Quando Allan Kardec questiona a espiritualidade em "O
Livro dos Espíri-tos" sobre a fatalidade, se ela
existe ou não, a resposta veio curta e de bom entendimento, como
de hábito, na questão 853: “Fatal, no verdadeiro sentido da
palavra, só o instante da morte”. Ou seja, a única realidade
coerente a todos é que um dia teremos de dar adeus a esse
planeta e à nossa matéria física, o corpo.
Vale aqui analisar como nós, espíritas, estamos dando adeus no
momento de nossa partida (tanto quem partiu como quem ficou). A
pergunta é importante, pois se devemos saber viver dentro de um
código moral (de ética e religião), temos mais ainda de saber
morrer.
A questão que se impõe nesse momento é: Tem sido o nosso
comportamento coerente com esse código, já que como espíritas
temos consciência do respeito e cuidados que devemos ao
“invólucro sagrado”, como diria André Luiz e o querido Emmanuel,
e da importância do corpo físico para vivenciar as experiências
terrestres?
O corpo físico é um empréstimo de Deus como tantos outros dons
que ele nos oferta. De onde vem então a dificuldade na hora do
adeus à matéria física, essa ferramenta sagrada que permite à
alma evoluir e aperfeiçoar-se? De onde vem o medo da morte?
Questão talvez de consciência: estar ciente (consciente) dos
próprios erros, das próprias faltas? Ora, se assim é, urge então
modificar o quadro vigente e passar a agir diferente, de outra
forma. Aquela evangélica maneira de ser ensinada por Jesus,
calcada dentro da tolerância e do amor no trato com os demais e
para com a vida.
Ou ter os mesmos sentimentos da viúva de Foulon (O Céu e o
Inferno, 2ª parte – capítulo 2 Espíritos Felizes) que, ao
desencarnar após uma longa vida de sacrifícios e rudes
provações, revelava uma fé inquebrantável no futuro e uma
consciência extrema da nulidade das coisas terrenas.
Recordada pelos amigos pela amenidade do caráter e qualidades
pessoais, partir para ela foi sem sacrifício. Ou como escreve
Kardec: “Também a sua morte foi digna da vida que teve:
desencarnou (...) com a serenidade decorrente de uma consciência
ilibada”.
Assim, uma vez transporto o umbral (limiar, entrada) entre os
dois mundos, eis que a velha carcaça exige seus cuidados finais.
E isso fica por conta de quem ficou: os parentes, ou os amigos,
em alguns casos. Por isso, meditando hoje sobre a sublimidade do
regresso pedimos humildemente que reflitamos a nossa conduta
junto aos postulados espíritas de modo a sofrer menos na
despedida.
Apenas compreendendo a função verdadeira da morte física,
podemos ver que ela é o parto da alma, que renasce do outro lado
após longa batalha do lado de cá. Assim como o feto abandona o
útero materno no nascimento, a alma se despe do corpo físico,
envelhecido e cansado; quando não, doente, para adentrar,
voltar, à verdadeira vida que é a do espírito.
É isso que devemos lembrar quando estivermos dando adeus a
alguém cujo sopro físico se extinguiu. O adeus é apenas para a
matéria física já que a alma que parte pode estar conosco,
posteriormente, em espírito, e maior liberdade terá quanto maior
for o seu grau evolutivo. Almas eternas que somos, viajores do
tempo em busca da própria perfeição.
Oremos, sim, nesse momento, pois certamente todos precisam de
preces sinceras e sentidas. Essa energia que envolve e alimenta,
revigorando as fibras espirituais do ser, apaziguando toda
ansiedade, toda angústia, todo anseio.
Se o choro cortar a garganta e um aperto se der no coração,
transformemos esse sentimento numa saudade antecipada, mas
consciente que estamos todos sempre juntos pelo pensamento e
pelos sentimentos.
Como lembrou um espírito amigo esse momento exige controle das
emoções, foi-se o tempo das lamúrias e das lamentações
faustosas, como se o bom Pai fosse o mais injusto dos juízes.
Não, que as nossas lágrimas sejam as lágrimas do entendimento,
da compreensão, do adeus momentâneo junto àquele que apenas
partiu antes. Estaremos nos reencontrando depois,
invariavelmente. Eis uma lei imutável: a da sobrevivência da
alma e da sua atuação sobre o mundo material.
Acalmados pela certeza da continuidade da vida, deixemos
descansar quem partiu e descansemos nós por nossa vez, pois
longa batalha aguarda aquele que ficou na retaguarda terrestre.
Quem merece mais oração, perguntamos: quem partiu ou quem fica?
Ambos, na verdade, pois a prece é benéfica a todos, não importa
a circunstância.
Se surgir o imperativo humano de comentar alguma falta daquele
que se despede da vida terrena, seja feito de modo que sirva de
lição para que outros não realizem o mesmo, segundo ensina o
Evangelho Segundo o Espiritismo, embora a lei de amor nos peça o
silêncio dos apontamentos diante dos próprios erros que
cometemos nós.
E não nos esqueçamos que houve de algum modo uma tentativa –
fraca ou não – de acerto daquele ser. Possamos ainda dar-lhe
tempo de recuperação, não imaginando que esteja em condição de
entrar em contato imediato com os que ficaram para trás tão
somente por ter abandonado a veste física. Poucas são as almas
merecedoras deste intento.
Lembremos a questão 150 de "O Livro dos Espíritos" quando diz
que após a morte a alma conserva a sua individualidade, sem
jamais perdê-la na passagem de volta. Ou seja, não viramos anjos
simplesmente por morrer – sabemos até que cultuamos os mesmos
vícios alimentados na Terra.
Assim é que devemos agir quando um parente ou um amigo fizer a
sua passagem, quando seu espírito houver abandonado finalmente a
veste material, naquela saída espontânea do retorno final,
seguindo as leis naturais. Que não percamos tempo a velar a
matéria noite adentro, mal dormidos e mal alimentados.
Não mais o rosto enrugado e triste pela noite fria e longa ao
lado de um cadáver. Que possamos nos recolher em nossos
respectivos lares, levando a certeza que ali a grande lei se
processa junto àquele que foi chamado.
Durmamos tranqüilos e serenos para que no dia seguinte,
semblantes revigorados e almas recuperadas pela força benéfica
do sono, hálito mentolado, possamos cumprir os trâmites finais.
Qualificado no respeitoso adeus à matéria, que tanto serviu o
ser que ali está virando mais uma página de sua milenar
história.
Uma homenagem à alma que ainda ali se encontra, não mais jungida
ao corpo, mas ao lado dele, na obrigação do adeus final à veste
que lhe serviu para tantas experiências e tantos crescimentos.
Aproveitados ou não, eis algo que a consciência em breve irá
revelar.
Enquanto o chamamento final não nos convoca ao grande testemunho
do retorno, honremos por nossa vez a oportunidade da vida
realizando o Bem e vivendo o Bem através de nossos irmãos, único
meio de se chegar a Deus, nosso Pai. Que a sua Paz nos envolva
trazendo serenidade aos nossos corações e entendimento que a
caridade é a mais pura prática da encarnação humana, conforme
ensina Cardon no livro O Céu e o Inferno (2ª parte – capítulo 3
Espíritos em condições medianas), acrescentando que o futuro é a
caridade, a benevolência em todos os atos. O que nos deixa mais
tarefas a realizar e mais aprendizado para assimilar.

Leia outro
artigo de Eliana Thomé:
Reencarnação...
Ver outros colunistas...
Ir
para página principal...