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TIA HELENA (ESPECIAL PARA O JE)

Histórias encantadas - Tia  Helena,  o  que  eu faço? Recebi um e-mail dizendo que sou uma ogra, que eu estou tendo um caso com uma amiga minha, que sou sargentona, que meu namorado é um ogro e que eu afasto todo mundo do caminho dele. O pior é que eu sei quem escreveu. É outra amiga minha - pelo menos eu pensava assim. Ela assinou o e-mail como "Maria, Maria, Maria". Não sei o que fazer, estou constrangida de olhar para ela, eu gosto dela. Somos espíritas. M. A., São Paulo - SP.

Com o que você está mais preocupada? Em ser a Fiona, a ogra que é princesa e mulher do Shrek? Em ser acusada de ser sargentona, homossexual? Ou está melindrada porque seu querido é um ogro?
Vamos por partes. Quem manda um e-mail desses, não está bem. Cartas anônimas acusando quem quer que seja revelam a fraqueza de quem as escreve. No seu relato, você diz que é espírita, que trabalha num centro espírita. Muito bem. O espírita sabe que deve perdoar setenta vezes sete. No caso, perdoe essa jovem, ela não sabe o mal que está fazendo a si mesma. Se ela também é espírita - e você disse que é - devia saber que não devemos julgar ninguém, muito menos dessa forma. Tenha paciência - os sãos não precisam de médico. Ajude-a, ainda que indiretamente, a entender o que é e como funciona a Lei de Ação e Reação.
Quanto à amizade com a colega, que deu origem ao comentário malicioso, não permita que a mesma seja abalada. Quem não deve não teme. E esse me parece, sinceramente, o seu caso. A atitude da autora do torpedo, parece esconder um sentimento doentio: o ciúme. Ou ela está com um terrível ciúme de você ou de sua amiga e não entende que a amizade não tem limites ou restrições em número, gênero e grau. Tomara Deus tivéssemos muitos amigos verdadeiros, com os quais pudéssemos contar nas horas difíceis.
Dá a impressão de que, por qualquer razão, você - talvez impensadamente, sem querer - foi áspera com ela em algum momento (quem sabe a outra moça presenciou a cena?) e ela desejou vingar-se (Meu Deus!) jogando sujeira na web, como se não bastasse a que já enfeia esse meio de comunicação tão útil.
Analisando os arquétipos que ela usou (ogra, ogro, Maria) dá para perceber um pouquinho o que se passa na cabeça da menina. Os ogros são criaturas estranhas, bizarras (e não existem). Para ela, vocês são do outro mundo, a incomodam. Atraída por vocês, na verdade ela luta, interiormente, por aceitá-los. De uma certa forma, está projetando em você e no seu namorado as figuras do pai e da mãe, com os quais ela provavelmente tem muitas dificuldades de relacionamento. Freud explica. Por outro lado não admite dividir uma amizade, o que significa insegurança e egoísmo em alto grau. O pseudônimo que usou (Maria, Maria, Maria), nos remete à mãe de Jesus, um espírito de ordem elevada. Ela, inconscientemente, se julga mártir, vítima do mundo, melhor do que os demais. A repetição do pseudônimo, na verdade, é um grito de afirmação e, ao mesmo tempo, um pedido de socorro... De Maria ela não tem nada ("santas" não escrevem cartas anônimas), a considero mais parecida com a bruxa que envenenou a Branca de Neve, fazendo-se passar por uma doce criatura... Mas, tudo bem, faz parte da nossa caminhada enfrentar esse tipo de percalços.
O que tenho a dizer a você, querida ogrinha - quero dizer, querida sobrinha - é que procure "pegar mais leve" com suas amigas. Às vezes, a sensibilidade do próximo é maior do que imaginamos. Deixe o seu ogro em paz, preocupe-se mais com o seu "contorno". Seja amiga de suas amigas, ajude-as a vencer o mal que ainda existe nelas que é, em essência, o mesmo que habita os nossos corações.
Vamos aguardar o próximo capítulo da novela. Quem sabe a bruxinha resolver escrever e contar sua versão da história? E, por falar nisso, ainda faltam o dragão, o príncipe e os sete anõezinhos...

Se é por falta de adeus, sayonara - Passei um mês na Inglaterra, participando de um programa de intercâmbio. Não sei o que aconteceu, ele me incentivou, me ajudou muito, mas quando voltei, ele me pareceu muito estranho. Não parece a mesma pessoa, está frio comigo. Eu desconfiei que alguma coisa estava errada, mas imaginei que era apenas um ciúme passageiro. Eu gosto dele, ele parece descontente, sinto que está pensando alguma coisa contra mim. Não imagino o que seja, não quero brigar, mas estou irritada. L. B., São Paulo - SP.

Querida sobrinha, fez muito bem em aproveitar essa oportunidade para estudar no exterior. Não sei qual é sua profissão, mas imagino que foi estudar inglês, idioma universal dos nossos dias. Não se culpe pelo que aconteceu, esse estudo vai contribuir para o seu sucesso profissional, não tenha dúvidas disso.
Se ele apoiou sua viagem, a ajudou financeiramente, é porque concordou e confiou em você. Você se refere ao seu retorno, mas não diz o que aconteceu durante sua estadia na Inglaterra. Como foi a troca de e-mails entre vocês? Falaram pelo telefone? Se desentenderam?
Seja sincera, você andou pelos "pubs" de Londres - ou na cidade onde se instalou - em busca de novidades e aventura? Deixou escorregar alguma notícia comentando alguma festinha a que foi convidada e compareceu, "por obrigação"? Em algum momento aproveitou para estreitar as relações entre o Brasil e a Grã-Bretanha?
Nós, mulheres, temos a chamada "intuição feminina", que o Espiritismo explica direitinho do que se trata. Os homens também tem suas percepções. Será que ele não sentiu que o trem saiu do trilho nesses trinta dias de seu sightseing cultural? Os homens não perdoam esse tipo de coisa. Você e eu sabemos muito bem disso, do que estamos falando. Se você cedeu a essa tentação - incursionar pela vida noturna londrina - ainda que uma única vez, pronto. Queimou o filme.
Outra coisa, você voltou muito mudada? Está esbanjando cultura, toda esnobe? Está mais "soltinha"? Por acaso tomou um "banho de loja", mudou a cor do cabelo, seu estilo, seu modo de ser? Está usando um piercing ou uma tatoo? Isso é comum entre os jovens. Sempre voltam "aculturados" do estrangeiro... Nesse caso, ele não está reconhecendo a mulher amada. Está estranhando seu modo de se apresentar, de falar, de se vestir, de se comportar... Considere essa possibilidade.
Converse com ele o mais breve possível. Seja sincera, pergunte o que aconteceu. Procure descobrir o que ele não está gostando: roupa, cabelo, pintura das unhas, maquiagem, modo de falar... Se você gosta muito dele, prometa que vai mudar seja lá o que for que o estiver desagradando.
Prepara-se, também, para a eventual possibilidade de ele "se abrir" e revelar que há uma outra mulher em sua vida, alguém que conheceu nesses trinta dias de solidão. Nesse caso, tudo vai depender do quanto você o ama. Vale à pena entrar nessa disputa? Nesse caso, não se exalte, não chute o balde. Vá com calma, ninguém é obrigado a nos amar eternamente. Se ele fez sua opção, vá com Deus. Eu já disse uma vez para alguém: "Se é por falta de adeus, sayonara".
Não pergunte "quem é ela". Isso é demais. Saia de cena em grande estilo, com dignidade. Quer uma sugestão? Agradeça os bons momentos que passaram juntos, diga que nunca vai se esquecer das alegrias que partilharam e deseje felicidades ao casal. Não caia no ridículo de dizer "se precisar, me liga". Palavras como essa sinalizam seu desespero. Vá para casa, abra "O Evangelho Segundo o Espiritismo", de Allan Kardec, leia em voz alta um trecho da página que abrir ao acaso e seja feliz. O melhor está por acontecer. All right?


Ele se mandou para a Bahia
-
Depois de quatro anos, meu namorado disse que era melhor não continuar. Na semana passada, descobri que ele vai passar o Carnaval na Bahia com uma colega de trabalho, que começou a trabalhar faz pouco tempo na loja. Depois de tudo que eu fiz por ele acontece isso. Trabalhamos juntos, em andares diferentes. Estou pensando em convidar um amigo dele e fazer a mesma coisa, nem que eu precise pagar tudo. Ontem ele disse que, mesmo não namorando, se eu quisesse podíamos ficar de vez em quando. A. M. C., São Paulo - SP.

O que aconteceu antes disso, querida sobrinha? Ninguém muda de idéia assim, do dia para a noite. Das duas uma, ou essa colega "nova" é alguma coisa assim do outro mundo e seduziu seu namorado com algum "filtro do amor" (nem me pergunte o que é isso) ou a relação de vocês chegou ao fim, ele pediu demissão e resolveu fazer um "free-lancer", com essa menina. Em sua carta você resumiu a questão, não dando maiores informações, o que não ajuda muito. Em casos assim, costumo recomendar às minhas sobrinhas um exame completo, um "check-up" das atitudes, do comportamento, do seu modo de se relacionar com as pessoas em geral. Nesse "raio x" da sua personalidade, algumas coisas virão à tona. À partir daí, você mesma vai tirar suas próprias conclusões. Para ajudá-la, vamos levantar algumas considerações.
Você é possessiva? Daquelas que perseguem o namorado pelo telefone, que não suportam "caixa-postal" e que, quando a alma gêmea atende o telefone sua primeira pergunta é "onde você está?"
Você costuma lembrá-lo de seus defeitos na frente de outras pessoas? Tipo assim, numa roda de amigos, deixa escapar "ele também é assim, não ouve ninguém, não presta atenção, só dá atenção para as outras" - e por aí vai...
Você vive reclamando da vida, dos seus problemas de saúde? Ninguém agüenta quatro anos ao lado de uma mulher desse tipo, "replicante"...
Você se sente injustiçada? Este é o caso daquelas mulheres que se apresentam como mártires, maltratadas pelo mundo. Só elas tem razão. O mundo está errado. Alimentam uma falsidade que repetem tanto a ponto de a considerar verdadeira. Freud explica... Não dá para agüentar.
Você é daquelas que não cozinha, não passa, não sabe pregar um botão, tem dificuldade para escrever até bilhete de geladeira, faz um carnaval (a época é oportuna para isso), escandaliza meio mundo e pede socorro só por causa dos ortópteros da família dos blatídeos que aparecem de vez em quando na cozinha? Mulher assim, é difícil. A concorrência está aumentando... Beleza ajuda, é claro, mas não é tudo. Para segurar alguém, a mulher precisa ter mil e uma utilidades.
Você é do tipo "blasé", enjoada? Vive torcendo o narizinho para tudo e para todos, como se nada prestasse, não gosta disso nem daquilo, não admite ser tocada aqui ou ali - e vamos parar por aqui. Esse tipinho enjoativo de mulher já foi muito comum. Hoje parece que é mais uma espécie em extinção...
Você é daquelas que costumam responder "se é bom para você é bom para mim", "para mim tanto faz", "pede você", "você que sabe", "eu não sei, escolhe você"? Se Evas desse tipo agradam em primeira instância - dando margem para que "eles" façam tudo do jeito deles - em um segundo momento, a coisa inverte. Os homens se cansam dessas mulheres que não tem opinião própria.
Você é personalista? Tem opinião formada (e fechada) à respeito de tudo? Não se atemoriza diante de opiniões contrárias e defende suas idéias com unhas e dentes? Se é assim, o caso é sério. Mulheres assim são atraentes - à distância. Eles até apreciam sua companhia, uma vez ou outra, para quebrar a monotonia. Mas ficar... É difícil.
Você é sovina? É mesquinha? Nunca põe a mão no bolso? Todos os gastos são por conta dele? Você não paga nem uma empadinha na padaria? No dia do aniversário dele manda só um cartãozinho de parabéns, daqueles de quatro reais? Quando foi a última vez que o presenteou - nessa encarnação? Geralmente relações se acabam quando "ele" conhece uma mulher que, durante um almoço, jantar ou lanche, diz aquelas palavrinhas mágicas: "Hoje é minha vez. Na próxima, é por sua conta". Pronto! Caiu a Bastilha (sobre a sua cabeça). Ele foi fisgado. Mulheres assim, descoladas, que metem a mão no bolso (estão investindo, é claro...) são muito atraentes para a maioria dos homens. O golpe final é no dia do aniversário do seu querido. Ao lado do seu cartãozinho barato, uma linda carteira de couro, presente "dela". Seus dias estão contados. Se cuida.
Você fala demais? Sem comentários. Até a Radio Boa Nova está intercalando seus programas com música. Por melhor que seja o seu "papo", controle-se. Aprenda a ouvir. Outra coisa, não precisa gritar.
Você é "burrinha"? Costuma até fazer um charminho a respeito de sua pouca cultura? Para algumas mulheres, isso até pode dar certo. Mas, no geral, não sei não... Se você dá umas derrapadas em público, tipo "quero ir para a Europa conhecer as pirâmides do Egito", cuidado. Relacionamentos assim não vão longe. É só olhar a vida amorosa das apresentadoras de televisão...
Quando ele começa a falar sobre alguma coisa, você interrompe e despeja toda sua sabedoria? Faz questão de lembrá-lo que estudou esse assunto na universidade, no pós-graduação, no MBA? Lembre-se, querida sobrinha, homem humilhado pula fora. Cuidado com excessivas demonstrações de sabedoria. Vá com mais calma, sem excessos.
Você é ciumenta? É daquelas que fecham a cara porque ele beijou - no rosto - uma mulher na sua frente? Considera infidelidade os abraços apertados que ele dá nas primas? Pior do que uma mulher ciumenta, só duas... Mulher ciumenta é praga na lavoura, quer dizer, na vida de um homem. No comecinho da relação, serve como termômetro para medir a intensidade do amor. Depois... É doença. Para com isso, larga dessa vida. Ou confia ou não confia. Ou confia desconfiando. Outra alternativa é desconfiar, confiando. Faça sua escolha, mas não seja ciumenta. Meus sobrinhos vivem me procurando para reclamar: "Não agüento mais, Tia Helena, ela é muito ciumenta". O fim da mulher dessas é aquele mesmo: ser trocada por outra, que fecha um pouco os olhos. O verdadeiro amor pede liberdade. Burro amarrado, quer dizer, homem amarrado quer fugir. Não sabe para onde, mas quer...
Você não liga para ele? Ele fica dois dias sem ligar e você nada, nem se preocupa, naquela certeza de que não existe nesse mundo mulher como você? Isso até me lembra um filme, "Gilda", cujo apelo publicitário era "nunca houve uma mulher como Gilda". Cuidado. Cabrito solto no pasto vai longe...
Você é agradável demais? Aquela mulher "docinho", compreensiva, maternal, carinhosa sem limites? Cuidado, muito cuidado minha sobrinha. Relações como essa, edulcoradas, não vão longe. Com o passar do tempo, até dinheiro demais enjoa. Se alguns homens enxergam na companheira a mãe, a irmã, não a desejam o tempo todo ao seu lado. Nem vou comentar porquê...
Você é insaciável? É ninfomaníaca? Sem chance. Essas mulheres mais afugentam os homens que os atraem. Dominando a relação, exigindo mais e mais, expondo seus instintos sem pudores - acreditando que se tornam assim mais atraentes - as mulheres classificadas nessa categoria só agradam no cinema ou na telinha. Só de pensar em falhar na hora "h", diante de uma mulher dessa, eles fogem apavorados. Se pavoneiam, fazem charme, até desejam uma "aproximação", mas ficar, nem pensar...
Você só pensa em trabalhar? Meninas, cuidado. O trabalho dignifica, mas não se vive só para trabalhar. Mulher que só fala em trabalho, que leva para casa os problemas profissionais, está condenada a ser despedida. Ou, pior, arrisca-se a ganhar uma suplente... Modere esse entusiasmo. Pense em outras coisas, em amor, por exemplo.
Você é bruxinha? De vez em quando arrisca umas profecias, tipo "alguma coisa me diz que isso não vai dar certo", ou "eu sei que você não está falando a verdade", ou - durante o relacionamento amoroso - "quem é essa mulher em quem você está pensando?" Quando suas suspeitas de confirmam - para sua própria surpresa - você dá o golpe final: "Eu não disse?", "Eu não avisei?"... Quando as bruxas são jovens, ainda têm chance. Depois dos 30 anos...
Eu gostaria de continuar, mas não agüento. Se alguma de vocês se interessar, posso prosseguir outro dia, é só escrever pedindo. Aliás, se algum editor quiser comprar a idéia, eu até gostaria de escrever um livro sobre esse tema. Mas - de volta ao futuro - está mais calma, sobrinha? Não me leve a mal, brincando com nossos defeitos, amenizamos as nossas desilusões. No seu lugar, eu não gastaria nenhum centavo nesse projeto de vingança que nem sequer é original, já que imita o que o seu ex-namorado está fazendo. Esquece esse homem, querida. Eu até gostaria de dizer que "ele não merece você", mas não esperem frases feitas da tia Helena.
Quanto ao carnaval, nem em Veneza, onde essa tradição é muito antiga, eu recomendo a festa. "Carnaval, desengano, deixei a dor em casa me esperando", "quarta-feira sempre desce o pano"... Que saudade desse eterno menino de olhos verdes, o nosso Chico Buarque. Nessa vida, de verdade mesmo, eu só amei dois homens, além falecido, é claro. O Chico Xavier e o Chico Buarque. O Carnaval é uma festa pagã, de antigas tradições. Há registros dessa festa em Veneza, na época em que era uma cidade-estado (um país), em documentos de 1268. Durante esses festejos, os homens davam vazão aos seus instintos, satisfaziam suas necessidades sem eira nem beira. As pessoas saiam pelas ruas usando máscaras feitas de um tipo de papel machê e gesso, e capas que escondiam todo o corpo. Assim, não se identificavam, nem denunciavam o sexo ou a condição social... Em resumo, era uma festa onde anonimamente transgrediam-se todas as regras sociais. Davam-se vazão aos recalques, descarregavam-se instintos libidinosos. O Carnaval é uma celebração a Baco, o deus do vinho e das orgias. O que esperar de uma festa dessas? Doença, obsessão, tristeza - desengano.
Aproveite esses dias, querida sobrinha, para ler um bom livro. Vou recomendar "Conforto espiritual" (São Paulo: Petit Editora), da nossa querida Vera Lúcia Marinzeck. Nesse livro você vai descobrir que não têm problemas, que as dificuldades são oportunidades de crescimento espiritual. Não perca seu tempo com a vingança. Esqueça tudo isso e abra seu coração para novas alegrias que estão no ar - mas não se esqueça de melhorar um pouquinho seu modo de ser, sempre ajuda...


A obsessão começa assim... Há alguns dias minha filha fez um “Orkut” para mim para que eu me distraísse. Hoje acordei sem a menor vontade de qualquer coisa, embora tenha um outro tanto para fazer, principalmente as atividades da faculdade. Espiritismo é algo que me fascina embora tenha muito medo devido a algumas experiências desagradáveis. Acho fascinante, sei que tenho muita "sensibilidade", mas não consigo passar daí. Sinto que não estou só. Meu relacionamento com meu pai sempre foi muito conturbado. Sou filha única no meio de cinco irmãos. Tenho duas filhas maravilhosas que me enchem de orgulho, de prazer e me rodeiam de carinho. Tenho um marido apaixonado e dedicado. Tem seus defeitos, mas quem não os tem? É muito ciumento e nem vinte anos de casados aplacou isso. Mas é um ser humano maravilhoso. As pessoas invejam demais a minha família. Sinto como se meu tempo estivesse se esgotando e eu ainda não descobri o que vim fazer aqui. Anos atrás uma médium amiga nossa disse que me acompanha alguém que não aceita meu relacionamento com meu marido porque quer se vingar dele pelo que ele fez a ela. Apesar de todo o amor dele e de todas as suas qualidades é verdade que não vivemos bem. Voltei a estudar para fazer novos amigos, mas até agora tenho conseguido coleguismo, amizade não. E para falar a verdade, nem sei porque estou lhe escrevendo. Acho que estou com um gostinho lá longe de conforto, de luz. Será que você pode me dar alguma? Ivana, São Paulo – SP.

Querida sobrinha, agradeço sua confiança. Você não mencionou sua idade, mas acredito que já passou dos quarenta anos e essa informação vai nos ajudar a entender melhor o que está se passando com você e, quem  sabe, com outras leitoras que estão enfrentando o mesmo problema – uma inexplicável sensação de desânimo que vai se avolumando...
Seu passado indica alguns problemas de relacionamento não resolvidos com seus pais. Casada, você se diz “orgulhosa” mãe de duas filhas, que a acumulam de carinho e atenção. Pelo jeito, se dá bem com ambas, tratando-as de igual para igual, de mulher para mulher, quem sabe desejando evitar os mesmos erros de que foi vítima na juventude – a superproteção asfixiante de seus familiares, que talvez a perturbe até hoje.
Por outro lado, se diz casada com um homem apaixonado que não “esfriou” mesmo depois de vinte anos de casado, o que, cá entre nós, amiga, é um feito da sua parte... Para reforçar esse amor cinematográfico, ele é terrivelmente ciumento, o que dá a entender que você é bonita e se cuida, despertando olhares masculinos por onde passa. “Mas ele é um ser humano maravilhoso”, arremata você, como se fosse uma deusa do Olimpo perdoando um reles mortal... Seus desentendimentos conjugais não estão pedindo um diálogo aberto, num momento de tranqüilidade? Quais são as origens desses desentendimentos?
“Olho para trás e sinto como se nada tivesse construído”, diz você. Meu Deus! Um lar, filhas maravilhosas, um marido apaixonado, você na faculdade, todos vivendo sob o mesmo teto e você, mesmo assim, se sente frustrada e vazia...
Em relação ao Espiritismo, que “experiências desagradáveis” foram essas a que você se referiu? Onde é que você foi, minha sobrinha? Vai me desculpar, mas não foi numa casa espírita, onde se pratica o único Espiritismo que existe, aquele que se iniciou à partir da publicação de “O Livro dos Espíritos”, em 1857 e das demais obras codificadas por Allan Kardec... Com todo respeito que nos merecem, as seitas afro-brasileiras não são o Espiritismo. No Espiritismo não existem rituais, sacramentos, batizados, sacerdotes etc. Não se utilizam bebidas alcoólicas, tabaco, incensos, velas, oferecimentos, estátuas, paramentos... A diferença é muito grande, não dá para confundir. Procure informar-se melhor à respeito disso lendo as obras de Allan Kardec. Você bateu na porta errada, querida, tente de novo, agora melhor direcionada.
Essa “sensibilidade” da qual se diz portadora, é uma insinuação de que você é médium? Todos somos, de alguma maneira, e isso não é motivo para se vangloriar, muito pelo contrário... A mediunidade, quando se manifesta com intensidade, é, geralmente, uma oportunidade de resgatar dividas contraídas em outras existências.
“Sinto que não estou só”, arrisca você. Não está mesmo, querida, acredite. Deus é tão misericordioso que designa, para cada um de nós um mentor espiritual – anjo da guarda, anjo guardião, espírito protetor, como queira chamar – que nos acompanha, nos inspirando no caminho do bem.
Essa “médium” citada por você não merece confiança. Não perca tempo com esse tipo de “mediunidade”. Não se deixe impressionar por essa criatura – ela mesma necessitada, com urgência, de orientação e assistência espiritual para entender o mal que está causando a si mesma agindo dessa maneira, semeando a dúvida em corações alheios.
“Voltei a estudar para fazer novos amigos”, diz você. Isso me surpreende. Sempre achei que os bancos de faculdade serviam para se conquistar o saber de uma profissão, o progresso intelectual, moral etc. Não é à toa que você não faz amigos. Seus colegas de classe estão quebrando a cabeça para aprender alguma coisa e progredir na vida e você lá, forçando a barra... Nem se usa mais fazer faculdade atrás de marido, quanto mais amigos...
Amizade é uma conseqüência, não um objetivo. As amizades são construídas na convivência diária, na sintonia de objetivos, nas intempéries do destino... Reflita um pouco sobre tudo isso. Suas filhas – me parece – já entenderam essa realidade e indicaram, para você, um bom caminho, um site de relacionamento, o Orkut, onde as pessoas se conhecem melhor e se reúnem em “comunidades”, grupamentos construídos à partir de preferências pessoais, onde se conhecem melhor e trocam opiniões.
Essa sensação de que falta alguma coisa na sua vida pode ser facilmente preenchida. Imagine-se trabalhando algumas horas, uma vez por semana, voluntariamente, numa instituição beneficente... Seja numa creche, hospital, igreja, orfanato, centro espírita, abrigo para idosos, existem inúmeras oportunidades gratificantes de servir ao próximo. Pense nisso.
Depois dos quarenta anos de idade, mudanças hormonais influenciam o nosso comportamento, causando, por vezes, desânimo ou tristeza em nós mulheres. É conveniente procurar o médico de sua confiança e – por que não? – se estiver ao seu alcance, um aconselhamento psicológico. Não podemos mudar um fato consumado: nossa idade. A idade é um estado de espírito, não se esqueça disso: cada fase da vida encerra uma nova alegria...
Procure também um centro espírita, exponha suas dúvidas e siga as orientações recomendadas. A assistência espiritual, que é gratuita e prestada segundo os ensinamentos de Jesus, a ajudará a libertar-se desses medos infundados. Processos obsessivos – influências espirituais negativas – começam geralmente assim, sutilmente, sem que nos apercebamos...
Não há motivos reais para você se sentir isolada ou deprimida. Lembre-se, “a quem muito foi dado, muito será pedido”. Agradeça a família que Deus confiou em suas mãos, a saúde do corpo e siga em frente. O melhor ainda está por acontecer, como diz um amigo meu – “se você quiser”. Por favor, risque de seu dicionário a palavra “orgulho”, que de acordo com o sétimo capítulo de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, “é o terrível adversário da humildade”, “o orgulho, eis a fonte de todos os vossos males”. Beijos da tia.


Planejei um suicídio...
Estou completamente perdida. Sou casada há 22 anos, tenho dois filhos maravilhosos, de 15 e 18 anos. Meu casamento já não é bom há uns 12 anos. Acho que ficamos juntos para criar os meninos, nem sexo existe entre nós. Há quatro tive uma paquera sem conseqüências na academia de ginástica, com uma pessoa que só agora soube que é muito complicada. Acho que grampearam meu telefone. Não sei até hoje o que realmente houve, mas comecei a ser perseguida por familiares, empregados e amigos dessa pessoa e da namorada dele. As coisas foram piorando. Chamei minha família, contei o que estava acontecendo. Ninguém acreditou em mim. Eu ainda me via perseguida, agora era pior: no trabalho, na faculdade, na rua, ao redor da minha casa. Enlouqueci, comecei a fazer um bando de besteiras, a confundir sentimentos, quase tive um caso com um parente próximo e casado (seria uma tragédia). Planejei um suicídio, que só não deu certo porque fui interrompida por um de meus filhos que me chamou insistentemente para abrir a porta do meu quarto. Agora me sinto envergonhada, suja, sem saída. Viajei e estou fora de minha casa há quase um mês sem saber o que fazer. Voltei a freqüentar um centro espírita, tem me feito bem, mas estou longe de estar bem. Agradeço qualquer ajuda." C. M., São Paulo – SP.

Eu gostaria de abraçá-la e cumprimentá-la pelo esforço que está fazendo para vencer a depressão. Seu relato é uma prova de sua determinação. Senti, em suas palavras, que você abriu seu coração, foi sincera e passou, realmente, o que sentiu e o que imaginou ameaçá-la. Quero ajudá-la não apenas com palavras, mas com tudo aquilo que estiver mais necessitada neste momento.
Gostaria de começar pedindo que não se afaste, de jeito nenhum, do centro espírita onde está recebendo assistência espiritual. Aconteça o que acontecer, não deixe de comparecer às sessões. Nas entrevistas periódicas com o orientador, exponha suas dúvidas, explique suas necessidades. Não fique constrangida. Essa pessoa foi preparada para atendê-la e saberá como auxiliá-la. Se estiver enfrentando alguma dificuldade de ordem material, peça ajuda. A casa espírita também atua na área de assistência social.
Quando você afirma que “seu casamento não é bom há 12” anos, dá a entender que ainda está casada e que sua união continua problemática. Nessa direção é que se encontra, acredito, a raiz de seus problemas. A “paquera sem conseqüências”, na verdade uma busca por afetividade, quase afundou sua vida. Graças a Deus, você superou essa fase, mas ainda se sente “completamente perdida”. Uma questão não esclarecida: e o seu marido? Você conversou com ele, antes, durante ou depois de tudo isso que aconteceu? Colocar a vida em ordem exige que volte para a casa que, afinal, também é sua. Não jogue fora vinte anos de casamento assim, sem mais nem menos... Comunique-se com seu marido, marque um encontro. Nessa oportunidade, defina o que pretende fazer. Antes de reunir-se com ele, faça uma prece, peça ajuda ao seu anjo da guarda.
Defina seus planos: voltar para o convívio da família ou separar-se de vez, definindo quem fica com o quê, inevitável providência de quem se divorcia. Converse, depois, em separado, com seus filhos. Conte a eles tudo o que aconteceu nos últimos anos, sem, no entanto, empurrar a culpa para o pai deles.
O casamento é uma sociedade. Quando tudo vai bem, o mérito é do casal. Quando afunda, a culpa é dos dois. É claro que um pode colaborar mais para o sucesso ou para o naufrágio, mas os dois são responsáveis pelas alegrias e infortúnios.
Do jeito que a coisa está, não há muito espaço para você acusar seu marido. O melhor é assumir sua parte e ir em frente. Quanto a seus filhos, peça o apoio deles, seja qual for sua opção de vida – continuar a relação conjugal ou recorrer ao divórcio. Eles a entenderão se expressar seus sentimentos com sinceridade.
À partir dessas decisões, sua vida vai recomeçar: estou certa disso. Quando assumimos nossos erros e nos retratamos diante daqueles a quem eventualmente prejudicamos ou perturbamos, corrigimos nossa rota e redirecionamos nossa vida. Tudo começa a mudar.
Por favor, deixe o passado para trás.
A paquera que não deu certo já passou, não há que ficar remoendo o leite derramado. Graças a Deus que foi inconseqüente e durou pouco. Já pensou manter um relacionamento com uma criatura tão complicada?
Quanto a essa perseguição que você diz ter sofrido, cessada a causa – o envolvimento amoroso –, não há que recear outras retaliações. Evite relembrar esses episódios. Para que se castigar com essas lembranças?
No Espiritismo aprendemos a valorizar a vida.
Entendemos que a vida é uma dádiva que  Deus nos oferece e que a Ele, somente a Ele, compete extinguí-la. Nosso “passamento” para o outro lado da vida deve ser, portanto, o mais natural possível. Não devemos “acelerar” a morte consumindo bebidas alcoólicas, cigarros, drogas etc.
Os espíritos que cometeram o suicídio sofrem horrores onde se encontram – alguns falam de um tal de “Vale dos Suicidas”, que mais me parece uma imagem mitológica do que propriamente uma região circunscrita. Na verdade, essas almas encontram-se em “looping”, num turbilhão sem fim, no qual a dor da partida provocada se repete indefinidamente em sua consciência... O suicídio é mil vezes pior do que a pior das existências. A primeira grande decepção de quem se mata é descobrir que matou apenas um corpo. A alma continua viva, e, ainda mais viva, a lembrança daquilo que causou o gesto desesperado. Leia, querida sobrinha, “O céu e o inferno” (Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira), de Allan Kardec. Nesse livro, os próprios espíritos que se suicidaram contam o que aconteceu com eles. Na primeira leitura de “O céu e o inferno”, entendi que a vida é para ser vivida.
Nossos problemas e aflições foram causados por nós mesmos. Não há, em hipótese alguma, razão para nos sentirmos injustiçados. No quinto capítulo de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (São Paulo: Petit Editora), de Allan Kardec, descobrimos as causas atuais e as causas anteriores de nossas aflições. As atuais, as besteiras que nós aprontamos nessa encarnação. As anteriores se resumem no título daquele célebre filme: “Meu passado me condena”.
Não há o que se lamentar, sobrinha.
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.
Maior vencedora é aquele que vence a si mesma.
Há muitas alegrias na sua caminhada. Estou certa disso. Jogar essa possibilidade para o alto é cometer um ato do qual você irá se arrepender terrivelmente.
O casamento não deu certo? Não têm mais chance? Paciência, encerre esse capítulo de sua vida. Vai doer? Claro que vai. Mas vai doer somente por algum tempo. Logo a ferida estará cicatrizada e você pronta para recomeçar.
Não se entregue. Não desanime. Além do centro espírita, procure ajuda psicológica – você está precisando dela. Se não dispuser de recursos e residir em São Paulo, vamos ajudá-la.
Você não está suja. Aqueles que deliberadamente a prejudicaram ou perseguiram é que estão manchados por esse gesto.
Volte para sua família, não perca mais tempo. A cada dia que passa, a tristeza e a ansiedade de seus familiares aumenta. Se precisar de alguma coisa, peça, por favor. Quero ajudá-la. Que Deus ilumine seu coração. Beijos da tia que aguarda, esperançosa, suas notícias.


"COMO" É O AMOR?
- Olá tia Helena!! Estou escrevendo novamente para lhe agradecer pelo conselho que me deu e pelas palavras... Procurei um centro como a senhora recomendou, falei sobre minha angustia e estou passando por um tratamento... Existem horas que me sinto muito angustiada ainda, mas estou sendo aconselhada pelos amigos do centro... Quanto ao meu trabalho, não vou deixar de lecionar mas vou voltar a estudar ano que vem, um curso fora da área da educação... Quanto ao filme que citou na resposta que me deu, a senhora deve responder inúmeras cartas aqui e não sei se lembrará, o filme "Mágico de Oz", com a Judy Garland, apesar de ter quase três décadas completadas...risos... eu assisti sim... Estou com essa depressão atualmente por ter perdido minha irmã mais velha, ela tinha leucemia e cuidei dela todo o tempo enquanto estava no hospital ou em casa... Tive problemas numa escola que trabalhava e disso desencadeou tudo... A pessoa que gosto perdeu o pai quando tinha cinco anos de idade, outros assuntos como trabalhar e estudar ele enfrenta normalmente sem medo algum mas quanto a relacionar-se com alguém a história muda... Queria fazer uma pergunta para a senhora, não sei se já amei alguém, as vezes achamos que é amor mas é apenas uma paixão ou atração física, como a gente descobre que ama uma pessoa? "Como" é amor? Muito obrigada de coração pela atenção que me dedicou. Beijos. K.M., São Paulo – SP.

Querida sobrinha, que alegria receber suas boas notícias. Estou imensamente feliz em saber que minhas palavras serviram para ajudá-la. Continue freqüentando o centro espírita, é muito importante perseverar no atendimento e seguir todas as orientações recebidas. A eficiência da assistência espiritual depende, em grande parte, da fé e do interesse do assistido.
Menina, lembro-me bem de ter indicado o filme  “O mágico de Oz” quando respondi sua primeira carta. Há muitos anos atrás, quando o assisti pela primeira vez, acompanhada por mamãe, naquelas saudosas matinês do cine Ipiranga, no centro de São Paulo, me senti a própria Judy Garland. Incompreendida num mundo de injustiças, habitado por adultos preocupados apenas e tão somente com seus afazeres, meu companheirinho de todas as horas era o Lassie, um cãozinho da raça Tenerife que me acompanhou desde o berço até os doze anos de idade, quando se despediu da vida. Para quem não assistiu o filme, o caõzinho de Dorothy (Judy Garland) é o pivô de toda a trama que se desenrola à partir da terrível ameaça que paira sobre o animalzinho. Sentindo-se ameaçada pelo cachorro, a vizinha da família de Dorothy consegue uma ordem judicial para executá-lo. Desesperada, a menina clama em vão pela ajuda dos pais – “Não podemos fazer nada, não podemos ir contra a lei”. Encerrada em seu quarto, Dorothy está desesperada. Mas a aflição dura pouco: o cãozinho consegue escapar e retorna ao lar, saltando a janela de seu quarto na direção de seus braços. Desesperada com a possibilidade da perseguição, a menina toma o animal em seus braços e resolve fugir de casa. No caminho, encontra-se com um ilusionista – um homem idoso, bem-humorado e sábio – que consegue dissuadi-la da fuga, às custas de argumentos bem emocionais... De volta ao lar, Dorothy é surpreendida por um furacão. Uma linda fábula, “O mágico de Oz” me ajudou a entender melhor o amor, a coragem e a inteligência.
O amor que Dorothy sente pelo seu animalzinho de estimação é muito puro e singelo. A personagem do filme está disposta a tudo para salvá-lo da morte, inclusive a arriscar a própria vida nessa empreitada. Esse amor, eu acredito, é o sentimento mais próximo da maternidade. O amor de mãe é a essência de todo o amor. É o verdadeiro amor, que desconhece os desvarios do coração. A mãe ama seu filho sempre, onde quer que ele esteja. Esteja o filho no palácio ou na prisão, ela o ama do mesmo jeito. Jorge Ohnet, a famosa romancista sueca, disse que “em todo amor feminino há uma ternura maternal”. Ela estava certíssima.
Você me pergunta o que é o amor, “como” se descobre que se ama uma pessoa. O amor não se descobre, querida. Ele se descobre sozinho em nosso coração. O amor é imprevisível,  intangível e – para muitas pessoas – altamente volátil, se me permite a comparação. Atração sexual não é amor, é instinto – os animais sentem-se atraídos na época do cio, mas desconhecem o que seja o amor que é manifestação da alma sensível. Infelizmente, muitos homens ainda estão nessa condição. Relacionam-se sexualmente, mas não amam. Para Anatole France, “a vida humana tem duas palavras: a fome e o amor”. Eu estou certa de que o alimento sustenta o corpo e que o amor alimenta a alma. Sem amor, não dá. “O amor é como uma flecha que trespassa o coração de repente”, já disse Henrique Sienkiewicz, célebre novelista polonês. Stendhal é definitivo: “O amor não pode recusar ao amor”, mesmo porque “a linguagem do amor está nos olhos” (John Fletcher, poeta e dramaturgo alemão). “O amor é a chama da vida. Valoriza as coisas. O talento é frio sem o calor do amor” – Emerson. Todas esses pensamentos são muito lindos, mas ouça mais este, querida sobrinha: “Ah! Dois corações que se amam são como dois corações magnéticos: o que se move em um faz mover o outro, pois é só um impulso que age em ambos. Coroa da vida, felicidade sem paz, és tu amor”. Esse pensamento-poesia é de Goethe, o grande escritor alemão. Foi ele mesmo quem também afirmou que “é certo, afinal de contas, que neste mundo nada nos torna necessário a não ser o amor”.
“Infeliz de quem passa pelo mundo/ Procurando no amor a felicidade,/ A mais dura ilusão dura um segundo,/ e dura a vida inteira uma saudade” já dizia o poeta Guilherme de Almeida. O grande poeta Jorge Luís Borges também arriscou sua opinião: “Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca tive, mas viver sem amor acho impossível”. Friedrich Herbel, dramaturgo e poeta alemão, acreditava que “só por meio do amor é que o homem pode libertar-se de si mesmo”. Todos estão certos, são pensadores maravilhosos, mas eu acredito, simplesmente, que o amor é o sal da vida. É o tempero que alegra nosso coração. Por melhor que as coisas estejam, sem amor não dá para viver. Quando amamos, tudo flui melhor – mesmo que nós não sejamos, digamos, retribuídas em pé de igualdade. Ou, para ser bem sincera, que não sejamos retribuídas de forma alguma. Acredito que amando nos superamos, temos mais esperança, “gás” para enfrentar melhor o nosso dia-a-dia.
Nós sabemos que estamos amando de verdade quando não conseguimos ficar muito tempo longe do nosso amor. São cartas, e-mails, telefonemas, torpedos, enfim, seja lá o que for, sentimos a necessidade de estreitar nossa proximidade com a pessoa amada. Queremos por que queremos estar sempre perto do nosso amor, mesmo que seja “virtualmente”. O amor é a sublime alquimia dos nossos sentimentos, “tudo de bom” se mistura dentro de nós. Transborda na afetividade, nos carinhos sinceros, no relacionamento amoroso que nos gratifica antes, durante e depois...
Os jovens de hoje encontram na Internet um meio de comunicação muito interessante para se aproximarem. Eu me refiro ao site “Orkut”, um verdadeiro achado dos dias de hoje. Nesse site, cada um expõe suas intenções e redescobre, muitas vezes, amigos do passado com os quais retomam o companheirismo de outros tempos. No “Orkut” você se expõe em público. Acredito nesse meio de comunicação como um canal seguro para nos aproximar de outras pessoas – que, por sua vez, indicam seus amigos, os quais também nos são apresentados virtualmente. Guardadas as necessárias precauções, o “Orkut” pode nos sugerir além de novas amizades, a possibilidade de encontrar alguém a quem amar. Ainda não tentei, mas não costumo dizer “dessa água não beberei”....
Não se preocupe em encontrar o seu verdadeiro amor, querida. Ele a encontrará. Ame fraternalmente aqueles que estão ao seu redor – seus pais, irmãos, parentes, amigos, colegas de trabalho, de estudo – dedicando a eles sua atenção e carinho e acabará atraindo para si o amor de sua vida... Quanto à sua irmã, recentemente desencarnada, ore por ela. Peça a Deus que a abençoe, a proteja e a ilumine, onde quer que ela esteja. Se ela não está mais entre nós é porque cumpriu sua tarefa desta encarnação. Devemos aceitar a vontade de Deus, resignar-nos diante de sua vontade. Abração da tia, continue escrevendo. Explique melhor o caso de seu namorado, ou melhor, peça a ele que me escreva, quem sabe – só Deus é que sabe – eu possa ajudá-lo em alguma coisa.


ELES SÓ QUEREM PIZZA  -
Todos os meus relacionamentos acabam em pizza! Começam bem depois vai me dando uma forte intuição e é batata. Tia Helena, descubro coisas e fatos que estavam ocultos sobre o amado e já viu, termino tudo. Gostaria de saber se é expiatório. Foram dez em quinze anos. Beijos e muita paz. Pizzaiola Desiludida, São Paulo – SP.

Muito bem, minha sobrinha querida. Você tocou no meu ponto digamos frágil. Não, não estou me referindo aos relacionamentos amorosos. Na minha idade, esse tipo de preocupação já ficou para trás. Estou falando das pizzas. Acredite, minha dieta permite comer pizza. Para ser mais exata, um pedaço e meio por semana...
Mas vamos lá. Dez relacionamentos em quinze anos é uma experiência e tanto. E, ao que tudo indica, todos eles foram condenados por você – “demitidos por justa causa”, não foi assim? Diz você que “descobre coisas e fatos que estavam ocultos sobre o amado”. O que são esses fatos? Eles eram casados? Tinham outros compromissos? Eram viciados em drogas? Não eram homens? Estavam desempregados? Quem procura acha, já diz o ditado, ao qual o dito popular acrescentou “e quem não procura também”...
Durante essas investigações você parou, ao menos por alguns instantes, para refletir sobre a necessidade de “investigar” a si mesma? Já ouviu falar de um filósofo da antigüidade que recomendava “conheça-te a ti mesmo”? É... essa é para pensar em casa, minha querida sobrinha...
Geralmente atraímos pessoas afins, que se encontram na mesma faixa vibratória em que nos situamos. Parece muito complicado para a maioria das pessoas, mas nosso namorado, noivo, marido, seja lá o que for, é – na verdade – nosso professor...
Nessa escola da vida, cada uma aprende o que não sabe. A mulher intolerante vai aprender a ser mais paciente, cordial e compreensiva. A orgulhosa vai sofrer sérias humilhações. E assim por diante... Qual será o seu caso? Conheça-te a ti mesma...
Seguindo esse raciocínio, você já dispensou quinze professores em dez anos de curso. Afinal, quem está errada, você ou eles?
Você já amou de verdade? Tudo leva a crer que não. Não devemos confundir atração física com amor. Sua dúvida, “é expiação?”, não é difícil de ser respondida. Se temos tudo aquilo que merecemos – e que estamos continuamente atraindo pelo nosso pensamento – sofremos as conseqüências dos nossos próprios atos, não é assim?
Procure rever seu comportamento. A quem você deseja atrair? A quem gostaria de entregar seu coração? Procure manifestar, em você mesma, as virtudes que deseja encontrar em outra pessoa.
Antes de se envolver com alguém, procure conhecer melhor quem está ao seu lado. Quem mergulha de cabeça sem conhecer a fundura da piscina pode se machucar seriamente. Espero ter sido de alguma ajuda. Se você me permite, resumindo, o problema não está neles – ou apenas neles – está, igualmente, em você. Procure mudar para mudar o “circuito” em que está envolvida. Nas entrelinhas, deu para ler que você não contou tudo. Escreva novamente. Sinto que ainda não esgotamos o assunto. Beijos da tia.


ME EXPULSARAM DE CASA - Em 2001 minha mãe me expulsou de casa, dizendo que eu não servia pra nada, que eu não queria nada com a vida, pois ficava acordado à noite como um zumbi... Um dia coloquei uma faca debaixo da cama para intimidá-la (impor respeito, pois não iria fazer nada a ela) a não me acordar mais. Para piorar as coisas, meu pai boicotou minha psicoterapia que já durava dez anos e que, segundo ele, não estava adiantando e que eu não tinha jeito. Eles se separaram em 1990 quando comecei a fazer terapia, quando estava com quinze anos. Faz dez anos que não falo com meu pai. Eles me humilham (você não toma banho, você é porco, você é vagabundo, você é feio, você não merece namorada, você vai ser catador de papel, você é preguiçoso...). Me iniciei na Doutrina Espírita há três anos e não tenho mais vontade de me vingar dos meus pais, mas eles ficam falando que o Espiritismo é bobagem e isso me chateia também... Será que estou 100% errado? Não sou santo (graças a Deus!), mas também queria saber como consertar essa encrenca, pois por mais que me esforce pra não ter mágoa dos meus pais... sempre tenho. Desculpe pela carta enorme. R. A., São Paulo – SP.

Graças a Deus digo eu, meu querido sobrinho. Fez muito bem em escrever tudo o que aconteceu. É muito bom quando colocamos nossos problemas “para fora”. Nos libertamos – pelo menos em nível do consciente – de um peso que, muitas vezes, pode nos derrubar. Mas esse não é o seu caso, tenho certeza disso. Desabafar é bom para a alma e a tia está aqui para isso mesmo. Mas vamos trabalhar juntos para encontrar um caminho que o leve a amenizar suas dificuldades.
Na verdade, tudo começou quando seus pais se separaram, não foi assim? Aos quinze anos, em plena adolescência, você sentiu o impacto da separação daqueles que amava tanto e a quem cabia o dever de educá-lo e sustentá-lo. Essa ruptura – que é sempre dolorosa, um verdadeiro terremoto na vida familiar – sem dúvida causa transtornos a curto, médio e longo prazo. Certamente a separação de seus pais não transcorreu com tranqüilidade, em clima de cordialidade e entendimento. Infelizmente, na maioria dos casos é assim mesmo. Provavelmente discutiram diante de você e de suas irmãs, desequilibrando a harmonia familiar – se é que existia antes de tudo isso acontecer. Diante dessa tempestade – numa fase que normalmente é delicada e exige atenção e compreensão dos pais – você se desequilibrou.
Essa quebra de um compromisso assumido na espiritualidade, por parte de seus pais, implica em algumas conclusões inevitáveis à luz do Espiritismo. Deduzimos, meu querido sobrinho, que entre você, seus pais e suas irmãs, existem sérios comprometimentos do passado. Provavelmente, quando desencarnados, assumiram, de comum acordo, o compromisso de reencarnarem na mesma família, viverem sob o mesmo teto e, juntos, acertarem suas dívidas espirituais. Qualquer afirmação mais precisa exigiria, da nossa parte, um exame espiritual mais acurado que, é claro, não é o propósito da tia, pelo menos nessa coluna. No centro espírita que eu freqüento, onde também colaboro na assistência espiritual na condição de médium, embora não seja lá grande coisa como vidente, faço parte de uma equipe que apresenta um diagnóstico do assistido. Muitas vezes, mediunicamente, num relance vislumbramos o passado da criatura. Nesses instantes, aquele que estamos atendendo, que se apresenta simples, humilde, derrotado, aparece de outra forma, muito diferente da atual. A vítima de hoje é o algoz de ontem. Os parentes “problema” são os escravos ontem confinados numa senzala imunda, enquanto o “coronel” se divertia com sua escrava favorita em confortáveis acomodações – à salvo da “sinházinha”, que, por interesse ou por ignorância, não tomava, na maioria das vezes, nenhuma atitude. E vai por aí afora. Aqueles que passam por sérias dificuldades financeiras, desesperados em amealhar uns trocadinhos para sobreviver, são vistos por nós em trajes luxuosos, ignorando pobres coitados que batem à sua porta em busca de um pãozinho para aliviar o estômago. E assim vai, meu querido sobrinho. Não somos flor que se cheire. Para todas as nossas dificuldades existem explicações plausíveis.
Seus pais não agüentaram a carga. Foi muita areia para o caminhãozinho deles. Despejaram o que pesava mais às costas – o compromisso de viverem juntos – e chutaram o balde. Não nos cabe, em nenhuma hipótese, criticá-los. Devemos respeitar as pessoas que se separam, sem acusá-las – aliás, o que se fazia muito há alguns anos atrás. Quando eu era jovem, mulheres separadas eram comparadas a prostitutas, mesmo que vivessem confinadas em seus lares, cuidando dos filhos. Os homens “desquitados” – o divórcio ainda não existia – eram segregados no ambiente de trabalho, pelos amigos, que não os convidavam a visitar seus lares. Considerados  “perigosos” por terem quebrado a aliança de casamento, eram vistos como uma ameaça.
Mesmo nos dias de hoje, a decisão da separação ainda implica em conseqüências mais ou menos penosas. Divisão do patrimônio familiar, pensão alimentícia, horários determinados para visitar os filhos etc são algumas dessas dificuldades. A maior delas é a desarmonia entre os filhos, que exige muita paciência e perseverança para ser contornada. Muitas vezes é necessário encaminhar os filhos a terapeutas especializados para ajudá-los a adaptar-se nessa condição. Sofrem os pais, sofrem os filhos, sofre a sociedade que também é penalizada pelo divórcio.
No Espiritismo, o divórcio é entendido como um mal menor diante das conseqüências de um relacionamento onde o desentendimento crônico pode levar à violência. Nesse caso, o divórcio evita desfechos dramáticos provocados pelo confronto de duas pessoas que perderam o respeito mútuo. Se os filhos sofrem com o divórcio, provavelmente sofreriam muito mais se o relacionamento de seus pais explodisse diante deles – todos correriam o risco de saírem feridos, literalmente, o que é pior...
No seu caso, querido sobrinho, a separação de seus pais representou um mal menor. Espiritualmente, pediram uma trégua a Deus para ganhar fôlego para a próxima encarnação... O que fazer? Aceitar o inevitável... Isso se chama resignação. Aceitar o que não podemos mudar faz parte de uma sabedoria milenar que o Espiritismo confirma. É claro que não vamos aceitar tudo o que acontece e esperar que as soluções caiam do céu... Mas, frente àquilo que não têm solução – o divórcio de seus pais, essa separação dramática que você enfrentou de muito perto – é preciso resignar-se e aceitar a vontade de Deus. Vamos em frente que atrás vêm gente... Que é isso companheiro? Quem fica parado é poste.
Você não vai progredir na vida enquanto não se libertar desse ódio que sente por seus pais. Aceite-os como eles são. São pessoas iguais a nós, com defeitos e virtudes. “Não julgueis para não serdes julgados”, lembra-se das palavras de Jesus? Cabe a Deus, e somente a Ele, por intermédio da Lei de Ação e Reação intervir junto a seus pais.
Liberte-se deles. Está na hora – ou será que já passou da hora? – de viver sua vida. Vire-se. Olhe para a frente. O que você quer da vida? A juventude passa depressa. Coragem, meu sobrinho. As críticas – sejam de seus pais ou de quem for – devem ser analisadas friamente. Se têm fundamento e são verdadeiras, procure se corrigir. Caso contrário, sendo injustas, não as leve a sério. Em ambos os casos, agradeça as críticas que recebeu. Sempre servem para aprimorar o nosso caráter. Lembre-se de Sócrates...
Pessoas que vivem magoadas com tudo e com todos, apresentam, nessa manifestação crônica, um sintoma flagrante de obsessão... Quem está bem espiritualmente, recebe as críticas com serenidade.
Aceite a vida como ela é. Você já cresceu, é um homem. Precisa estudar, trabalhar, amar... Revoltado, encolhido, “enfurnado” nas lembranças do passado – sinto muito dizer isso – você não vai muito longe. É melhor reagir imediatamente: você é jovem, têm saúde, tudo é possível – desde que você tenha fé em Deus e força de vontade. O fracasso de seus pais não foi culpa sua: deixe essas lembranças de lado. Perdoe-os, entregue-os nas mãos de Deus e vá em frente. “Reconcilie-se enquanto estais a caminho”, recomendou Jesus. Confia em Jesus?
Para terminar, procure uma assistência espiritual. Você está precisando muito. Siga à risca a orientação do centro espírita. Sua vida vai mudar – se você quiser... Está na hora de sair do colo dos pais e pegar o seu rumo. Minha resposta foi mais longa do que sua carta, me desculpe, mas alguém precisava dizer tudo isso a você. Por favor, mande boas notícias o mais breve possível. Estou esperando. Não se esqueça de alimentar-se na hora certa. Não há nada melhor do que arroz, feijão, bife, salada, água mineral (ou limonada sem açúcar) e frutas. Se precisar de alguma coisa – seja o que for! – escreva que a gente vai procurar dar um jeito. Beijos da tia (P.S.: Não se esqueça de usar preservativo nos seus passeios noturnos. Cuidado! Muito cuidado!).


ENTRE DOIS AMORES -
Há dez anos namoro um rapaz que eu amo e admiro. Porém ele se mostra acomodado com nossa situação. Há um ano estou balançada por um colega de trabalho que está saindo de um casamento de dez anos, disposto e animado a começar de novo... comigo.  Não sei o que pensar, o que levar em conta, me ajude. A grande maioria dos conselhos me recomenda orar e pedir orientação à espiritualidade que me envolve, pois é o que tenho feito e não tenho recebido nenhum sinal, nenhuma inspiração no sentido de me orientar uma direção. Os conselhos que eu recebi no Orkut não me ajudaram, evidente que eu venho pedindo orientação, mas não senti nada, nem uma inspiração, uma inclinação... S. A. O., São Paulo/SP.

Pense bem, sobrinha, os guias espirituais estão muito ocupados ultimamente. Tantas desencarnações coletivas estão acontecendo, tantas guerras, tanta gente bombardeada sem ter o que comer, onde morar, como curar suas feridas, tantos recém-nascidos sem leite, sem alimento, morrendo à mingua e a minha querida sobrinha desesperada com uma tempestade num copo de água... Sinceramente, se você fosse minha filha, olha, não sei o que eu faria. Sei não...
Os guias espirituais estão com muito serviço, tem mais é o que fazer e não estão com tempo para essas questões que nós mesmas – você ainda está lendo, querida? – devemos resolver. Não satisfeita em movimentar os espíritos você ainda vai no Orkut! Meu Deus, você mobilizou os meninos dessa comunidade por causa dos seus desencontros amorosos!
No e-mail que você mandou para a tia, está reproduzida uma resposta de alguém dessa comunidade que me alarmou: “Nossa, é complicada sua situação”. Pára com isso, minha gente! Acorda, pessoal! Complicada é essa praga do vírus H.I.V! Complicada é a cabeça desses políticos que pedem na espiritualidade para ajudar o povo, reencarnam e continuam roubando os cofres públicos! Isso é complicado! O seu caso não tem nada de complicado! Complicada é a cabeça da sua amiga que fica navegando no Orkut complicando a cabeça das outras internautas! Sai dessa vida, minha filha. Não me queira mal, mas a primeira caridade é dar forças para quem precisa, não puxar para baixo. Dá licença.
Seu colega de trabalho, por quem você está “balançando”, saiu de um casamento de dez anos.  “Ele está disposto e animado a começar de novo”. Muito cuidado, minha amiga. Seu colega está “animadinho”, é claro... É muito comum, hoje em dia, as pessoas saírem de um relacionamento e entrarem em outro, sem muito critério, ou avaliação. Na verdade, você e seu colega de trabalho estão vendo, um no outro, uma oportunidade de amenizar suas frustrações. Essa intenção é, portanto, passageira e superficial, de ambas as partes. Não adianta aliviar os efeitos do problema – no caso, a insatisfação conjugal. É preciso enfrentar a questão. Ir à raiz do mal. Por sinal, o mal é igual mandioca: arranca-se pela raiz.
Por acaso, querida, algum dia você discutiu seus planos com seu companheiro? De vez em quando, os casais precisam conversar, trocar idéias, discutir suas expectativas. Telepatia não vale. Precisa ser diálogo de viva voz. Tipo abrir o coração, falar com a alma, defender seu ponto de vista, fazer valer sua opinião...
Dez anos ao lado de uma pessoa é um tempão. Não dá para jogar assim para o lado, sem mais nem menos. Convide-o para jantar fora, diga que vai pagar (qual é a comidinha que ele mais gosta?), espere a horinha certa (logo depois da entrada, nunca depois da sobremesa), e entre sutilmente na questão, tipo assim: “Assim não dá, prá mim chega!”... Bom, se ele é um “acomodado” típico, vai demorar para reagir até chegar o cafezinho (sempre puro, por favor, café com leite em restaurante é brega, só em casa). Seja qual for a reação dele, é um ponto de partida para você redirecionar sua vida.
Não mencione “o outro”, uma coisa de cada vez. Não use essa possibilidade de relacionamento (eu acho, não sei...) para humilhar o moço. Prepare-se também, sobrinha, para ouvir coisas desagradáveis a seu respeito. Nessas ocasiões, geralmente os homens colocam toda a roupa suja sobre a mesa e, sem rodeios, “chutam o balde”. Mantenha-se firme, não se abale e prepare-se para o pior. Escute todas as acusações, sem interrompê-lo. Menina, você não sabe como isso faz bem para nossa reforma íntima! Ninguém conhece melhor os nossos defeitos do que aquele que nos agüentou ao seu lado durante anos...
Se, porventura, ele pedir uma trégua, tipo “dá um tempo, vamos pensar melhor”, proponha soluções práticas. Não se deixe “enrolar” por promessas. Caso contrário, o “acomodado” vai rodar mais dez anos com você. Em qualquer situação, evite derramar lágrimas, espernear, falar palavrões e gritar “bem que a minha mãe tinha razão”. Por favor, contenha-se, seja sóbria e elegante (meu Deus! Será que você consegue? Eu acho que sim...). Depois você me conta o que aconteceu.
Quanto ao seu colega de escritório, pergunte-se, com sinceridade, por que sente atração por ele? É jovem? Bonito? Inteligente? É um homem de caráter? É bom filho? (porque como marido não deu muito certo...). Cair nos braços dele apenas porque ele está disponível não vai levar a lugar algum...
Quer uma sugestão? Convide-o para almoçar. Jantar não, dá margem a outras conclusões. Escolha um restaurante que ofereça um cantinho discreto para uma conversa íntima. Explique o que está sentindo, fale – abertamente! – de sua relação (mencione os dez anos!). Sem medo de ser feliz, esclareça que não deseja entrar em outra “gelada”. Se ele não “esfriar”, prossiga as negociações... Lembre-se: o que você quer é um compromisso, não “ficar”. Chega de “ficar”.
Peço que me perdoe, sobrinha, mas desejo, sinceramente, que você encontre a felicidade. Não inicie um relacionamento sem terminar esse em que você está envolvida. Pense bem antes de mergulhar de cabeça nessa piscina. Às vezes, as águas são tão rasas e a gente pode quebrar a cara...
Quanto aos bons espíritos, peça a Deus que a acompanhem nesses encontros. Quem sabe, uma inspiração possa ajudá-la... Graças a Deus, você é jovem, bonita e inteligente, está trabalhando, tem casa, comida e roupa lavada. Confiança! Sempre é bom tomar um passe no centro espírita e assistir uma palestra sobre o Evangelho. Ajuda muito a dar um chega pra lá na depressão. Aproveito para mandar um abraço para os sobrinhos do Orkut.


DEPRESSÃO -
Estou me sentindo “um nada”. Pela manhã não sinto vontade de sair da cama, quando chega a noite, não consigo dormir. Fui ao médico, ele atestou depressão, tomei o remédio que ele receitou apenas durante um mês. Não consigo me dedicar à minha profissão, quando tenho que ir dar minhas aulas parece que sinto todos os tipos de dores e principalmente o desânimo. Também conheci uma pessoa um pouco antes de minha irmã ficar doente. Ele é uma pessoa totalmente insegura, diz que tem medo de mim, pois posso “arrancar pedaços”, pode vir a me amar e tem medo disso, porque ele corre o risco de me perder. Deixei de acreditar nas pessoas, em mim mesma, tenho medo de sair de casa, de dirigir, me afastei das minhas amigas. K. M., São Paulo – SP.

Menina, bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados. Bem-aventurados os que sofrem  perseguição por amor à justiça, porque deles é o reino dos Céus. Nestas palavras de Jesus, que eu copiei de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, encontrei inspiração para responder sua carta, que me comoveu pela espontaneidade. Espero, com a ajuda dos bons amigos espirituais, que eu possa, de alguma forma, ajudá-la.
Vamos lá. Ninguém sofre ao acaso. Nessa parte do Evangelho, que é uma das minhas páginas preferidas, eu encontrei explicação para todas as minhas dificuldades. Há muitos anos, quando entrei num centro espírita pela primeira vez, o expositor explicava justamente esse capítulo. Eu não agüentei, desatei a chorar. Fui carinhosamente abraçada por uma senhora idosa, muito gentil, meiga, que me chamou de “filha”. Guardei no fundo do meu coração aquelas palavras abençoadas: “Filha, peça ajuda a Deus. Ele vai te atender”. Soluçando, sufocada pelos meus problemas, segui seu conselho, pedindo em voz alta.
Menina, você não sabe o poder de uma prece sincera. Naquele dia, abraçada por aquela senhora tão meiga, me senti no colo da minha avó. Pedi ajuda a Deus, sem conseguir parar de chorar. Respeitosamente, a dona Dirce manteve-se em silêncio. Depois que eu recobrei o fôlego, me estendeu um lenço branquinho, de renda, com suas iniciais gravadas, DM. O lenço foi insuficiente para enxugar a cascata de lágrimas que eu derramei naquela tarde. Desempregada, doente, órfã de pai e mãe, o dinheiro minguado acabando, assediada pelo dono da pensão onde eu morava lá no bairro do Bom Retiro, eu não sabia mais o que fazer. Para me afligir ainda mais, tinha perdido todos os meus documentos. Inadvertidamente, coloquei todos os meus papéis numa carteirinha onde escondia uma cédula que era o meu dinheirinho de reserva. Um dia, não sei como, essa carteira desapareceu.
Veja você o que aconteceu depois da minha prece. Uma senhora que observava à distancia, perguntou para onde eu ia. Eu respondi que não sabia para onde iria. Discretamente trocou algumas palavras com a minha providencial protetora e me levou até sua casa, um sobrado naquele mesmo quarteirão. Querida, essa senhora – que Deus a tenha, já desencarnou – era inspetora de ensino. O quintal de sua casa era uma escola improvisada onde ela dava aulas particulares para ajudar no orçamento doméstico. Ela me passou alguns alunos e com esse trabalho fui tocando a vida até passar num concurso público e ser contratada pelo Estado. O falecido era o diretor da primeira escola onde fui lecionar. Para terminar – estou cansando você com minha história? – os documentos que eu havia perdido, achei no dia seguinte à minha visita ao centro espírita. Com uns trocadinhos que a dona Laura me emprestou, fui logo cedinho tomar meu cafezinho com bolo de fubá. Qual não foi a minha surpresa quando o português – não me lembro o nome dele, mas era do Porto – me perguntou com aquela entonação típica das almas rústicas: “É da senhora?” – e me estendeu a carteirinha desbotada, recheada com toda minha documentação.
Bem dobradinha no meio dos papéis, lá estava a minha notinha, toda a minha fortuna. Foi demais para o meu coração. Tudo isso que eu escrevi, minha linda, é para você acreditar que eu sei o que você está passado. Recomendo a você, hoje mesmo, procurar um centro espírita. Foi assim que eu comecei a dar um jeito na minha vida. Descobri que é possível afastar as más influências espirituais que nos impedem de enxergar melhor a luz no fim do túnel. Geralmente nessa primeira visita, os freqüentadores são convidados para uma entrevista de orientação e encaminhamento. Explique o que está acontecendo, abra seu coração. Exponha suas dificuldades, seja sincera. Se sentir vontade de chorar, não segure as lágrimas. Não é a primeira vez que eu faço uma recomendação como essa. Siga direitinho o que for indicado para o seu caso. Não falte nas sessões de assistência espiritual. Se você agir assim, com determinação, sua vida vai mudar. Acredite nisso.
Com relação à sua relação amorosa, alguma coisa está muito errada. Se ele têm medo de você, ou ele é fraco demais ou você está sendo muito agressiva. Ou, quem sabe, as duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Não vejo muito futuro nessa união. Mas, sempre vale uma tentativa. Depois que se sentir mais segura, chame o rapaz para conversar. Ele está precisando ouvir uma sincera declaração de amor, tipo “Eu te adoro!” (se for verdade, é claro) em voz bem alta, um sorriso lindo estampado em seu rosto. Não há homem tímido que resista.
Esse tipo de atitude, assim, de repente, derrete até o coração do homem de lata, aquele personagem do filme “O mágico de Oz”, com a Shirley Temple; acho que você não conhece, não é da sua encarnação. As tempestades da vida também passam, e, depois delas, costumam aparecer os arco-íris da bonança. Não é somente nos filmes de antigamente que isso acontece.
Para terminar, minha querida sobrinha, faça uma prece e abra o Evangelho. Leia um trecho dessa lição em voz alta. Lembre-se, menina, que o melhor guia da humanidade é Jesus. Ele nos responde por intermédio do seu Evangelho, porque ele é o caminho, a verdade e a vida. Quero, bem depressinha, receber notícias suas. Se precisar de alguma coisa, escreva.  Não sou meiga como aquelas mulheres que me ajudaram um dia, a dona Dirce e a dona Laura, mas não vou decepcioná-la. Beijos da tia.


INFIDELIDADE E RACISMO -
Tia Helena, será que a senhora e os seus guias podem me ajudar?
Não sei por que ainda estou viva. Na minha família não me dou bem com ninguém, meu pai me odeia e fala isso abertamente, minha mãe sempre está do lado dos meus irmãos e eles não gostam de mim. Mas o pior é o meu namorado. Já estou com esse cara a um tempão. No começo ele me ajudava, sempre dizia que me adorava, cuidava de mim. Agora nem para o sexo ele me procura. Não fala comigo, sempre tem outras ocupações. Desde que eu o conheci ele nunca me apresentou para os amigos ou família dele. Quando alguém nos via junto ele sempre despistava. Acho que ele tem vergonha de mim. Eu sou filha de negra e ele é tão branquinho que parece leite. Hoje ele me trata com tanta frieza. Não tive forças de ir embora ainda mas agora que estou muito triste tenho vontade de ir embora, abandonar tudo, ir para o meio do mato, outras horas penso que se me matar ninguém vai perceber e talvez seja a solução, outras vezes penso em cair no mundo (tenho certeza que ele já me traiu, eu já o peguei na mentira muitas vezes). Por que eu tenho que sofrer tanto assim, porque ninguém me ama? Me ajude eu só tive coragem de falar tudo isso porque nunca vou conhecer a senhora. A. S., São Paulo – SP.

Minha sobrinha o que é isso? O que está acontecendo? Vamos com calma, que tudo pode mudar. Eu sou espírita, acredito em Deus, em Jesus e no meu mentor, esse anjo da guarda que me acompanha há tantos anos. Para tudo há uma razão, não há efeito sem causa. Sendo assim, vamos esfriar a cabeça e pensar juntas. Antes de mais nada, sua saúde está ótima, o que já é uma grande benção. Em segundo lugar, você não está passando fome nem morando debaixo da ponte. Reside com os pais, tem irmãos e até está namorando. Gostaria de lembrá-la de que devemos agradecer tudo aquilo que temos para merecermos o que desejamos alcançar. Nos revoltando com o que está em nossas mãos, perdemos a oportunidade de crescer espiritualmente. Diante do que não podemos mudar, devemos nos resignar.
Algumas coisas em sua vida você não pode mudar. Uma delas é a cor de sua pele. Você diz que é filha de negra. E qual é o problema? Nós somos espíritos e os espíritos são todos iguais, não tem sexo, muito menos se diferenciam por caracteres raciais. Até eu mesma gostaria de ser mais moreninha para chamar a atenção...  Não pense mal de mim, sobrinha. Sou viúva, posso me permitir esses devaneios. A mulher negra, hoje em dia, valoriza sua beleza natural e se destaca. Se o seu namorado é um branquinho azedo, problema dele. Se ele está com você é porque deve gostar de café com leite. Só está faltando adoçar essa mistura.
Assuma sua moreneza, minha filha. Não há motivo nenhum para você se envergonhar de sua raça, seus ancestrais foram guerreiros valentes, acreditavam em Deus, se comunicavam com os espíritos, conheciam tão bem a natureza que se curavam com ervas e raízes medicinais. Valorize seu lado afro e vá em frente. Pare com isso de escova definitiva, amaciamento, use um corte que destaque seu rosto.
De acordo com sua carta, no inicio de seu relacionamento o namoro andava às mil maravilhas. Depois, tudo desandou. O que aconteceu nesse meio tempo? Não é possível que ele tenha mudado sem razão. O que aconteceu? Pense bem antes de responder. O relacionamento amoroso é uma troca. É preciso retribuir o carinho que recebemos. Ele dizia que a adorava, preocupava-se com você. Qual era sua retribuição? Vocês continuam juntos, mas não estão se relacionando. Segundo suas palavras, ele não procura por você. Se Maomé não vai à montanha, já sabe, a montanha vai até Maomé... Coragem, minha filha. Quem quer, vai. Desça do salto, para que tanto orgulho? Diga que sente falta dos seus carinhos. Convide-o para sair, faça um programa diferente. Mude o seu perfume. Uma dessas tardes, andando pelo shopping, recebi a amostra de um perfume tão gostoso que não resisti. Entrei na loja e quase cai para trás com o preço. Pensei que custasse um absurdo, mas não era nada disso. Aproveitei e levei para uma sobrinha que estava precisando “incentivar” o marido, que andava um pouco “distraído”.
É claro que o perfume é só um detalhe. Mas são os detalhes que compõem o todo. Quando nos preocupamos em agradar quem está do nosso lado, estamos seguindo os ensinamentos de Jesus, “amar ao próximo como a si mesmo”. Quer ser amada? Ame, sobrinha. Quer ser respeitada? Aprenda a entender as limitações do próximo, mesmo porque nós também somos portadores de inúmeras imperfeições e vícios... “Atire a primeira pedra quem estiver sem pecado” – lembra-se dessa passagem do Evangelho?
Procure melhorar um pouquinho seu jeito de ser. Seja mais doce, mais paciente, mais indulgente, mais amorosa. Tempere sua vida com umas pitadinhas de alegria, de afetividade. Agindo assim, você vai criar um clima favorável para resolver, de vez, o que atormenta seu coração. Aproveite um momento favorável e puxe o assunto para o seu lado. Pergunte o que está acontecendo. Pelo amor de Deus, não pergunte “se ele tem outra”. Esse tipo de pergunta simplesmente acaba com qualquer relacionamento. Se você for delicada e falar com franqueza, ele vai abrir o coração. É bom se preparar para ouvir coisas desagradáveis. Explique que se sente constrangida quando ele a rejeita diante dos outros. Escute com paciência, não perca a calma. Espere ele terminar, diga que vai pensar sobre o assunto, alguma coisa assim para ganhar tempo e refletir melhor. Geralmente nos arrependemos de atitudes tomadas no calor dos acontecimentos. Reflita sobre os motivos que ele apresentar – se for preciso, não se acanhe em me escrever – para depois se posicionar.
Por favor, nem pense em “cair no mundo”. Algumas mulheres que eu conheço caíram no mundo e não se levantaram mais. Se um relacionamento não vai bem, não é motivo para sair por aí se entregando por vingança. Por sinal uma vingança bem ridícula, porque desvaloriza quem toma esse tipo de atitude imatura e promíscua. Não deu certo com ele? Aguarde o próximo capítulo. Eu sempre digo para mim mesma, querida sobrinha, “o melhor está por acontecer”. O melhor acontece naturalmente, não por força da nossa vontade descontrolada. Cuidado, querida. Existem tipos que farejam pessoas em desequilíbrio para aproveitar-se delas. Resultado, o que estava ruim, pode ficar ainda pior. Não há preservativo que nos livre das conseqüências desse tipo de relacionamento, que vão muito além das DST, as doenças sexualmente transmissíveis. Aproveitando para refrescar o assunto, eu sou de um tempo que DST significava Departamento de Sinalização e Tráfego. Meu Deus, como o mundo mudou... Se o falecido estivesse aqui – às vezes eu sinto a presença dele no centro espírita – não ia gostar muito das minhas roupinhas fashion, mas o que fazer? É melhor uma viúva alegre do que uma deprimida pesando para a família e a sociedade, engrossando a fila dos hospitais públicos. Muito bem, me perdoe por esse devaneio.
Para terminar, vamos ver a questão do relacionamento familiar. Observe que sua mãe, seu pai e seus irmãos fecharam questão: para eles você é uma “persona non grata”. A raiz de todos os males que a atormentam, querida, está em você mesma. Quantos pratinhos de louça você lavou nos últimos tempos? Quantas roupinhas passou para a mamãe? Quantas palavras de carinho e compreensão dirigiu ao papai? Quantas vezes agiu como uma irmã legal, dando uma força para os seus irmãos? É... sua imagem familiar está bem prejudicada. Mas você sabe o que fazer. Comece, hoje mesmo, a mudar. Participe da vida familiar. Ajude, compreenda, colabore, sem nada esperar em troca. Não reclame, não critique, não exija. Essa receita é infalível.
Largar tudo para ir para o meio do mato seria uma ótima idéia se o Tarzan realmente existisse. Mas, mesmo assim, ainda teríamos que competir com a Jane, o que não seria muito fácil para nós duas, não é mesmo? Eu, uma senhora de meia-idade e você uma garota melindrosa, com mania de perseguição, ficaríamos o resto da vida fazendo companhia para a macaca Xita (ou é Chita?)... Vamos tocar nossa vidinha, querida. Nem pense em suicídio. Esse é um mal ainda maior do que o maior de todos os problemas. Se você duvida, leia “O Céu e o Inferno” (Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira), de Allan Kardec, e “Morri! E agora?” (São Paulo: Petit Editora), psicografado pela Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho. Depois você me escreve contando o que achou.
Para terminar, procure hoje mesmo uma casa espírita. Ao lado da questão comportamental e emocional, existe o lado espiritual. Você está precisando, com urgência, de uma assistência espiritual. Não custa nada tentar. Tenho certeza absoluta de que, se você perseverar e freqüentar a reunião indicada na entrevista de orientação, sua vida vai mudar.
Existe uma lei divina, que a maioria das pessoas infelizmente desconhece. É a Lei de Ação e Reação. O mal que fazemos, retorna até nós. O bem que praticamos com desprendimento, irá nos beneficiar. Por maiores que tenham sido os males que provocamos em outras encarnações, podemos dar uma reviravolta em nossa vida e nos livrar dos sofrimentos. Querida sobrinha, anote, por favor, sua lição de casa: “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, quinto capítulo, “Bem-aventurados os aflitos”. Beijos da tia. Depois me conta tudo o que aconteceu.


TENDÊNCIA HOMOSSEXUAL
Olá Tia Helena. É com grande peso no coração que recorro aos seus consentimentos. Tenho dezoito anos de idade e desde os treze tenho certeza dessa opção, e comecei uma vida sexual ativa aos qüatorze anos.  De lá para cá foram relações arriscadas com desconhecidos (ou não né!). Temo estar passando por um processo obsessivo, pois cada dia é uma luta para mim e cada noite ao dormir peço para não acordar. O fato de não conseguir estar cumprindo a verdadeira missão à qual meu espírito veio a Terra para cumprir me abafa as emoções... Mesmo sendo espírita e sabendo de tudo que estou fazendo acho que muitas vezes prefiro me esconder e deixar a vida me levar. Este ano entrei na faculdade, junto com ela vieram várias outras coisas, novas amizades, comecei a me entender e me aceitar melhor. Sou técnico em administração, faço estágio na minha área e amo de paixão o curso e trabalho perto da universidade e tenho saúde e inteligência, mas não tenho paz de espírito. Tudo que acontece em minha família eu fico sabendo só depois e pra mim tanto faz,  isso me deixa cada dia mais triste. A.B., Uberaba – MG.

Meu sobrinho querido, estou feliz com a notícia de que você entrou na faculdade. Parabéns! Deus que o ajude a continuar seus estudos. O melhor que você tem a fazer, nessa idade, é estudar, entregar-se aos estudos, levar a sério todas as matérias, pesquisar, perguntar o que não sabe ou não entendeu, ler os livros indicados pelos professores e juntar-se a estudantes que também desejam progredir. Fiquei ainda mais feliz quando soube que o curso atendeu suas expectativas, que você está entusiasmado e deseja realmente trabalhar na área administrativa. Muito bem, meu querido. Quem abraça a profissão que ama tem tudo para alcançar o sucesso.
Fiquei preocupada com o seu descaso com a mamãe. Querido, o que é isso? Pense bem. Se não fosse a mamãe, você não estaria encarnado. Ela merece mais atenção de sua parte. Não custa perguntar o que está acontecendo em casa, se ela precisa de alguma coisa, como vai sua saúde etc. As mulheres – eu que o diga – adoram ser lembradas. Não tive filhos, mas, se os tivesse, adoraria um que me desse um pouco de atenção e lembrasse, de vez em quando, de sua mãezinha...
Aproveito para mandar um abraço a toda essa gente boa de Uberaba, uma das minhas cidades preferidas, onde você reside. Se Ouro Preto é a cidade das igrejas, Uberaba é a terra dos centros espíritas... Quanto nós devemos ao nosso querido Chico Xavier... E por falar nele, o nosso querido médium costumava explicar às pessoas que o procuravam que não deviam criticar ninguém, muito menos os homossexuais. As atitudes do próximo não nos dizem respeito. Se Jesus não julgava, quem somos nós para julgar?
Para surpresa de alguns, o Chico dizia que é compreensível um homem sentir admiração extremada por outro homem. Antes de qualquer conclusão apressada de sua parte, segundo o discípulo de Emmanuel, essa admiração deve ser sublimada na amizade sincera e desprendida, nunca desviada para o relacionamento sexual... Veja, o que o Chico queria dizer – inspirado por seu mentor – é que o amor não reconhece limites ou fronteiras. Por amor, devemos entender a afetividade pura e sincera. O mesmo amor que Jesus dedicou à humanidade quando encarnado entre nós – “Amar ao próximo como a si mesmo”.
Na sua carta, você deixa bem claro que sente atração física por outros homens, mas está questionando essa tendência. Na condição de espírita, você sabe que os espíritos não tem sexo, como nós, encarnados, o entendemos. Os impulsos da alma – ativos ou passivos – se manifestam por intermédio dos órgãos sexuais. Os espíritos encarnam como homens ou mulheres, segundo suas necessidades de evolução. Devem conhecer e experimentar a vivência no corpo feminino e masculino. Se estamos num corpo feminino, é evidente que nossa missão está no exercício da sensibilidade, da maternidade, do amparo à família. Nos tempos atuais, a mulher é mais ativa, colabora no orçamento doméstico, exerce funções antes privativas dos homens, mas continua mulher e feminina. No corpo de um homem, o espírito deverá experimentar a vivência da masculinidade, da paternidade. O progresso e a reprodução da espécie humana depende da vivência sadia entre homem e mulher. Compreendemos também que, no relacionamento sexual, homem e mulher permutam fluidos, tanto mais benéficos quanto maior for o amor e a harmonia existente entre o casal.
Alguns espíritos que encarnaram muitas vezes em corpos femininos, sentem dificuldade ao renascer no corpo de um homem. Ainda apegados ao passado, desejam reviver experiências que não são condizentes com sua atual condição sexual. Deixam-se arrastar por seus impulsos e entregam-se à realização de suas tendências mais marcantes. Não é possível generalizar, nem todos os casos se enquadram nessa descrição. Outras pessoas experimentam o homossexualismo por simples curiosidade, ou pelo desejo de alcançar outros prazeres.  Há ainda aqueles que se entregam a devaneios e são vítimas de obsessões persistentes. Existem outras razões para a manifestação homossexual, tais como traumas da infância, influências marcantes recebidas na época do despertar da sexualidade etc.
Você pede o meu “consentimento”. Quem sou eu, querido sobrinho para consentir com suas atitudes? Me permito, nessa modesta coluna, a pedir a você para consultar um psicólogo espírita, que muito poderá ajudá-lo a vencer essa depressão que vez por outra o atormenta. Sinto que esse desejo de se relacionar com pessoas do mesmo sexo – e até mesmo com desconhecidos – esconde, na verdade, uma necessidade muito grande de afeto que você talvez não tenha recebido de seus pais. Existem muitos perigos nesses relacionamentos – e não me refiro apenas às doenças sexualmente transmissíveis –, os quais você, aparentemente, parece ignorar... O homossexual vive uma fase de transição. Sofre para adaptar-se ao corpo que ocupa, mas deverá vencer – nesta ou na próxima encarnação –, essa resistência, assumindo a postura sexual condizente com seu corpo físico.
No centro espírita que você freqüenta, procure uma assistência adequada às suas necessidades. Não se entregue nem ao remorso nem à depressão. Considere que os seus relacionamentos não estão contribuindo para sua felicidade. Alguma coisa está errada e há tempo para descobrir o que é. Você é jovem e inteligente. Tem saúde e disposição para viver, trabalhar e estudar. Aproveite o que Deus entregou em suas mãos e viva em paz. O que está feito, está feito, mas é melhor repensar o amanhã. Um abraço dessa tia que adorou sua sinceridade e que está torcendo para você direcionar melhor sua afetividade, um patrimônio de valor incalculável que não deve ser distribuído ao acaso. Não se esqueça de escrever depois, contando as novidades, quero acompanhá-lo de perto. Beijos da tia Helena.


HOMOSSEXUALISMO - Depois de quatro anos juntos, descobri que a minha namorada tem um caso com minha irmã. Eu não sei o que pensar. Gosto muito dela, pensei que era feliz comigo, agora acontece tudo isso. Tive vontade de acabar com as duas, mas Deus me ajudou. Minha irmã eu sempre soube. Nunca teve namorado, sempre andou muito apegada a suas amigas, mas não pensava que chegaria nesse ponto. O pior: o que vão pensar de mim? Estou escrevendo porque acho que se trata de um encosto espiritual muito ruim. Um dia ela chegou e me falou que gostava muito da minha irmã, mas ou eu não entendi ou ela não falou a verdade. Nós moramos juntos, meus pais moram no interior e não sabem de nada. Não sei o que vai ser quando descobrirem, e agora o que eu faço? N. A., São Paulo/SP.

Nesse instante, é preciso muita calma para não piorar ainda mais as coisas. A primeira conquista daquele que se diz espírita é a serenidade. A situação é constrangedora, é verdade, mas o seu e-mail dá a entender que o mal maior que você está sentindo é o orgulho ferido, do qual você precisa se libertar. No 12o capítulo de “O Evangelho Segundo o Espiritismo", "Amai os vossos inimigos”, de Allan Kardec, está bem claro: “fazei por amar aqueles que vos inspiram indiferença, ódio e desprezo”, “não vos esqueçais, meus queridos filhos, que o amor aproxima-nos de Deus, e o ódio nos afasta d’Ele”. Odiar as duas que talvez impensadamente traíram sua confiança, não é uma atitude cristã, nem conveniente. Violência e ódio não levam a nada. Jesus revogou, há dois mil anos, o “olho por olho, dente por dente”, lembra-se? Converse com elas, em particular. Explique que sabe o que está acontecendo, que aceita essa realidade, mas exponha – com franqueza, mas sem indignar-se – seus sentimentos. Ouça o que elas têm a dizer, compreenda suas razões, deixe os preconceitos de lado. É hora de iniciar o diálogo.
Morando na mesma casa, durante tantos anos, você não percebeu que sua namorada não era feliz? E quanto à sua irmã? Não foi capaz perceber que ela precisava de um gesto de carinho, de apoio, para vencer suas dificuldades? Você me parece um estranho no seu próprio lar. As coisas não acontecem assim, do dia para a noite. De olhos fechados para as duas, você, nesse tempo todo, pensou apenas em si mesmo. Agora, chorar sobre o leite derramado não vai ajudá-lo em nada.
Homens e mulheres são iguais diante de Deus e têm os mesmos direitos, receberam a mesma compreensão do bem e do mal e a capacidade de progredir. Lembrar da mulher apenas na hora de esquentar a comida, passar a roupa ou ir para a cama, é, infelizmente, uma atitude muito comum dos homens de hoje em dia - eu sou viúva, mas sei o que é isso. Os homens precisam entender que somos espíritos eternos e os espíritos não tem sexo, não “somos” mulheres, “estamos” mulheres. Isso muda um pouco as coisas, não muda?
Veja “O Livro dos Espíritos”, questão 200: “Os espíritos têm sexo?”. “Não como o entendeis, porque o sexo depende do organismo físico. Existe entre eles amor e simpatia, mas fundados na identidade dos sentimentos”. O espírito que animou o corpo de um homem pode, em uma nova existência, animar o de uma mulher e vice-versa: “Sim, são os mesmos Espíritos que animam os homens e as mulheres” – questão 201. Os espíritos encarnam como homens ou mulheres, porque não têm sexo. Como precisam progredir em tudo, vivem num corpo de homem e de mulher, segundo sua necessidade de aprendizado.
Muitos espíritos, que se fixaram, em várias encarnações, na masculinidade, poderão, eventualmente, sentir dificuldade ao reencarnar num corpo feminino. Essa resistência, que não é uma regra, exige do espírito perseverança e determinação para ser vencida. Se é por intermédio do sexo que nos reproduzimos, perpetuando a espécie humana, depreende-se que a ligação homossexual não é produtiva e nem atende as leis divinas. Não devemos condenar o homossexual, mas entender que ele atravessa uma fase de adaptação, uma instância intermediária que o levará – nesta ou em próxima encarnação – a assumir a legítima sexualidade à qual deverá experimentar.
Meu querido sobrinho, imagine encontrar – você que hoje é um homem – um grande amor do passado, vivência de encarnações anteriores, no corpo de outro homem... Percebe o que estou sugerindo? Se os espíritos se alternam na vivência do sexo, essa é uma possibilidade mais do que plausível. Espíritos que juraram eterno amor, firmaram essa adoração em várias encarnações, durante as quais se relacionaram intensamente, sentem uma forte atração ao se reencontrarem. Por vezes, nessa situação, muitas pessoas não reconhecem as fronteiras da sexualidade e dão vazão às suas paixões... Não vamos nos atrever a julgá-las, porque não sabemos o que o destino nos reserva.
Não estou fazendo apologia da permissividade, muito pelo contrário, mas, simplesmente, lembrando os desafios que precisamos vencer para evoluir na manifestação dos impulsos sexuais, que devem ser sublimados mas que não serão modificados sem que nos empenhemos nesse sentido. Jesus recomenda não condenarmos o  próximo. Se cada um é dono do seu próprio destino, quem somos nós para julgar sua irmã ou sua namorada? Não sabemos o passado desses espíritos, sequer imaginamos o que necessitam vivenciar para vencer suas expiações e provas. Vamos orar por eles, pedir a Deus que ilumine seus corações. É o que nos cabe sugerir nesse momento. Quanto à tendência homossexual de sua irmã, você dá a entender que esse fato era do seu conhecimento – embora nada tenha feito para compreendê-la e ajudá-la. À distância, percebo nas duas, almas afins, entregues à solidão, que, de repente, encontraram escora uma nos braços da outra. Será que sua omissão não empurrou uma para a outra? Eu sinto muito, mas tenho que lembrá-lo disso.
Não se entregue ao sofrimento nem ao orgulho. Quer uma sugestão? Peça uma chance à sua namorada. Reconheça seus erros, modifique seu comportamento, seja mais carinhoso. Com franqueza, assuma sua parte no que aconteceu. Quanto à sua irmã, abra seu coração, revele seus sentimentos, diga a ela o quanto a ama e que deseja ajudá-la a vencer suas dificuldades, sejam quais forem.
Ligações como essa, em muitos casos, são apenas reencontros do passado que se apagam com a mesma intensidade que se acenderam. Não se entregue diante do que aconteceu. Lembre-se de que o verdadeiro amor é uma força muito grande, capaz de vencer as barreiras que, vez por outra, se interpõem entre dois corações. Se o desdobrar dos acontecimentos exigir que seus pais tomem conhecimento de tudo, delegue essa incumbência à sua irmã. Não perca suas esperanças, confie em Deus e faça sua parte. Escreva quando puder, quero acompanhar essa novela de perto. Beijos da tia Helena e recomendações às meninas. Ver outros colunistas...                                             Ir para página principal...

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