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A OBSESSÃO E SUAS MÁSCARAS

"A obsessão e suas máscaras" (São Paulo: Fe), de Marlene Nobre

 

O clone tem alma?

MARLENE NOBRE

Não há dúvida de que a clonagem humana é uma das grandes discussões do momento, intensificada, sobretudo, depois que os pesquisadores Severino Antinori e Panayotis Zavos declararam, perante a Academia Americana de Ciências, em Washington, que estão prontos para copiar seres humanos.
Aliás, desde 1996, a clonagem humana ficou bem mais próxima, com o nascimento da ovelhinha Dolly, o primeiro clone mamífero, obtido através de técnica desenvolvida pelo Instituto Roslin, na Escócia.
Quando falamos em clonagem humana é preciso ressaltar que estamos nos referindo às duas modalidades: a reprodutiva, que produz bebês que são cópias xerox de seres já existentes, e a clonagem terapêutica, que elabora embriões humanos com a finalidade de fabricar tecidos orgânicos diversos.
Neste último caso, as células-tronco, conhecidas como "sementes da vida", presentes nos primeiros catorze dias do desenvolvimento embrionário, são empregadas na formação de tecidos - nervoso, pancreático, muscular, etc. - com a finalidade de curar doenças, como, por exemplo, o mal de Parkinson, o diabetes, o músculo enfartado.
Nos últimos meses, milhares de religiosos e especialistas vêm se reunindo, em várias partes do mundo, para discutir esses avanços da ciência e suas complicadas questões éticas.
Para nós, espíritas, as preocupações não são diferentes e precisam ser discutidas . O homem tem o direito de fazer cópias humanas? De manipular embriões? O clone possui alma?
Algumas respostas são mais fáceis, outras nem tanto, exigindo reflexão madura, livre de preconceitos e fanatismo.
Com relação à questão espiritual: Antes de responder se o clone tem ou não alma, é preciso defini-lo e recordar o processo pelo qual se pretende copiar seres humanos.
Clone é um ser vivo que tem a mesma constituição genética de outro.
Clonar, portanto, significa fazer cópias xérox de seres vivos. Há milhares de anos, a natureza brinda-nos com clones humanos autênticos - os gêmeos univitelinos - portadores do mesmo genoma.
Na clonagem artificial, faz-se a reprodução assexuada de um ser, mantendo a sua carga genética. Para fabricar a Dolly, foram necessárias três ovelhas.
Uma delas, a negra, doou o óvulo ou gameta feminino, do qual retirou-se o núcleo; no lugar deste, introduziu-se o núcleo de uma célula mamária adulta, retirada de uma outra ovelha, a branca, que se desejava clonar. Por procedimentos técnicos especiais, levou-se essa célula recém-formada, ao estágio embrionário inicial, obtendo-se um embrião que foi transplantado para o útero de uma terceira ovelha, que deu à luz a famosa ovelha.
Em linhas gerais, esse mesmo processo, está sendo cogitado para a clonagem humana.
Sem dúvida, a Dolly tem alma, ou melhor, tem princípio inteligente. Se assim não fora não seria um ser vivo. Na clonagem humana, o raciocínio é o mesmo.
Basta recordar o ensinamento básico: "toda criança que vive após o nascimento tem forçosamente encarnado em si um Espírito", do contrário, "não seria um ser humano" ("O Livro dos Espíritos", questão 356). Assim, se a clonagem humana for sucesso, certamente, não produzirá robôs, mas seres autênticos.
Qual o fator que atrai o Espírito ao processo reencarnatório? O principal deles é a sintonia magnética que funciona tanto na reencarnação normal quanto na clonagem.
"Quando o Espírito tem de encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que uma expansão do seu perispírito, o liga ao germe que o atrai por uma força irresistível, desde o momento da concepção", afirma Kardec ("A Gênese", capítulo 11). Esta força irresistível é o magnetismo.
Na verdade, para reencarnar, basta o magnetismo dos pais, aliado ao forte desejo do Espírito reencarnante (ver "Entre a Terra e o Céu", cap. 28). Não se pode esquecer que a "sintonia magnética" não obedece às leis clássicas da Física, mas está relacionada à comunicação não-local, que não depende de espaço e de tempo. Na clonagem, os cientistas levam os genes de uma célula adulta ao estado embrionário, com isso, as moléculas de DNA começam a vibrar em um outro diapasão, repletas de poder magnético, constituindo-se, juntamente com o citoplasma do óvulo, um verdadeiro pólo atrator para o Espírito.
Com respeito aos problemas da clonagem: Vimos que o clone humano pode ter êxito; o Espírito pode reencarnar se as condições forem favoráveis. Isto, no entanto, leva a uma outra questão: a clonagem humana é defensável?
Primeiramente, é preciso ressaltar que a clonagem é uma técnica muito ineficiente, com índice altíssimo de insucesso. Para fabricar-se a Dolly, foram feitas 277 tentativas, com um único êxito. E ainda assim, ela está precocemente envelhecida; apesar de ter cinco anos, suas células são equivalentes às de uma ovelha de 12 anos, exatamente a idade da ovelha cujo DNA foi utilizado na experiência.
Em cinco anos de clonagem de mamíferos, há menos de 50 animais clonados, o que representa muito pouco para a pesquisa científica. Nesse período, têm sido inúmeras as malformações, filhotes que nascem com doenças congênitas ou ficam doentes logo depois; alguns vivem com sérias limitações e muitos são sacrificados.
A única maneira de se chegar à perfeição na clonagem é pela prática, pela repetição, por tentativa e erro; isto vem sendo feito em animais, utilizando-se, largamente, o aborto e a eutanásia. E com embriões humanos, como será?
Severino Antinori diz que praticará o aborto em todos os casos necessários, porque é legal no país onde pretende trabalhar. E a eutanásia, ele aplicará também?
Os especialistas calculam que seriam necessários mil clones de animais, com acompanhamento de 50 anos para podermos afirmar que a clonagem humana é segura.
Do ponto de vista espiritual, a clonagem de animais vem indicando que há problema com o fluido vital, porque os seres clonados envelhecem precocemente. Assim, não são só os problemas biológicos a serem considerados, mas também os relativos aos diversos envoltórios do Espírito, os quais, a rigor, presidem à formação corpórea.
O fato é que a utilização do aborto e da eutanásia, nas experiências de clonagem, demonstra desrespeito à vida . E o cientista espírita deve abster-se de trabalhar sob tais condições.
A realidade é que é muito cedo para clonar humanos, não apenas do ponto de vista da Ciência, mas também da evolução espiritual dos terráqueos, que necessitam, urgentemente, de maiores progressos no campo do sentimento.
*Extraído do boletim SEI editado pelo "Lar Fabiano de Cristo".
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MARLENE NOBRE é médica Ginecologista. Presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil e Internacional. A autora de diversos livros - entre eles "O clamor da vida", também  é diretora responsável do jornal "Folha Espírita" no qual o texto acima foi originalmente publicado.


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