|
Inesperada Intercessão - Resumo do 8° capítulo
de "Libertação", autoria do Espírito André Luiz,
psicografia de Francisco Cândido Xavier:
"A sala em que fomos recebidos pelo sacerdote Gregório
semelhava-se à estranho santuário, cuja luz interior se
alimentava de tochas ardentes.
(...)
Quem seria Gregório naquele recinto? Um chefe tirânico
ou um ídolo vivo, saturado de misterioso poder?
(...)
Compreendi que cogitaríamos de grave assunto e fitei
nosso orientador para copiar-lhe os movimentos.
Gúbio, seguido por Elói e por mim, a reduzida distância,
acercou-se do anfitrião que o contemplava de fisionomia
rude, passando de minha parte a espreitar o esforço de
nosso instrutor para contornar os obstáculos do momento,
de modo a não classificar-se por mentiroso, à face da
própria consciência.
Cumprimentou-o Gregório, exibindo fingida complacência,
e falou:
- Lembra-te de que sou juiz, mandatário do governo forte
aqui estabelecido. Não deves pois, faltar à verdade.
Decorrida pequena pausa, acrescentou:
- Em nosso primeiro encontro, enunciaste um nome...
- Sim - respondeu Gúbio, sereno - o de uma benfeitora.
- Repete-o! - ordenou o sacerdote, imperativo.
- Matilde.
(...)
- Que tem de comum comigo semelhante criatura?
Nosso orientador redargüiu, sem afetação:
- Asseverou-nos querer-te com desvelado amor materno.
- Evidente engano! - aduziu Gregório, ferino - minha mãe
separou-se de mim, há alguns séculos. Ao demais, ainda
que me interessasse tal reencontro, estamos
fundamentalmente divorciados um do outro. Ela serve ao
Cordeiro, eu sirvo aos Dragões (1).
Aquela particularidade da palestra bastava para que
minha curiosidade explodisse, indômita. Quem seriam os
Dragões a quem se reportava? gênios satânicos da lenda
de todos os tempos? Espíritos caídos no caminho
evolucionário, de inteligência voltada contra os
princípios salutares e redentores do Cristo, que todos
veneramos na condição do Cordeiro de Deus? Sem dúvida,
não me equivocava; no entanto, Gúbio lançou-me
significativo olhar, certamente depois de sondar-me em
silêncio, a perquirição íntima, convidando-me, sem
palavras, a selar os lábios entreabertos de assombro.
Indiscutivelmente, aquele instante não comportava a
conversação dum aprendiz e devia destinar-se às
manifestações conscientes e seguras de um mestre.
- Respeitável sacerdote - obtemperou nosso orientador,
com grande surpresa para mim - , não te posso discutir
os motivos pessoais. Sei que há uma ordem absoluta na
Criação e não ignoro que cada Espírito é um mundo
diferente que cada consciência tem a sua rota.
- Criticas, porventura, os Dragões, que se incumbem da
Justiça? - perguntou Gregório duramente.
- Quem sou eu para julgar? - comentou Gúbio, com
simplicidade - não passo dum servidor na escola da vida.
- Sem eles - prosseguiu o hierofante, algo colérico -,
que seria da conservação da Terra? como poderia operar o
amor que salva, sem a justiça que corrige? Os Grandes
Juízes são temidos e condenados; entretanto, suportam os
resíduos humanos, convivem com as nojentas chagas do
planeta, lidam com os crimes do mundo, convertem-se em
carcereiros dos perversos e dos vis.
E à maneira de pessoa culpada, que estima longas
justificações, continuou, irritadiço:
- Os filhos do Cordeiro poderão ajudar e resgatar a
muitos. No entanto, milhões de criaturas (2), como
sucede a mim mesmo, não pedem auxílio nem liberação.
Afirma-se que não passamos de transviados morais. Seja.
Seremos, então, criminosos, vigiando-nos uns aos outros.
A Terra pertence-nos, porque, dentro dela, a animalidade
domina, oferecendo-nos clima ideal. Não tenho, por minha
vez, qualquer noção de Céu. Acredito seja uma corte de
eleitos, mas o mundo visível para nós constitui extenso
reino de condenados. No corpo físico, caímos na rede de
circunstâncias fatais; contudo, a teia que os planos
inferiores nos preparam servirá à milhões. Se o nosso
destino é joeirar o trigo do mundo, nossa peneira não se
fará complacente. Experimentados que somos na queda,
provaremos todos os que nos surgirem no caminho. Ordenam
os Grandes Juízes que guardemos as portas. Temos, por
isso, servidores em todas as direções. Subordinam-se-nos
todos os homens e mulheres afastados da evolução
regular, e é forçoso reconhecer que semelhantes
individualidades se contam por milhões. Além disso, os
tribunais terrestres são insuficientes para a
identificação de todos os delitos que se processam entre
as criaturas. Nós, sim, é que somos os olhos da sombra,
pra os quais os menores dramas ocultos não passam
despercebidos.
Ante o intervalo que se fizera, contemplei o rosto de
Gúbio, que não apresentava qualquer alteração.
Fitando Gregório, com humildade, considerou:
- Grande sacerdote, eu sei que o Senhor Supremo nos
aproveita em sua obra divina, segundo as nossas
tendências e possibilidades de satisfazer-lhe os
desígnios.(...) Respeito, assim, o teu poder, porque se
a Sabedoria Celeste conhece a existência das folhas
tenras das árvores, sabe também a razão de teu extenso
domínio; entretanto, não concordas em que a nossa
interferência prevalece sobre a fatalidade, círculo
fechado de circunstâncias que nós mesmos
criamos? (...)Todavia, respeitável Gregório, não admites
que o amor, instalado nos corações, redimiria todos os
pecados? (...) Se gastássemos nos cometimentos divinos do
Cordeiro as mesmas energias que se despendem a serviço
dos Dragões, não alcançaríamos, mais apressadamente, os
objetivos do supremo triunfo?
O sacerdote ouviu, contrariado, e clamou com
desagradável inflexão de voz:
- Como pude escutar-te, calado, tanto tempo? somos aqui
julgadores na morte de todos aqueles que malbarataram os
tesouros da vida. Como inocular amor em corações
enregelados? (...)
Gúbio, porém, não se perturbou.
Com simplicidade, tornou a considerar:
- Ouso lembrar, todavia, que, se nos lançássemos todos a
socorrer os miseráveis, a miséria se extinguiria; se
educássemos os ignorantes, a treva não teria razão de
ser; se amparássemos os delinqüentes, oferecendo-lhes
estímulos à luta regenerativa, o crime seria varrido da
face da Terra.
(...)
- Não desconheces que Matilde possui na tua companheira
de outras eras uma pupila muito amada do coração. As
preces dessa torturada filha espiritual atingem-lhe a
alma abnegada e luminosa. (...) Nossa alma, por mais
impassível, modifica-se com as horas. O tempo tudo
devasta e nos subtrai todos os patrimônios da
inferioridade para que a obra de aperfeiçoamento
permaneça.(...)
- Quem lavra sentenças, despreza a renúncia. Entre os que
defendem a ordem, o perdão é desconhecido. (...)
Demonstrando expressão de surpresa, em face da
imprevista solicitação de adiamento, quando nós mesmos,
esperávamos que o orientador se impusesse, reclamando
revogação definitiva, Gregório considerou, menos
contundente:
- Tenho necessidade do alimento psíquico que só a mente
de Margarida me pode proporcionar.
(...)
(1) Espíritos caídos no mal, desde eras primevas da
Criação Planetária, e que operam em zonas inferiores da
vida, personificando líderes de rebelião, ódio, vaidade
e egoísmo; não são, todavia, demônios eternos, porque
individualmente se transformam para o bem, no curso dos
séculos, qual acontece aos próprios homens. - Nota do
autor espiritual.
(2) Não devemos esquecer que a argumentação
procede de um Espírito poderoso nos raciocínios e que
ainda não aceitou a iluminação do Cristo, idêntico,
pois, a muitos homens representativos do mundo,
obcecados pelos desvarios da inteligência. - Nota do
autor espiritual. |