Ato
ou efeito de retaliar; represália; imposição da pena de talião -
"Pequeno dicionário
brasileiro da língua portuguesa" (Aurélio Buarque de Hollanda
Ferreira).
Praticamente não há um só grupo de pessoas que se reúna onde não
surja logo, logo uma conversa sobre a violência de todos os
tipos que se vê grassar em todos os níveis. O medo se alastra
rapidamente em todas as camadas sociais – agora não mais apenas
entre os de posses, os da elite; mas igualmente entre a
classe média alta e baixa, e até na dos mais pobres, que muitas
vezes se vêem cercados, envolvidos e sujeitos à violência
independentemente de sua vontade.
Além da
violência ostensiva, isto é, a dos crimes, seqüestros, estupros
e outros tantos graves delitos sociais, sofremos as violências
mais estapafúrdias, como as perpetradas pela própria Justiça,
criada para defesa do cidadão, quando concede indultos a
assassinos após breve cumprimento de penas bem maiores; quando
liberta da prisão usurpadores renomados do patrimônio
público... Como a violência daqueles encarregados de fazer
cumprir a lei que garante um tratamento e um julgamento justo
para todos quando, ao conduzirem um delinqüente em sua viatura
ou o receberem em seus cárceres, o espancam brutalmente e até
mesmo o matam...
A resposta a
determinados eventos vem se resumindo em retaliar ou retalhar
pessoas, grupos e até nações inteiras, quer seja por intermédio
de guerras utilizando equipamentos bélicos de alta tecnologia ou
por meio de empréstimos a juros criminosos, sanções ou bloqueios
econômico-financeiros, deixando milhões de criaturas sujeitas a
condições de vida miseráveis, com fome, sem moradia adequada,
sem saúde e sem educação de qualquer tipo.
O problema é que
essas criaturas muitas vezes são aquelas que, individualmente ou
em pequenos grupos, acabam buscando promover a qualquer custo o
respeito à sua condição humana, algumas vezes de forma
absolutamente equivocada, como no caso dos atos de terrorismo;
isso quando não conseguem reunir uma grande massa de indivíduos
e vemos então, como já tantas vezes a história nos mostrou, as
revoluções sangrentas e dolorosas...
Retaliar, retalhar,
vingar-se, revidar, na realidade são sinônimos de intolerância;
de incapacidade de entender a verdadeira extensão do problema e
procurar, compreendendo as suas raízes, erradicar essas raízes
para não ter que destruir os homens, todos criaturas
perfectíveis – para os que conhecem a imortalidade da alma e a
lei de evolução – ou pelo menos, dentro dos conceitos
tradicionais, todos irmãos, filhos de Deus. Trata-se igualmente
de demonstração de inferioridade moral, de conservar ainda em
grau superlativo o instinto animal em detrimento do espiritual,
"O Livro dos Espíritos" (São Paulo: Petit Editora), de Allan
Kardec, pergunta 742.
Jamais a violência
erradicou a violência – ou já não mais haveria violência neste
planeta visto que a milênios os homens vêm guerreando, matando
em nome da lei, da justiça e até de Deus, assumindo compromissos
onerosos e de difícil resgate...
Fala-se atualmente
em aumentar o tempo das reclusões, em instituir no país a prisão
perpétua e sabe-se até mesmo de defensores da pena de morte; mas
ouve-se pouco na mídia em geral a defesa da implantação séria e
criteriosa, de modo urgente e prioritário, de meios educativos
de largo alcance, ou seja, que forneçam instrução e formação,
que façam da criança e do jovem um ser social, ético, moral e
solidário, lúcido e consciente.
Muito menos se ouve
clamar por condições humanitárias re-educativas para os que se
encontram nas prisões, amontoados, ociosos, relegados ao
abandono, em meio a sujeira e promiscuidade. Porque não
proporcionar àqueles que prejudicaram a sociedade em dado
momento a oportunidade de trabalhar a benefício dessa mesma
sociedade... E também porque não estabelecer para eles o estudo
ao final do dia, com turmas organizadas em conformidade com o
nível e as possibilidades de cada um...
Relembramos os
comentários de Kardec na pergunta 685a de "O Livro dos
Espíritos" (São Paulo: Petit Editora): “Quando se pensa na
massa de indivíduos diariamente lançados na corrente da
população, sem princípios, sem freios, entregues aos próprios
instintos, deve-se admirar das conseqüências desastrosas desse
fato? A desordem e a imprevidência são duas chagas que somente
a educação bem compreendida pode curar. Nisso está o ponto de
partida, o elemento real do bem-estar, a garantia da segurança
de todos.”
Custa-nos quase
acreditar que Allan Kardec escreveu isso em 1857, tamanha a sua
atualidade...
Contudo, os mesmos
amigos nos dão ainda a “dica” para a destruição do egoísmo, pai
de todos os nossos problemas; nos dizem eles que “o egoísmo se
enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a vida
material”.
Com isso por acaso
querem dizer que não precisamos da vida material, dos meios
materiais para a sobrevivência da nossa vida física de forma
digna e adequada? Absolutamente. Esses meios inclusive
constituem o nosso ferramental evolutivo, "O Livro dos
Espíritos" (São Paulo: Petit Editora), pergunta 230. Afirmam
tão somente que o que deve predominar em nós é o senso moral, a
compreensão de que somente na vigência do respeito aos direitos
individuais é que encontraremos a felicidade – tal como Jesus de
Nazaré, esse bom e evoluído irmão, nos ensinou: “faça ao
próximo o que você deseja que ele lhe faça”.
Finalmente, ao
constatar o que hoje se passa com a humanidade, compreendemos a
resposta à pergunta de Kardec se os homens se entenderiam algum
dia: “Sim, quando praticarem a lei de justiça” - "O Livro dos
Espíritos" (São Paulo: Petit Editora), pergunta 812a.
Nós, espíritas, não
estamos dispensados da nossa participação no meio e no
desenvolvimento sócio-cultural, de acordo com as capacidades e
faculdades de cada um de nós; muito ao contrário, pois aquele
que conhece a doutrina espírita deverá estar bem melhor
preparado do que qualquer outro para “assumir seu papel de
colaborador na obra da criação”, "O Livro dos Espíritos" (São
Paulo: Petit Editora), pergunta 132. Como bem
esclarecia nosso ilustre escritor e jornalista espírita Deolindo
Amorim, “O Espiritismo quer o homem no mundo para ajudar a
transformá-lo para melhor”, no livro "O Espiritismo e os Problemas
Humanos".
Não basta nos reunirmos em grupos de prece, trancados em nossas
casas espíritas ou em nossas próprias casas – cabe-nos agir, com
amor, firmeza e decisão. Não basta distribuir a cesta básica e
o agasalho – é imperioso distribuir o esclarecimento, colaborar na
educação de todas as formas ao nosso alcance. Não basta querer
justiça – é imprescindível auxiliar a implantá-la, a partir de nós,
em nossos lares, na nossa vida profissional e até mesmo participando
de manifestações, passeatas e protestos quando necessário, sem
violência porém conscientes da nossa responsabilidade de cidadãos no
mundo, de “seres inteligentes da criação”, "O Livro dos Espíritos"
pergunta 76.
Relação
de artigos de Doris Madeira Gandres...
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