Eu
vivi minha adolescência na cidade de São Paulo,
na época dos Beatles e Rollings Stones, quando
Roberto Carlos era “uma brasa, mora!” E eu
queria ser roqueiro! Talvez nem tanto, mas pelo
menos aprender a tocar o violão. Pedi a um amigo
que me ensinasse, e ele prontamente se dispôs.
Começamos as aulas, ou melhor, a luta. E por
pouco não perco um amigo. Nossos gênios eram
incompatíveis - digo, o meu e o do violão! Não
combinávamos. Depois de duas semanas sem
conseguir dedilhar sequer as primeiras notas de
parabéns para você, meu amigo perdeu a paciência
e eu o interesse. Eu já tinha quinze anos de
idade; minhas faculdades mentais e visuais eram
perfeitas; e confesso que fiz um grande esforço,
mas mesmo assim não consegui tocar nada naquele
bendito violão.
Agora veja o caso de Tom Cego, ou Blind Tom,
como ele ficou conhecido na América do Norte e
na Europa.
Thomas Greene Bethune (Blind Tom) nasceu em 25
de maio de 1849, com um problema mental grave
que apenas cem casos existem na literatura
médica, e cego. Seus pais, Domingo Wiggins e
Charity Greene, eram escravos e foram
arrematados em um leilão por James Bethune, da
cidade de Columbus no estado da Georgia, quando
Tom era bebê. O ex-dono desses escravos deu Tom
a James Bethune como brinde, pois nenhuma
serventia teria um escravo cego. Nos primeiros
anos de sua vida, o único sinal de inteligência
que Tom demonstrava era seu interesse por sons –
qualquer tipo de som. E sua capacidade de
imitá-los era extraordinária. Charity, a mãe de
Tom, trabalhava na mansão colonial dos patrões,
e eles permitiam que a ama trouxesse o pequeno
com ela.
Nós aprendemos no Espiritismo que não há
coincidências na vida, que nada é obra do acaso;
que nascemos na família que vai nos ajudar a
cumprir nosso trabalho na terra, e que a vida se
encarrega de colocar-nos no meio e com as
pessoas que farão parte de nosso aprendizado.
Agora veja quanta verdade há nisso!
A família Bethune, cujo sobrenome Tom adotou por
tradição, tinha sete filhos, todos com talento
musical, e a casa vivia inundada pela música,
tocavam piano e cantavam constantemente.
Enquanto as crianças praticavam suas aulas de
piano, Tom, quietinho em um canto da sala, sem
nada poder ver, apenas ouvia.
Um dia, enquanto as crianças praticavam, Tom, às
escuras de sua cegueira, caminhou até o piano.
Com pena do menino, deixaram-no sentar-se no
banquinho e colocar seus dedinhos nas teclas do
piano. E o menino cego, aquele que nenhuma
serventia tinha, que foi dado como brinde a
James Bethune, deixou todos os presentes
estarrecidos! Ele tocou, na primeira vez que
sentou-se ao piano, todas as notas, exatamente
como as tinha ouvido durante as aulas dos filhos
dos patrões. Tom tinha quatro anos de idade!
A família Bethune contratou professores de
música para ele. O primeiro veio e nunca mais
voltou, disse que nada tinha a ensinar ao
menino. Um deles confessou que o talento musical
de Tom desafiava a compreensão. Outro disse que
Tom conseguia aprender em algumas horas o que
outros músicos precisavam de anos para
aperfeiçoar. Aos seis anos de idade Tom já
compunha suas próprias músicas.
Escravos com talentos musicais eram fontes de
renda adicional para os patrões, e eles não
perdiam a oportunidade de explorá-los. James
Bethune apresentou "Blind Tom" ao público de
Columbus, como pianista, à casa quase cheia, aos
oito anos de idade. Em seguida, contratou um
empresário. Aos nove anos de idade Tom já fazia
pequenas fortunas a ambos, patrão e empresário,
ele nada ganhava. Era levado à centenas de
cidades. Explorado, chegava a fazer quatro
apresentações por dia.
E Tom Cego dava espetáculo atrás de espetáculo.
Tocava os clássicos dos grandes gênios da
música, e não apenas sentado à frente do piano,
mas também de costas, e com as mãos cruzadas.
Músicos presentes eram desafiados a um duelo
musical com Tom Cego. Tom ouvia-os tocar, e em
seguida repetia em seu piano, com precisão,
qualquer tipo de música que tocavam.
E ia mais longe!
Fazia acompanhamento em baixo à charamela tocada
por um músico a seu lado. Depois empurrava o
tocador da charamela e repetia, perfeitamente, a
composição inteira, composição que até então
desconhecia. Quando o público aplaudia, o menino
dava o ritmo dos aplausos no piano. A galera
enlouquecia! E Tom exacerbava, três músicas
diferentes ao mesmo tempo – tocava Fisher's
Hornpipe (música tradicional das montanhas
Appalachian no leste norte-americano) com a mão
esquerda, Yankee Doodle, com a direita, e
cantava Dixie, cada uma em seu ritmo.
Um dos primeiros comentários sobre o talento de
Tom Cego saiu no jornal Baltimore Sun, em junho
de 1860. O autor dizia que Tom era um fenômeno
no mundo musical, que lançava por terra todas as
concepções da ciência e mostrava a existência de
outro mundo musical sobre o qual nada se
conhecia. E foi mais longe, dizendo que seus
talentos sobrepassavam os de Mozart.
Mas como poderiam seus talentos, aos 11 anos de
idade, sobrepassarem os de Mozart?
Como era possível esse menino, mentalmente
debilitado e cego, ser capaz de tanta proeza?
Qual seria outra explicação mais racional para
tão inexplicável fenômeno, senão a reencarnação
de um dos grandes gênios musicais de outrora?
Por que Tom Cego conseguia e eu não? De uma
coisa tenho certeza, jamais fui músico em outras
vidas!
Tom desencarnou no dia 13 de junho de 1908, aos
59 anos de idade.
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