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Este artigo é dedicado, principalmente, às pessoas que ainda
conseguem dormir. E aos pais das crianças que não dormem bem desde
que elas nasceram (é a sinalização de que serão futuros insones).
Pois: em prevenir, está a sabedoria.
Onde a modernidade nos levou! Tudo que levamos como espécie milhares
de anos conquistando, automatizando passo a passo, desaprendemos em
pouco tempo. E vamos precisar reaprender para poder continuar a
viver com qualidade e até para sobreviver na pós-modernidade. Parece
piada, mas vamos ter que reaprender a dormir, a respirar, a comer,
até a evacuar. Aí que saudade daquele sono bom, natural, relaxante,
renovador. Nosso bate papo é sobre sono, vigília, insônia e
qualidade do sono; pois não se trata mais de apenas de conseguir
dormir ou não; o padrão do sono é essencial, não apenas para a
qualidade de vida das pessoas - na atualidade, pode representar a
linha entre viver e morrer. Esse assunto parece bem explorado.
Parece até que já foi esgotado segundo a ciência: nada ou pouco mais
a ser dito. Teorias e estudos bem conclusivos; é claro que podem ser
úteis, mesmo que feitos por pessoas que nunca tenham vivenciado a
situação do estudo, em foco; pois apenas leram, estudaram, ouviram
falar, usaram experiências de outros com problemas e dificuldades
que nunca viveram - até dissecaram ratos de laboratório, macacos e
outros bichos; lógico que tudo isso, é útil. No entanto, nos estudos
de laboratório é impossível ouvir a opinião das cobaias; os
cientistas deduzem tudo por tabela. Quando o experimento é gente
como eu e você, aí a coisa muda de figura, pois no estilo científico
moderno a preocupação está em descobrir alguma solução que possa ser
comercializada, geralmente não há muito interesse por coisas
subjetivas, essencialmente humanas.
Para insones de carteirinha a idéia de escrever sobre o assunto nos
momentos de insônia não deixa de ser um paradoxo e um desafio, pois
o assunto é tão interessante que deixa nossa mente mais acesa ainda.
Com base em nossa experiência de vida nos atrevemos a levar este
bate-papo sobre sono e a falta dele com os leitores, na condição de
cobaias (pode virar nome de filme: “a revolta das cobaias dos
soníferos”). Afinal não seremos cobaias trocando experiências. Quem
sabe criamos uma sala de bate papo na Net sobre receitas para dormir
bem. Embora muito se diga sobre insônia pouco se encontra sobre a
análise subjetiva e humana de fato, dos que dormem mal ou não
conseguem dormir, os relatos são de técnicos e de máquinas. A
vantagem de bate papos como este é que, nada como alguém experiente
num determinado assunto, para falar sobre ele. Quem o viveu ou ainda
o vive no dia a dia, na própria pele, ou na convivência diária com
aqueles que não conseguem dormir bem, marido, esposa, filhos, pais,
irmãos, amigos..., pode ensinar aos que até há pouco dormiam como
anjinhos.
Os motivos são os mais variados. Vamos tentar brincar de discutir
alguns deles com gozação, pois o primeiro passo para tentar resolver
esse problema, é enfrentá-lo com bom humor. Hoje, acho que não durmo
bem. As sensações ao acordar não são de boa qualidade: acordar
alegre e feliz, uma leve espreguiçada e, todos os músculos respondem
com flexibilidade. Um banho caprichado e, que venham os desafios de
um novo dia... Isso, é coisa do passado a ser resgatado, sei disso.
Lembro com muita saudade do sono na minha infância, tirando os medos
de dormir só e, os pesadelos. Dormir e depois acordar era muito bom,
uma delícia, uma vida de prazerosos desafios. Tive uma infância
privilegiada (em se tratando de dormir e acordar de forma natural)
sem entretenimentos eletrônicos. A liberação de adrenalina e outros
hormônios, era controlada com naturalidade. Dormia com as galinhas e
acordava com os galos: não havia energia elétrica, nem TV, som,
baladas; filmes e seriados só aos domingos na matinê do único cinema
da cidade. Hora de trocar revistas e gibis. O máximo de lazer que
gerava mais adrenalina e outros hormônios não “queimados” de pronto
com o exercício físico, eram os festejos da época: circos e
parquinhos lá de vez em quando, festas juninas, quermesses..., para
tirar a naturalidade de dormir ao início da escuridão da noite e
acordar ao raiar do sol. Sei lá quando desaprendi de dormir. Nem me
lembro mais. Parece que faz tanto tempo. Perceberam a lei de
polaridade – dia, claridade – noite, escuridão? O fluxo da vida é
polar, começando por ela mesma segundo a compreendemos. Vida e
morte, morte e vida. Criação e destruição. Caos e organização. Fluir
e refluir. Respirar ou inspirar e expirar. Comer e evacuar. Beber e
urinar. Pensar e sentir. Agir e esperar. Acordar e dormir. Neste
bate papo estamos falando da polaridade vigília e sono. Daí, vamos
conversar sobre dormir demais e de menos, até que um dia encontremos
a receita de dormir o tempo certo, então, este é um bate-papo em
aberto. Para muitos, dormir e acordar é o caos, um bicho de sete
cabeças a ser morto, destroçado. Cremos que não; é apenas um desafio
a ser superado com bom humor. Afinal, levamos um tempo incalculável
como criaturas para conseguir o privilégio de manobrar o caos. Entre
dormir e acordar, a capacidade de sonhar parece ser uma conquista
humana. Uns sonham outros pesadelam. Como primeira questão da nossa
brincadeira fica a pergunta:
Durmo de mais ou durmo de menos?
Nossos insones colegas cientistas tentam nos padronizar até para
dormir (uma pessoa normal tem que dormir tantas horas por dia...).
Então, outra de nossas brincadeiras neste bate papo será fugir dos
padrões da necessidade de horas de sono. Para começar a diversão,
vejamos alguns tipos da fauna humana de sonolentos e de insones:
Os gananciosos querem dormir apenas uma hora para não perder tempo e
dinheiro.
Os pouco corajosos e os lentos no pensar querem dormir vinte e
quatro horas ou mais para não precisar enfrentar o dia a dia.
Os maridos “bons de cama” e as esposas entediadas fingem dormir para
não ter que fazer amor.
Os ansiosos querem dormir e acordar ao mesmo tempo.
Os cansados de viver querem dormir para sempre.
Os insatisfeitos tentam não dormir para fugir da rotina.
Os endividados até o pescoço querem dormir para sempre para não
precisar pagar as contas.
A mulher do roncador quer dormir sempre primeiro para escapar da
poluição sonora etc.
Perguntas que ficam no ar: quais as razões? que motivos que
originaram esse problema? que coisas deturparam o que antes era
natural e fisiológico?
Uma das várias possibilidades de explicação: Entramos de cabeça na
armadilha intelectual, pois, a sociedade neurótica, paranóica
contemporânea criou o homem “massa” ou o ser consumidor disto ou
daquilo, das verdades ou das mentiras do que é certo ou errado, bom
ou ruim..., de forma tão intensa que perdemos a noção de quem somos
e o que fazemos aqui.
Primeira meia hora de reflexão do bate papo
O pior é que os mais instruídos caíram feito patos nas armadilhas
dos conceitos sócio-culturais da atualidade:
Fulano de tal é um vencedor, trabalha muitas horas a mais por dia
para manter um alto padrão de vida. Tem tudo que o dinheiro pode
comprar. Beltrano é um sabichão que domina determinado ramo do
saber. É o maioral em se tratando de... A fulana de tal é cheia de
estonteantes curvas. Quem for capaz de fazer amor com ela é o deus
do Olimpo. O “zé sem nome de grife” tem um cotidiano que é a mesmice
de sempre - acorda quase sempre cansado, sem vontade de ir
trabalhar, tem coceiras só de imaginar que precisa encarar aquelas
malas sem alça do ambiente de trabalho: chefes, colegas,
subordinados ou fornecedores, clientes, etc.
Neste estilo de vida neurótico, enquanto suporta o vencedor, leva
tudo numa boa.
- Vai e mata mil leões por dia que estão à espreita para devorá-lo:
clientes, colegas, chefes, subordinados, fornecedores, cobradores,
família.
- Usa todo seu potencial intelectual e outros; mas, logo que os
domina se chateia, se deprime.
- Ao final do dia ruma para casa na esperança de relaxar, de
encontrar seu porto seguro. Vã esperança, pois logo se depara com
familiares que viveram à sua moda o mesmo dia infernal e trocam
farpas, brigam, arreliam-se...
- Passadas cobranças, exigências e lamúrias de uns para com os
outros - toma seu banho e vai a frente da TV assistir a noticiários
que assustam, revoltam; novelas que despertam todas as suas más
tendências para trair, mentir, usufruir, etc. – depois janta quase
sempre muito mais do que devia e depois ainda faz uma boquinha antes
de dormir. Bom agora é hora de relaxar - e ele se prepara para
assistir a um “filminho” antes de dormir: policial, drama, terror,
suspense - terminado o “lazer’, cumpre sua rotina (na rotina de
alguns está incluída a droga sonífera), tenta dar a ultima
relaxada; isso, se a outra parte não finge que está dormindo ou
roncando de verdade (muitos apelam para a masturbação; que pode
virar hábito, e daí, um grande problema está criado). “Bem agora,
onze horas da noite, meia noite, uma hora, tenho que dormir para
enfrentar um novo dia amanhã”. Encosta a cabeça no travesseiro e
nada... Rola de um lado para o outro e não consegue dormir. Nem por
milagre, esse indivíduo vai conseguir dormir de forma fisiológica,
pois desrespeitou (de forma crônica) uma lei da física que todo
mundo conhece mas, não aplica que é a lei da inércia, relacionada
com aceleração e desaceleração, e, não com brecada súbita de um
desejo sem consistência nem vontade própria, é mais uma coisa de
obrigação que lhe foi imposta. A lei da inércia na vida humana
sempre que é desrespeitada leva a capotagens espetaculares e mortais
na forma de doenças e piripaques. Acorda no dia seguinte (será que
acordou mesmo? Já que nem dormiu) azedo, cansado, irritado, sem
memória, sem capacidade de concentração, tonto, com muitas dores
pelo corpo, com vontade de mandar tudo e todos para aquele lugar,
doente, quase morto, suicida, etc... Será que conhecemos alguém com
essa cara? Este é um assunto para novos bate-papos sem compromisso.
Claro que ficamos a dever a solução – mas, garanto que os que leram
com cuidado já descobriram parte dela. Até. 
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