www.jornaldosespíritos.com

 
 

OPÇÃO sexual?

Resposta à leitora sobre o Espiritismo e o transexualismo

KÁTIA PENTEADO

Lemos em 11 de junho 2007 no Jornal dos Espíritos: “Parada do Orgulho Gay bate recorde de participantes. A doutrina espírita não tem nenhum tipo de preconceito, seja quanto à opção sexual ou qualquer outro tipo de discriminação" -  http://www.jornaldosespiritos.com/2007.3/col40.1.htm. Surgiram dúvidas (talvez, também, de outros leitores) que gostaríamos de ver sanadas. O que se entende por “opção sexual”? É um conceito oriundo da pressão política de grupos bem organizados, costumes,  ou é realmente um conceito médico-científico? Ao discutir preconceito, não podemos esquecer que também existem os conceitos e o Jornal expressando-se desta forma (politicamente correta ou científica?) não está correndo o risco de confundir ao misturar convicções transexuais com ilusões psicóticas? Pode-se admitir que o transexualismo é uma anomalia da identidade sexual, dizendo que o indivíduo se identifica como pertencente ao sexo oposto e experimenta grande frustração ao tentar se expressar através do contexto do seu sexo genético? O transexualismo seria uma forma não-específica de psicopatologia, porque mesmo não sendo psicose, apresenta as duas fases características da psicose, ou seja, saída da realidade (do próprio sexo) e criação de uma nova realidade (troca do sexo corporal e do papel sexual?). Agradeço desde já a atenção. Atenciosamente, Aurélia.

Cara Aurélia,
A Doutrina Espírita, por princípio, é uma doutrina libertadora, que coloca a evolução e o progresso contínuo e permanente como base para todos os seres, indistintamente.  A Doutrina é libertadora por dar a cada um o direito de agir segundo sua vontade e livre-arbítrio, mostrando a responsabilidade de cada um no encaminhamento da própria existência, e que lá na frente, quando formos espíritos puros, tudo que nos aconteceu, inclusive de mau, terá se transformado em bem, em amor, funcionando como base para a construção e o fortalecimento de virtudes tais como tolerância, compreensão, respeito, paciência, entre tantas outras.
Por isso, quando se fala em exercício de sexualidade, entre vários outros assuntos tidos como polêmicos e delicados, a Doutrina mostra as conseqüências de nossos atos, mas nos permite (e isso é fundamental) a ação de acordo com nossos atavismos, automatismos, viciações, remorsos e desejos de seres ainda pertencentes ao grupo de Espíritos imperfeitos vivendo em um mundo de expiação e provas, mas que a cada dia dão mais um passo rumo à perfeição possível.
Tentando responder suas inquietações, é bom sempre entendermos que a Doutrina Espírita interage com a sociedade e por isso faz uso da terminologia usual.  Opção sexual é uma expressão comum, apesar de não precisa, pois quando se fala em opção temos a impressão da escolha e aí deixamos de lado nosso passado, que nos leva a sermos hoje aquilo que expressamos.  Essa expressão tem origem na crença de que todos os não-heterossexuais "optaram" por uma sexualidade diferente.  O tempo passa, o mundo muda, as posições se alteram – e sem mudança não há evolução, nem espiritual nem do entendimento. Atualmente, apesar de ainda ser utilizada, a expressão não é mais aceita pelo movimento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transexuais) e muito menos pela ciência, visto que a própria ciência não chega a uma conclusão sobre o que motiva alguém a ter um comportamento "diferente" do da "maioria", que é heterossexual – mas como colocarei abaixo, a Doutrina explica e esclarece.
Hoje, há várias expressões outras além da “opção sexual”.  Entre as mais aceitas pelo grupo GLBT, a terminologia “politicamente correta” para se referir ao comportamento sexual de alguém, está "orientação sexual", pois os militantes desse grupo e alguns cientistas partem do princípio de que há uma orientação interior determinando o comportamento sexual do indivíduo. Também é utilizada a expressão "diversidade sexual", especificamente para falar de todas as orientações sexuais, incluindo a diversidade existente no próprio grupo heterossexual (pedofilia, sadomasoquismo etc.).  Mais explicações sobre esses assuntos e terminologias utilizados você consegue no NEPS (http://www.neps.org.br/) ou no CLAM (http://www.clam.org.br/).
Sendo assim, sobre a terminologia, considero já termos chegado a um acordo.  Vamos, então, cara Aurélia, ao ponto que considero central de sua questão: a transexualidade, suas “conseqüências” e o entendimento da Doutrina Espírita sobre esse assunto.
Como disse no início, a Doutrina Espírita é libertadora e não tolhe a liberdade de ser algum, apenas – e tão somente – mostra as conseqüências e a responsabilidade de cada um em ações, pensamentos, desejos, vontades e sonhos.  Sendo assim, a Doutrina não coíbe o exercício sexual, aliás, fala sobre sua importância para o cumprimento de uma das leis divinas morais, a Lei da Reprodução.
Então, a questão não é o exercício da sexualidade, mas a forma como a exercitamos, que está vinculada ao nosso passado, às nossas viciações, atavismos e tudo aquilo que já citei.
Para a Doutrina Espírita, a forma como exercitamos a nossa sexualidade – e aqui especificamente a homo, a bi, a trans e até algumas diversidades da heterossexualidade – está vinculada a uma inadequação do Espírito ao corpo físico que ele se utiliza na vida de relação na presente encarnação, que é o mais adequado ao programa reencarnatório preparado para desenvolver, o que não significa sua concretização (tenhamos claro que o Espírito corresponde ao ser pensante, aquele que é e que em essência não tem sexo como o entendemos, como explicitado em "O Livro dos Espíritos" em capítulo específico sobre "Sexo nos Espíritos").
Sendo assim, tentando ser didática e pouco técnica, vamos exemplificar. Um Espírito com algumas coisas a resolver consigo mesmo e com seus próximos, pode fazer isso nascendo com um corpo físico do sexo masculino, após durante várias encarnações ter "habitado" um corpo feminino e utilizado o sexo do seu corpo físico para vantagens, conquistas, negociações, viciações etc. Ao nascer em um corpo masculino, sentir-se-á inadequado ao corpo físico, apesar de todo o preparo que teve para isso, pois há os atavismos etc., e tenderá a ter uma expressão mais feminina do que masculina.  De acordo com o “tamanho” da inadequação, ele terá muita dificuldade em exercitar sexualmente o sexo de seu corpo físico, e tenderá à homossexualidade. Ou seja, o Espírito, apegado a seu passado, orienta o exercício sexual do corpo físico e para isso pode até chegar a “mudar” de sexo (transexualidade). Por aí fica fácil entender a relação do Espiritismo com a sociedade, pois facilmente entendemos o que dizem os membros do grupo GLBT sobre “orientação sexual”.  Isso vale para homens e mulheres.
A Doutrina Espírita não incentiva esses comportamentos, mas compreende a problemática e procura disponibilizar informações e “terapias”, como a fluidoterapia ou passes, para ajudar o Espírito em sua adequação e aceitação do corpo pelo qual está responsável, mas não proíbe o exercício da homo, da bi, da transexualidade, apenas orienta que o exercício da sexualidade condizente com o corpo físico é uma fase importante no processo evolutivo. Ou seja, é possível sentir-se inadequado ao corpo e exercitar a sexualidade condizente com o corpo que utiliza na presente encarnação.
Essa Doutrina que abraçamos nos mostra a importância da compreensão e, vendo em Jesus o mestre, o amigo, o irmão mais velho, e em Deus, o Pai misericordioso que provê a todos as oportunidades de evolução necessárias, prega a compreensão do outro, e por isso não compactua com preconceitos de quaisquer tipos.
Sobre a transexualidade ser uma “anomalia da identidade sexual” como você coloca em seu questionamento, eu te pergunto: e o sadomasoquismo, mesmo entre heterossexuais, ou a pedofilia não seriam também “anomalias”?  Para a Doutrina, não são anomalias, mais inadequações, viciações passadas, atavismos etc. Vou mais além, se vivemos no mundo adequado ao nosso processo evolutivo será que estamos imunes aos problemas, “tentações”, vícios desse mundo?  Será que podemos nos colocar de alguma forma além dos problemas que afetam os outros seres humanos e nos acharmos inatingíveis e superiores?  Como agiríamos na mesma condição em que essas pessoas se encontram?
Particularmente, considero temerário – e me fundamento na Doutrina Espírita para isso – utilizar terminologias como “ilusões psicóticas” ou “psicopatologias”, inclusive porque não sou profissional da Psicologia para emitir diagnóstico nem posso generalizar os casos e me utilizar do senso comum, o que seria caminhar na mão contrária a toda a Doutrina Espírita (que apregoa a fé raciocinada e portanto não compactua com o senso comum) e, principalmente, aos ensinamentos de Jesus.  Temos de entender todas essas posturas como parte de um processo evolutivo complexo, que não dominamos ainda, e que lá na frente esses comportamentos nos mostrarão que tudo se transforma em aprendizado.  Cada um escolhe seus caminhos evolutivos, às vezes atravancando o próprio desenvolvimento, mas ao final, todos serão tão perfeitos quando possível.  Essa é a verdade. 
Buscando não ser repetitiva, indico a você duas obras para sua leitura e reflexão. Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, enfoca com primor esse assunto no livro “Sexo e Destino”.  Manoel Philomeno de Miranda, psicografado por Divaldo Pereira Franco, na obra “Sexo e Obsessão” também trata do assunto e explica, inclusive, o porquê da valorização desses comportamentos homo, bi, trans e tantos outros. Vale a leitura, que com certeza te levará a outros questionamentos, sempre com a meta de romper com preconceitos e com pré-conceitos, buscando a prática da alteridade.


Relação de artigos de Kátia Penteado...

Ver outros colunistas...                                             Ir para página principal...

Katia Penteado é jornalista profissional, especializada em jornalismo empresarial e comunicação corporativa, expositora e articulista da Doutrina Espírita.


Jornal dos Espíritos
- o seu jornal espírita na internet
 Copyright 2005 - Todos os direitos reservados.
 redacao@jornaldosespiritos.com
Microsoft Internet Explorer - 6.0 - Resolução: 800 x 600