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A mágoa e os aborrecimentos

wellington balbo

Rafael palestrava em respeitável instituição religiosa. O tema do assunto abordado era ainda os aborrecimentos e as mágoas que muitos carregam a carcomer o coração.
Como gostava de interagir com o público, convidou algumas pessoas da platéia para escrever no quadro o que mais as aborreciam.
As respostas foram dadas nesta ordem:
Primeiro - Infidelidade
Segundo - Ingratidão
Terceiro - Corrupção
Quarto - Falta de pontualidade
Quinto - Os próprios maus pensamentos que teimam em permanecer.
Por isso, raciocinemos em torno das respostas que as pessoas deram aos fatos que mais as aborreciam. Como podemos ver, a maioria deles não reside nelas próprias, mas sim, nos outros. E se a questão não tem morada em nosso comportamento certamente não depende mais de nós, então, raciocinando friamente, perguntamos: como podemos nos aborrecer com comportamentos que não nos pertencem?
Há medidas que podemos adotar para equacionar essas questões, e nos livrar desses fantasmas íntimos que muitas vezes nos fazem perder até o sono.
Diante da infidelidade - ao saber do acontecido, natural o aborrecimento, todavia, muito melhor adotar a postura do diálogo para saber as razões da infidelidade do cônjuge do que se trancar em um mutismo infrutífero, ou descambar para a violência verbal e física, que fatalmente acarretará cada vez mais o afastamento um do outro. O segredo está em colocar as “cartas na mesa”, e se ainda houver a possibilidade de reconciliação, buscá-la de maneira sincera, dialogando para saber os motivos que o levaram a infidelidade, revendo conceitos e procurando alternativas para que a relação possa se restabelecer em bases de confiança e apoio mútuo. Se for constatada a falência do relacionamento, o melhor a fazer é procurar seguir adiante, sem alimentar mágoas e idéias negativas referentes ao antigo companheiro, porque estas apenas nos encarcerarão nos porões da mágoa, nos impedindo inclusive de iniciar novos relacionamentos.
Diante da ingratidão - só se aborrece diante da ingratidão quem faz pensando em receber algo em troca, seja agradecimentos, elogios, gratidão, ou mesmo bens materiais. A vida através de suas leis perfeitas, como a de ação e reação, se encarrega de nos premiar quando fazemos ou não o Bem à alguém ou a nós mesmos, estejamos certos disso, façamos a parte que nos compete e sigamos em frente, sem esperar elogios e agradecimentos de quem quer que seja, porque assim iremos além de treinar a caridade desinteressada, nos livraremos de constrangimentos que em nada nos auxiliam.
Diante da corrupção - ora, aquele que lesa alguém, a sociedade, seu país, sua família, o meio ambiente ou a instituição profissional ou religiosa a que está vinculado, grava na própria consciência faltas que terá de reparar mais cedo ou mais tarde perante a vida, portanto, inútil nos aborrecermos com a corrupção dos outros, o que de forma alguma quer dizer que temos de ser passivos e aceitar. A manifestação deve existir, contudo, deve ser baseada na ordem e na disciplina, para que não haja transtornos onde a violência e a balburdia tomam equivocadamente o nome de luta pelos direitos.
Diante da falta de pontualidade - é também a mesma questão: como podemos nos aborrecer por atitudes e comportamentos que não são nossos? Se assim o fazemos, corremos sério risco de estragar nosso dia com situações que são perfeitamente contornáveis.
Diante dos próprios maus pensamentos - sim, neste quinto item a pessoa tocou no cerne da questão. Ora, os maus pensamentos, estes sim são nossos frutos, por isso devem merecer grande atenção de nossa parte, porquanto é na casa mental, morada do pensamento, onde começa a ser escrito o futuro. Todavia, cabe-nos utilizar esse aborrecimento com os maus pensamentos para um fim útil, começando a modificar o que nos aborrece, ou seja, trocando os maus pensamentos por pensamentos e atitudes voltadas ao Bem. O que convenhamos: é pura questão de treinamento e comprometimento com um ideal que elegemos.
Então veja o caro leitor - os fatos da vida, na maioria das vezes são mais subjetivos do que objetivos, convidando-nos a adotar uma postura, deixando-nos sempre o caminho a escolher. Nada de respostas prontas, mas sim de questões para resolvermos, porque é justamente na escolha que faremos que está embutido a maneira com que nos relacionaremos com o mundo exterior e interior.
Quando surge a doença inexorável - Um caminho é se entregar, revoltando-se, mal dizendo a vida, perdendo-se em lamentações... O outro caminho é lutar, enfrentar com coragem e procurar as razões de estar frente a frente com a enfermidade, pode ser que nessa procura encontre-se o motivo, e mais forças ainda para se restabelecer.
Quando há problemas de relacionamento familiar - um caminho é ignorar, desprezar, se afastar, ou mesmo gastar tempo com picuinhas que não levam a nada. O outro caminho é vasculhar no íntimo para ver se as razões dos desentendimentos não têm morada em nossa intransigência.
São as opções que a vida nos dá, veja o amigo leitor que não há respostas prontas, o caminho a ser traçado depende de nós, da maneira com que enxergamos o mundo que nos rodeia, se procuramos motivos, razões para nos aborrecer, certamente encontraremos, todavia, se optamos pelo caminho do auto descobrimento e deixamos de depositar nossos fantasmas íntimos no semelhante ao nos aborrecermos com querelas que em realidade não nos pertencem, descobriremos também um outro caminho de navegar no oceano existencial.
E então, qual caminho você escolhe?


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WELLINGTON BALBO é articulista espírita.


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