesmo idioma, ainda que se tratasse de uma língua nova, não seria difícil uma aproximação e confraternização afetuosa entre eles. Graças, pois, à tenacidade e ao sacrifício, aliados à pureza de intenção e ao ideal que sempre lhe inspirara os atos, o jovem estudante Zamenhof conseguiu desempenhar a contento, na Terra, a sua grandiosa missão.
PERGUNTA: Os progenitores de Zamenhof também influíram para a realização desse ideal?
ESPÍRITO: Os mentores da "Missão Esperanto" proporcionaram a Zamenhof o ambiente doméstico e a necessária influência psicológica dos seus pais, a fim de que a semente adormecida no seu coração boníssimo pudesse ser preservada até o instante pre­visto para a sua divina eclosão. Marcos Zamenhof, pai de Luís Lázaro Zamenhof, encontrava-se sob a tutela russa; era um excelente pedagogo, homem prático, decidido e reto nos seus deveres profissionais; a sua passagem pela Lituânia foi marcada por uma conduta própria de um excelente cidadão regrado, útil e benfeitor à sua coletividade. Rosália Soler, sua esposa, filha de comerciante hebreu, era um espírito de graduação superior no Espaço, pois, além de mulher terna e mãe extremosa que foi para com o seu primogênito Luís, foi realmente quem cultivou no seu coração os rebentos de alta espiritualidade, que depois deveriam predominar na sua fase adulta. As importantes manifestações de zelo, e o critério de elevado teor espiritual bastante desenvolvido em Zamenhof, desabrocharam graças ao rigor paterno e à doçura e estímulos maternos; mesmo os quatro irmãos e as três irmãs de Luís não lhe causaram aborrecimentos nem com ele promoveram conflitos de ordem sentimental. A vida da família transcorria sob a atmosfera de austeridade imposta por Marcos Zamenhof e suavizada pelo espírito compreensivo e delicado de Rosália Soler.
Enquanto a terna Rosália acendia as luzes espirituais no coração de Luís, seu pai, enérgico, prático e sob a orientação do Espaço, modelava-lhe o caráter e impunha-lhe a disciplina tão necessária para que o seu idealismo frutificasse de modo positivo e lógico entre as dificuldades próprias do mundo material. Luiz Zamenhof muito gozou, também, daquele magnífico "bom senso" que na Terra caracterizou a figura impressionante de Allan Kardec por ocasião da codificação do Espiritismo. Tanto quanto sucede com o Espiritismo, esse bom senso ainda é hoje, também, a garantia indiscutível da estrutura doutrinária esperantista, na qual a ordem e a lógica constituem suas bases definitivas e suas regras fundamentais. Naquele pequeno caos de desentendimento idiomático e de hostilidades religiosas, que era a Lituânia, Luís Lázaro Zamenhof instalou o seu arsenal de boa vontade, disciplina e coerência, extraindo, ao vivo, o material necessário para compor o magnífico idioma que há de ser, no futuro, o instrumento definitivo das relações verbais entre os homens terrícolas!
Marcos Zamenhof, seu pai, além de ser homem disciplinado, prático e professor emérito, aceitara a profissão de censor de imprensa, desejando assim aproveitar seus avançados conhecimentos de línguas estrangeiras. Isto ajudou-o muitíssimo a desenvolver-se para compor e editar em russo vários livros didáticos sobre geografia, auxiliando-o também no desembaraço intelectual do seu primogênito, o que resultou para o filho em grande favorecimento para o estudo sensato das bases definitivas do futuro idioma internacional!
A semelhança do ocorrido com Allan Kardec, quando codificava o Espiritismo, Luís Lázaro Zamenhof sempre esteve debaixo da supervisão coordenadora dos mentores e técnicos desencarnados, do Além, impondo então a si aquela integridade de trabalho e honestidade de ação, que tanto enobreceram a estrutura básica do Esperanto.
Em verdade, foi ele um gênio que superou os mais difíceis obstáculos, e basta uma singela observação de sua vida abençoada para se poder comprovar que o seu caráter se firmou sobre três preciosos elementos, que foram do mais valioso préstimo à sua obra; Zamenhof herdara a inteligência e a energia do pai e o coração e a bondade da progenitora, mas também cunhara definitivamente, em si mesmo, as impressões do próprio lugar onde viera nascer, compondo, assim, a moldura precisa para a sua obra esperantista que, acima de tudo, é um importante objetivo da natureza espiritual.
PERGUNTA: Zamenhof revelou desde cedo vocação para o Esperanto ou tudo foi produto de uma eclosão posterior, como às vezes ocorre na esfera da arte ou da ciência, quando se revelam gênios que antes viviam em completa obscuridade?
ESPÍRITO: Ele foi um eleito pelo Alto para essa missão, pois a sua vida foi sempre de uma dedicação incessante para com esse nobre ideal. Desde moço se pôs a observar a falta de compreensão entre os polacos, russos, hebreus e alemães, cujas hostilidades, conforme já vos dissemos, geravam por vezes conflitos homicidas e requeriam até intervenção das autoridades para solucionarem as pendências sangrentas! Zamenhof percebeu a luta tenaz de cada grupo nacionalista, tentando impor o seu próprio idioma como língua oficial e de uso obrigatório em toda a região. Desses esforços dispersivos e egocêntricos se aproveitavam os mais hábeis políticos, e usufruíam vantagens pessoais, embora fazendo conluios vergonhosos com interesses estrangeiros e prejudiciais à sua comunidade. A preocupação partidária do nacionalismo feroz, que cada grupo defendia sem qualquer consideração aos prejuízos alheios, as contendas insolúveis ante a heterogeneidade de vários idiomas falados no mesmo agrupamento pátrio, terminaram comprovando a Zamenhof que só seria possível uma solução defi­nitiva pela adoção de uma língua neutra, capaz de não ferir os brios patrióticos de nenhum daqueles povos adversos.
E ele acabou por admitir que o próprio mundo terreno não passava de outra Lituânia em grandes proporções, onde as nações se atritam e semeiam a confusão sob códigos verbais tão diferentes. Não lhe restava dúvida de que as soluções definitivas na esfera da cultura, da benemerência e da paz do mundo só seriam possíveis quando também fossem compreendidos sob um único idioma de mútua confiança. Em conseqüência, o seu ardente ideal assumiu tais proporções que, de princípio, lhe parecia inconcebível, ante a necessidade de compor e espalhar um idioma que servisse a toda a humanidade. Mas ele não ambicionava criar uma língua neutra e nacional, capaz de só atender aos problemas psicológicos e emotivos do povo de sua terra natal; seu sonho ampliava-se pelo desejo de conseguir a fraternal solução para todos os homens. Por isso, desde muito cedo revelou a vocação messiânica para essa realização extraordinária, que somente a humanidade futura poderá compreender em sua grandeza e benemerência, tendo de reconhecer com humilde reverência a vida missionária de Zamenhof, que foi dedicada sacrificialmente ao advento do Esperanto e à compreensão fraterna entre a humanidade terrena.
PERGUNTA: Desde o princípio do seu trabalho Zamenhof já havia delineado essa admirável qualidade de síntese e simplicidade do idioma internacional?
ESPÍRITO: Zamenhof pôs-se primeiramente a estudar os meios de ajustar uma linguagem simples, lógica e sem perigo de abastardamento, mas bastante fluente para servir a todas as classes, culturais e dificuldades de entendimentos humanos. Pensava na possibilidade de compor um idioma que se pudesse transformar num elo afetuoso e sensato, servindo tanto à mais requintada cultura, como às mentes mais empobrecidas, acessível a todas as gentes e camadas sociais. Assim, ele esforçou-se para evitar que no futuro as bases do seu idioma viessem a exigir massudos compêndios de excessivo vocabulário, como é muito comum às demais línguas desde a sua evolução e aplicação. Preocupava-o imensamente não só essa probabilidade de sucessivo aumento e incorporação de vocábulos novos ao seu idioma, como ainda o desenvolvimento dos povos futuros e suas inevitáveis modificações, obrigando-o a melhor ajustar o Esperanto a todas as surpresas e imprevistos. Mas os seus elevados mentores assistiam-no sempre e velavam por seus ideais santificantes pois, à noite, quando ele se afastava do corpo físico, durante o sono benfeitor, eles aconselhavam-no sobre o que devia fazer de mais sensato. É por isso que no desenvolvimento do Esperanto sempre permanece admirável segurança iniciativa tão bem disciplinada por Zamenhof, pois, embora aumente a necessidade filológica dos homens, persiste miraculosamente a qualidade inata desse extraordinário idioma fraternal. Só a supervisão do Alto é que realmente poderia orientar o jovem estudante a entrosar tão sabiamente as raízes idiomáticas do Esperanto, que ainda hoje se afiguram o indestrutível alicerce de garantia contra quaisquer inovações e excentricidades.
PERGUNTA: Quais seriam as sugestões que os mentores espirituais teriam dado a Zamenhof, durante a sua vida carnal, para que ele pudesse acertar tão logicamente com o objetivo de compor um idioma internacional? Gostaríamos de conhecer quais as primeiras providências tomadas pelo Espaço, nesse sentido.
ESPÍRITO: Inegavelmente, Zamenhof era um espírito genial e capaz de realizar na Terra quaisquer outras missões semelhantes à que lhe coubera para o advento do Esperanto, por cujo motivo entregou-se logo aos objetivos superiores que haviam sido traçados pêlos seus mentores espirituais!
Como era sumamente observador, qualidade esta que ainda mais se aprimorou sob a disciplina paterna, não tardou em verificar que as principais dificuldades para um entendimento verbal fraterno entre os homens residia, principalmente, no uso de excessivo vocabulário sempre em crescimento e cada vez mais exaustivo. Então, em suas horas de reflexões importantes, os mentores espirituais puderam insuflar-lhe a idéia de que devia aproveitar os afixos e transformá-los em temas iniciáticos de uma língua neutra, os quais seriam então de mais fácil memorização e se tornariam as bases fixas e desejada garantia para a criação de outras palavras indispensáveis.
Bastante esclarecido pelo conhecimento de inúmeras dificuldades de línguas estrangeiras que havia aprendido com o seu progenitor, Zamenhof entregou-se afanosamente ao trabalho, vislumbrando o louvável e genial processo de reduzir satisfatoriamente a extensa quantidade de vocábulos comuns exaustivamente utilizados em cada idioma. Dedicando-se a estudar os afixos já existentes nos principais idiomas falados, conseguiu então compor o "sistema de afixação", que é uma das mais preciosas glórias do Esperanto, submetendo-o à disciplina de suas dezesseis regras fundamentais.
Muitas vezes, em suas reflexões, pudera observar que a língua inglesa já apresentava um sistema particular, fixo, através de certas regras fundamentais, o que muito o ajudou na composição do Esperanto e do que, mais tarde, resultou certa semelhança entre as regras de ambos os idiomas.
PERGUNTA: Durante o desempenho de sua missão, Zamenhof encontrou sempre favorecimento para o êxito de sua obra tão útil à humanidade? Supomos que seu progenitor tenha sido um dos seus mais devotados colaboradores; não é assim?
ESPÍRITO: Quase ao completar vinte anos de idade, Zamenhof recebeu entusiástica adesão dos seus colegas de Liceu, ao expor o seu projeto de uma língua auxiliar, que ele denominava de "nobre causa" e assegurava tratar-se de duradouro e valioso benefício à humanidade. Entretanto, à semelhança do que é muito comum suceder aos homens que se sacrificam pelo advento de um mundo melhor, ele também não tardou em ficar sozinho com os seus entusiasmos e idéias elevadas, curtindo tanto os sarcasmos e as conseqüências das descrenças alheias, como sofrendo forte hostilidade daqueles que nutriam interesses inconfessáveis no seio da confusão de sua pátria. Inúmeras vezes fora assaltado pelo desânimo, e só a permanente assistência do Alto, que supervisionava a sua espinhosa missão, impediu-o de reduzir os seus esforços e deixar-se abater ante a excessiva descrença e ironia humana, quase privando o vosso orbe desse grandioso benefício lingüístico que, no futuro, se tornará um dos mais fortes elos da sonhada confraternização humana!
E ainda um fato doloroso obrigou-o a perder o seu jubiloso entusiasmo quando exatamente já previa o primeiro sucesso esperantista conduzido pela sua vontade férrea: o progenitor de Zamenhof — que ainda exercia sua autoridade severa sobre o filho — influenciado por outros pedagogos e amigos da família e temendo que o jovem estudante de vinte primaveras adoecesse por excesso de trabalho, ou então ficasse perturbado no uso da razão e viesse a prejudicar os seus estudos médicos, exigiu-lhe o abandono definitivo do temerário projeto de compor uma língua neutra e de natureza internacional! O jovem Luís, embora considerando que o seu verdadeiro motivo de viver residia fundamentalmente naquele ideal sonhado desde tenra idade, mais uma vez se revelou obediente no seu caráter íntegro e humilde; aceitou a imposição paterna e abandonou os seus apontamentos sobre o idioma neutro, que ficaram esquecidos por algum tempo.
PERGUNTA: Acreditávamos que o pai de Zamenhof — por se tratar de criatura de grande cultura e conhecedor abalizado das dificuldades de outros idiomas pátrios — devesse ser um dos mais entusiastas colaboradores do filho, sentindo a grandeza, a lógica e a necessidade de um idioma internacional. Não deveria ser assim?
ESPÍRITO — Muitas vezes o que significa para vós impedimento ou intervenção indébita do "destino" a dificultar objetivos e ideais elevados, pode-se constituir num elemento criador ou no "fogo sagrado" das elevadas realizações espirituais, que tanto beneficiam a humanidade e promovem a felicidade dos seres. Enquanto o jovem Zamenhof, durante o trabalho para atingir o seu grande ideal, era reanimado em suas decepções cotidianas pela doçura da progenitora, através de seu pai severo eram-lhe aguçadas as arestas do intelecto, e assim iam ficando ajustados os elementos práticos e indispensáveis, que deviam firmar a sensatez e a lógica, que ainda são as mais valiosas garantias do sucesso do Esperanto.
Aconteceu, então, que, tendo Zamenhof, por ordem paterna, seguido para Moscou, a fim de acelerar os seus estudos de Medicina, quis o destino que, após dois anos, ele devesse retornar à terra natal, devido à insuficiência de meios financeiros para manter-se na capital russa, e assim teve de continuar os seus estudos na Universidade de Varsóvia. Mas, assim que tomou contato com o seu ambiente pátrio e familiar, sentiu-se novamente invadido por intenso entusiasmo, que lhe despertou ainda com mais veemência a antiga idéia de compor o sonhado idioma que servisse fraternalmente para o uso de todos os povos da Terra. Reconheceu, então, sem qualquer dúvida, que aquilo representava sua vida, os seus sonhos mais puros e o seu ideal mais perfeito! No entanto, debaixo de atuação sábia e inescrutável decisão dos mentores espirituais desencarnados, o pai de Zamenhof, temendo o desequilíbrio da razão do jovem filho, já havia destruído todos os seus cadernos, manuscritos e apontamentos que ainda pudessem auxiliá-lo na recomposição ou na reestruturação do projetado idioma.
PERGUNTA: Não podemos aquilatar como sensata essa intervenção dos espíritos mentores, na obra de Zamenhof, chegando ao ponto de inspirarem o seu próprio pai e destruir apontamentos valiosos e imprescindíveis ao êxito do idioma! Podeis nos explicar onde se encontra a lógica desse ato, que nos parece tão arbitrário?
ESPÍRITO: Como Luís era dotado de excelente memória, a destruição dos seus cadernos de apontamentos trouxe-lhe um benefício que só posteriormente se pôde avaliar; o pai havia destruído muita coisa supérflua e que, se fosse revista mais tarde, só causaria dificuldades ao jovem estudante para escoimá-las de erros e furtar-se à tentação de um aproveitamento inútil. Acresce ainda que, devido à necessidade de Luís rever mentalmente os escritos destruídos, isso favoreceu-lhe a eclosão de novos raciocínios e descobertas filológicas mais geniais!
Recorrendo à sua valiosa memória, ele conseguiu reconstituir com mais precisão muitos elementos essenciais ao seu trabalho, pois é comum, em nossas evocações mentais, identificarmos os as­suntos mais importantes do passado, enquanto o supérfluo fica olvidado na câmara do cérebro. Então ele deixou-se tomar defini­tivamente pela força do seu ideal messiânico; isolou-se do público e entregou-se a intensivo trabalho por mais de seis anos, em cujo tempo evitou até as imprescindíveis relações sociais, as diversões ou quaisquer outros desperdícios de horas úteis nos ambientes ex­teriores. A destruição dos seus cadernos afastou a sua atenção de muitos detalhes e elementos inúteis que, assim, não lhe atravancaram o labor exercido nos seis anos seguintes. Submetendo-se ao exaustivo trabalho de avaliar quais as distorções, prejuízos ou deformações que a "teoria" da língua pudesse causar, quando transferida para a vida prática do mundo, ele corrigiu e substituiu fórmulas, ajustou palavras e provou-as, cotejando-as sob todos os módulos imagináveis da voz humana.
Em face dessa heróica dedicação, o Além vibrou de júbilo, comoveram-se as entidades laboriosas e benfeitoras que haviam atuado incessantemente sobre o espírito de Luís Lázaro Zamenhof, assim como se fizeram ardentes vaticínios para a mais breve ventura espiritual da Terra, sob a dádiva abençoada de um idioma internacional. Muitas manifestações jubilosas se registraram entre os núcleos, departamentos e instituições de Esperanto sediadas no mundo Astral e circunvizinhanças ao vosso globo, pois graças à tenacidade e à genialidade do jovem Zamenhof, a criatura terrena já contava com o divino elo verbal de entendimento fraterno, po­dendo aplainar o caminho para o advento mais breve da telepatia, assim como integrar-se ao Evangelho de Jesus. O Esperanto estava pois estruturado de uma forma tão escorreita e sensata, que o seu êxito e a sua integridade ultrapassaram as próprias previsões dos seus mentores do Além!
PERGUNTA: Em seguida ao advento do Esperanto, Zamenhof dedicou-se exclusivamente a esse seu propósito tão ardentemente sonhado?
ESPÍRITO: Depois de haver se diplomado como médico aos 26 anos de idade, Zamenhof iniciou a sua sacrificial missão de curador, necessária ao seu próprio sustento, porque então já se havia casado com Clara Zilbernil. Seu sogro financiou a edição de sua primeira gramática esperantista, com as dezesseis regras fundamentais do idioma, a qual, além de um vocabulário auxiliar, constituído por quase um milheiro de radicais,  ainda continha o "Padre Nosso" e alguns Versos.
Esse homem tão nobre aliava ainda à sua genialidade um generoso coração, pois, exercendo a profissão médica, não cobrava dos clientes que faleciam, assim como se recusava a receber dinheiro daqueles que não conseguia curar ou sequer aliviar os padecimentos. Embora fosse o editor das próprias obras esperantistas, renunciou sempre a todos os seus direitos, assegurando que "uma língua internacional dispensava proprietário, por se tratar de um idioma de propriedade comum". Realmente, tratava-se de um espírito de elevadíssima graduação no Espaço, pois Zamenhof, em vidas pregressas e no cumprimento de outras tarefas benfeitoras no campo lingüístico e da filosofia, já havia deixado outras réstias de luz no vosso globo!
Graças a esse elevado grau de renúncia, retidão de caráter e cristalinidade espiritual, foi possível aos mentores espirituais cimentarem o Esperanto como um idioma fraterno, pois realmente ele traz em seu conteúdo as vibrações amorosas do seu criador, que foi um espírito puro e essencialmente tolerante. O amor de Zamenhof para com a humanidade, e a sua abnegação em servir aos seus próprios detratores, impregnaram a língua Esperanto de uma vibração psíquica de ternura espiritual tão sensível, na sua expressão idiomática, que a maioria dos seus simpatizantes é atraída por essa aura de bondade que foi a marca predominante do seu grande missionário.
Este é um dos motivos porque os espíritos superiores transmitem continuamente para Terra o slogan de que o "Esperanto é o Evangelho das línguas", pois Luís Lázaro Zamenhof ainda adicionou ao seu magnífico trabalho lingüístico as suas próprias vibrações de ternura, humildade e devotamento, lembrando os sublimes preceitos que inspiram o próprio Evangelho de Jesus. Eis porque não lograram êxito outros idiomas e experimentações semelhantes, inclusive o 'Volapuk" de Schleyer porque, além do seu visível artificialismo complicações e arbitrariedades idiomáticas, faltavam-lhe a singeleza e o "dom" de simpatia espiritual, que emana continuamente de linguajar terno do Esperanto.
PERGUNTA: Zamenhof chegou a gozar, ainda em vida, a glória e o júbilo de sua obra tão notável?
ESPÍRITO: O abnegado Doutor Zamenhof terminou seus dias vivendo sob a mais admirável modéstia e, tanto foi o seu incondicional amor ao próximo, que mereceu o apelido popular de "Médico-Providência", ficando assim definitivamente consagrado entre os homens de boa vontade e de bons sentimentos. Ele mesmo traduziu depois muitas obras para o Esperanto, inclusive a Bíblia Sagrada, Efigênia, Hamlet e outras. Em princípios deste século, o Esperanto logrou o êxito desejado, e os próprios cientistas auxiliaram muitíssimo a sua divulgação, quando o reconheceram como um idioma perfeito e emancipado para entendimento de todos os povos. A França, que já fora a pátria de Allan Kardec e comumente o berço da civilização moderna, mais uma vez glorificou a dádiva do Esperanto à humanidade terráquea quando, no ano de 1906, em Bologne-sur-Mer, promoveu o primeiro congresso esperantista. Zamenhof, que ainda pôde estar presente àquele elevado conclave, viveu dias de júbilo e sentiu-se compensado do seu heróico esforço e renúncia a favor do idioma. Enquanto isso, as flâmulas tremulavam ao vento, e a insígnia esperantista, da cor esverdeada e simbólica da esperança por um mundo melhor, se ostentava nas lapelas, parecendo anunciar o advento da confraternização do verbo humano!
Zamenhof deixou o vosso mundo em abril de 1917, tendo vivido 57 anos; o seu ingresso no Espaço foi através de imensurável esteira de luz balsamizada dos mais suaves perfumes das altas regiões celestiais, enquanto inefáveis vozes cantavam a glória imortal de ter sido ele o sublime mensageiro do mecanismo verbal para a mais breve aproximação entre os povos terráqueos! Seu corpo ainda dormia sereno no esquife forrado de rosas e palmas simbólicas; as insígnias do mundo ainda cercavam a sua derradeira morada física, mas o seu espírito já gozava a alegria imortal de ter cumprido fielmente o mandato celestial, pois o seu organismo de carne nada mais fora do que um glorioso instrumento de convocação ao verbalismo internacional e cristão do orbe. Ele pudera escrever, na superfície da matéria densa, o mais belo poema lingüístico da confraternização humana, cuja limpidez, beleza e ternura merecem que se as compare, em símbolo e virtude, ao doce Evangelho de Jesus, pois o que este ensina e recomenda poderá agora ser transmitido ao coração e ao cérebro de todos os homens sob as asas de ternura verbal do Esperanto. Sem dúvida, pois, o "Esperanto é o Evangelho das línguas".


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JOEL MOREIRA AUGUSTO é professor da língua Esperanto.


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