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“Nós que aqui estamos, vos esperamos”

AMÉRICO CANHOTO

“Nós que aqui estamos, vos esperamos”.
Adoro "bater papo" com essa molecada de hoje; eles até falam sobre os defuntos como quem fala sobre os “ainda vivos”; "numa boa", com muito bom humor; na minha época não era assim não, eu "morria de medo” de cemitérios e defuntos; odiava ir até o “campo santo” embora nunca tenha realmente sido obrigado e, confesso raras vezes vou a cemitérios, talvez por que não seja muito dado a convenções. "Batendo um papo" com um paciente - uma dessas crianças do tipo índigo -, fiquei numa tremenda saia justa com suas perguntas e considerações. Bastou dizer: Bom feriado! E ele já puxou assunto – Tio, o senhor acredita que os mortos estão à nossa espera no cemitério no dia de finados? – Dei uma de político, "enrolei": Quem sabe! Depende! – Mas, ele logo me atravessou; e expôs sua opinião sobre o assunto: eu acho tudo isso meio que uma "besteira"; não inteira, pois é sempre bom ser lembrado; mas, por exemplo, se eu estivesse defunto, não gostaria de flor de cemitério (comprada em liquidação de supermercado, na esquina ou na porta do cemitério); de plástico então eu ia odiar; também não gosto de vela é um "troço fedido", melhor levar então uma lanterna? Nunca entendi muito bem esse negócio de acender vela; não achei nem na net; quando tenho dúvida de alguma coisa vou lá e dou uma "fuçada"; mas essa história da vela, não entendi muito bem; será que os falecidos não enxergam a gente? - O tio, é verdade que lá no cemitério fica um monte de “defunto perdido” que pode se encostar na gente e ir morar lá em casa? O que é “defunto perdido”? Meu tio Zé disse que é morto que não achou o caminho nem do céu nem do inferno; ele disse que é uma pessoa que pode ir tranqüila ao cemitério que nele ninguém encosta, pois só ser for burro de querer ir lá pra casa dele, pois até o diabo morre de medo da Dona Tereza sua sogra. É verdade? Como ele adora me trapacear; eu não engoli muito bem essa história. Enrolei de novo e ele disparou: Tio, o que eles fazem do lado no dia 2 de novembro, lá também é feriado? Tio, e quem foi cremado, para onde vai no dia de finados? Ontem quase fui morto pelo Paulão, meu colega de escola que bate em todo mundo, a gente tava conversando sobre essas coisas e ele disse que a família dele não gosta de cemitério todo mundo é cremado – daí eu quis "bancar o engraçadinho" e disse que com aquela gordura toda eles não são cremados eles são fritados (eles são todos gordos) daí tive que sair correndo. Tio e tem morto que tá vivo? Minha mãe quando está brava diz que meu pai é um morto – É verdade que tá cheio de morto por aí que esqueceram de enterrar? Gosto muito de conversar com você, mas deixa eu ir embora senão minha mãe me mata. – Ah! Vi uma frase legal outro dia na esquina da Rua Cardeal Arcoverde com a Henrique Schauman no muro do cemitério que tem ali, está escrito: “Nós que aqui estamos, vos esperamos” – minha mãe não gostou, mas eu achei muito legal e bem "sacado" – tchau – cuidado pra não morrer no feriado de finados nem na estrada nem com exageros – eu adoro feriado, por isso eu gosto de todos os finados.
O legal nessa molecada é que não são fingidos nem hipócritas como seus pais – não se estressam tanto para viajar - como não dirigem, não ultrapassam os limites de velocidade, não trafegam pelo acostamento nem levam a família desta para a melhor em pleno feriadão de finados...
Não esqueçam seu dia (melhor sua hora) vai chegar...


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Américo Marques Canhoto - Casado, pai de quatro filhos. Nasceu em Castelo de Mação, distrito de Santarém, em Portugal. Médico da família, clinica desde o ano de 1978. Hoje, atende em São Bernardo do Campo e São José do Rio Preto, Estado de São Paulo. Conheceu o Espiritismo em 1988. Recebia pacientes indicados pelo doutor Eduardo Monteiro. Depois descobriu que esse médico era um espírito.


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