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Nestes dias que se
aproximam, o país é tomado como que por uma febre de diversão, com o
amplo exercício da liberdade (ou será libertinagem?), dando a
impressão de que tudo é permitido a todos (e aqui é tudo mesmo!) e
que em quatro dias (sendo modesta, pois há lugares em que o carnaval
começa logo após as festividades de final de ano) é possível fazer
tudo o que não foi feito nos outros 361 dias do ano. O motivo para
não ter feito, é aqui irrelevante, mas passa, naturalmente, pelos
padrões de bom comportamento impostos pela sociedade e pelo medo de
receber adjetivos pouco elogiosos, dando a impressão de que o
carnaval desculpa todo o qualquer comportamento. Mas será que o
carnaval é isso mesmo?
A festividade tem origem lá na Antigüidade, com as festas a Dionísio
e Baco (mitologia grega e romana, respectivamente), chamadas de
festas dionisíacas, na Grécia, e bacanais, saturnais e lupercais, em
Roma, que, na verdade, sem laivo algum de puritanismo, eram orgias.
Dionísio era o deus grego do vinho e da embriaguez, da colheita e da
fertilidade. Festas semelhantes também estão presentes em várias
culturas, como na dos celtas, que realizavam eventos em homenagem a
grande Deusa, quando festejavam a fecundidade, em todos os sentidos.
Então, como vemos, o objetivo da festa continua o mesmo, se levarmos
em conta que muitas pessoas, como diz a música, se guardam “até o
carnaval chegar” para tirar a barriga da miséria e sentirem-se
liberadas para fazer tudo o que desejar... Por isso, o carnaval é
tão condenado pelas religiões...
Com base nisso, como espíritas, pode-se dizer que é proibida a nossa
participação no carnaval? Pode-se aconselhar essa participação?
Pode o espírita participar das festas? Será possível alguém
participar das festas e não fazer nada além do que faz sempre?
Buscando a Codificação, não encontramos nada específico sobre o
tema, mas a doutrina nos fala sobre a necessidade de evolução, e
evoluir é buscar cada vez mais os bens espirituais... Com base
nisso, se queremos o céu, devemos nos afastar da terra, se queremos
as virtudes devemos buscá-las em vez de fortalecer a matéria.
Paulo de Tarso escreve na primeira epístola aos Corinthios 6:12:
Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. Tudo me é permitido,
mas eu não deixarei que nada me domine!
Qual será o principal recado de Paulo nesta mensagem? Qual a relação
disso com o Espiritismo? A resposta: Que somos livres para dirigir
nossas vidas, mas que não podemos esquecer que somos responsáveis
quando infringirmos a Lei Divina. Devemos procurar o autodomínio e
a expansão do sentimento de amor, descartando os objetivos ilusórios
que prejudicam nossa evolução.
Com base nisso, vamos refazer a pergunta: Pode o espírita participar
do carnaval, assistir a desfiles, ao vivo ou pela TV, desfilar por
alguma escola de samba ou bloco?
E mais uma vez vamos usar Paulo de Tarso como base. Ainda na
epístola aos Corinthios, em 7:9, ele diz:"Mas se não conseguem
controlar-se (permanecer casto), devem casar-se, pois é melhor
casar-se do que ficar ardendo de desejo".
Ora, isso dispensa explicações e vale para tudo! O pensamento,
sabemos, é força criadora, plasmando as imagens que criamos. De que
adianta ficarmos sofrendo de vontade de participar de algo,
elocubrando, criando imagens e para nos mostrarmos puros, evoluídos
e sérios nos isolarmos da festa, mas não pararmos de pensar nela?
Como está em "O Livro dos Espíritos", questões de 456 a 472, os
espíritos sentem e vêem tudo o que fazemos e dirige a atenção para o
que lhe interessa. Então, entendemos que podemos enganar
encarnados, não desencarnados, mas também sabemos que enganamos os
encarnados bem entre aspas, pois os encarnados mais sensíveis e
atentos percebem quando estão sendo ludibriados ou quando alguém
busca parecer o que não é!
Em "O Livro dos Espíritos, questão 459", é dito que somos muito
mais influenciados do que supomos e atraímos essa influenciação
pelos nossos desejos, afinidades e ações.
Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", no capítulo 2, item 5, está
escrito: quando concentramos nossos pensamentos na vida terrena, nos
entregamos voluntariamente a uma verdadeira tortura e tudo se
agiganta.
Pedro de Camargo, vulgo Vinícius, na obra "Em torno do mestre",
escreve em texto intitulado "Tentações", em que diz que o corpo
dirigido pelo Espírito, “destrói-se a si mesmo através das sensações
e exaltações a que se submete”.
Jesus nos disse: Aquele que muito quer gozar a vida, perdê-la-á e o
que renunciar à vida por amor a mim, ganhá-la-á (Lucas, 9:24).
Disse também: onde está seu pensamento,está o seu coração (Mateus
6:21).
Ou seja, se nossa atenção está centrada no carnaval, seremos
influenciados para viver o carnaval. A intensidade da influenciação
vai depender de nossos pensamentos, de nossa vibração, do que
gostaríamos de estar fazendo, de nossa sintonia. Se nos
sintonizamos com o que há de mais elevado, recebemos a influenciação
correspondente, e o mesmo acontece quando vibramos em faixas menos
nobres. Pode-se participar dos festejos e não praticar excessos?
Claro que pode, depende da intenção, da força de vontade, dos
objetivos, ou seja, daquilo que nos move. E será que sempre sabemos
o que nos move?
Vinícius pergunta em seu texto: Como dominar a carne? E responde:
“Vence-se a carne não lhe concedendo tanta atenção, não atendendo
aos seus arrastamentos e caprichos; fortificando o Espírito com a
verdade eterna revelada por Jesus. Fortalecer ao máximo o Espírito,
dando ao corpo o necessário para a sua conservação é a chave. Sob a
direção do Espírito, o corpo se embeleza, fica forte e alcança
longevidade acentuada”.
Frente a tudo isso, voltamos ao nosso questionamento: O que fazer
com o carnaval?
Estamos no mundo material para viver a vida que se nos apresenta,
com a certeza de que nosso livre-arbítrio constrói o nosso futuro e
que nosso pensamento atrai nossas companhias e por isso somos por
ele responsáveis. Quanto mais nos depuramos, mais nos fortalecemos e
menos acessíveis somos aos prazeres materiais e às paixões, que,
como está ressaltado em "O Livro dos Espíritos", questão 908, “são
como um corcel, que só tem utilidade quando governado e que se torna
perigoso desde que passe a governar. Uma paixão se torna perigosa a
partir do momento em que deixais de poder governá-la e que dá em
resultado um prejuízo qualquer para vós mesmos, ou para outrem.”
Então, meus caros, carnaval: sim ou não? A decisão é individual,
mas a responsabilidade também. Os riscos são de todos conhecidos,
mas para avivar a memória, sugiro a leitura de textos do médico
Américo Canhoto (http://www.jornaldosespiritos.com/2007.2/col43.15.htm)
publicados neste jornal eletrônico e que fala muito bem de tudo
isso. 
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