Clarinda estava exausta de tanto caminhar. Seus
pés doíam horrivelmente, sua cabeça latejava,
fazendo-a sentir tonturas a ponto de desmaiar,
mas não podia desanimar. Precisava seguir em
frente, mas para onde? Essa era a pergunta que
repetia insistentemente no silêncio de sua
consciência sem resposta, desesperada e com um
filho de apenas três anos no braço, desnutrido,
esquálido em virtude da alimentação deficiente,
mas que, depois de tanto caminhar, parecia
pesado em demasia a ponto de ela não mais
suportar seu peso em apenas um dos braços,
enquanto, com a outra mão, amparava o segundo
filho, Julinho, de sete anos, que reclamava do
cansaço.
- Mamãe, não podemos parar só um pouquinho? Não
estou mais agüentando, estou muito cansado
mamãe, e meus pés estão doendo - choramingava o
garoto.
Aquelas tristes figuras perambulando pelas ruas
próximas ao centro de São Paulo era uma cena que
comoveria o coração mais empedernido, mas os
transeuntes passavam rápidos e insensíveis, em
sua maioria, diante de tanta miséria que o
cotidiano da grande metrópole paulistana acaba
por transformar em uma cena comum e banal,
tornando insensíveis muitos corações,
desconhecendo e ignorando tantos infortúnios
ocultos por trás de cada rosto macilento e
triste dos miseráveis que perambulam sem destino
pelas ruas abandonadas e pelas vielas
esquecidas.
Pés descalços, roupas esfarrapadas, corpos
esqueléticos davam uma idéia da situação de
penúria que vivia aquela infeliz criatura com
seus dois filhinhos tão pequeninos e já sofrendo
os revezes do mundo. Clarinda ainda era muito
jovem, estava possivelmente na casa dos vinte e
cinco anos de idade, mas seu rosto denunciava um
envelhecimento prematuro decorrente dos
maus-tratos sofridos em sua existência. O rosto
encovado transparecia os ossos angulares dos
seios da face e seus olhos azuis traduziam uma
tristeza profunda que revelavam a beleza que se
escondia por trás dos sofrimentos impostos pela
vida.
Desorientada, a infeliz mãe chorava em silêncio
ao sentir-se impotente para proteger seus
filhinhos queridos, único tesouro que ainda lhe
restava, entregando-se a completo desespero por
não saber o que fazer para protegê-los da
situação de infortúnio que assolava sua vida.
Até quando, meu Deus? - perguntava-se em busca
de uma solução, enquanto apenas os gemidos do
pequenino André, em seu colo, respondiam a suas
indagações de mãe desesperada. Para piorar a
situação, Julinho, o filho maior, começou a
chorar:
- Mamãe, por favor, vamos parar um pouquinho,
pois eu não agüento mais; de verdade, juro que
não agüento. Meus pés estão doendo muito e estou
com fome. Por favor, mamãe, vamos parar um
pouquinho.
O apelo do filho era muito comovente e a pobre
mãe não teve alternativa. Sentaram-se embaixo de
um grande viaduto malcheiroso perto da região
central de São Paulo, enquanto a mãe examinava o
pé do filho que estava em carne viva em virtude
da formação de algumas bolhas de água que haviam
estourado pelo esforço da caminhada. Enquanto
segurava André com um dos braços, Clarinda
aconchegou Julinho com o outro braço de encontro
ao seu corpo num abraço amoroso, como que
querendo compensar a dor e o sofrimento do filho
com seu carinho e amor maternal. Em seguida,
pegou o pezinho machucado e o assoprou,
procurando sorrir para o filho:
- Pronto, agora que mamãe assoprou seu pezinho,
não vai doer mais, meu filho. Você vai ver que
seu pé vai sarar logo.
O garoto sorriu mas seu rosto estava molhado
pelas lágrimas que haviam descido de seus olhos.
E como um filho sempre se sente feliz com o
carinho materno, reanimou-se ao observar os
profundos olhos azuis de sua mãe e fez um
comentário muito espontâneo:
- É verdade, mamãe, meu pezinho já não dói
tanto. Mamãe, deixa eu dizer uma coisa? Sabia
que a senhora tem os olhos mais lindos do mundo?
Acho que seus olhos têm tanto brilho quanto as
estrelas azuis do céu que a senhora fala que via
quando morava lá no interior.
Clarinda não resistiu e chorou emocionada diante
das inocentes palavras de seu filho querido.
Pelos filhos seria capaz de tudo, pois eles eram
o tesouro mais precioso que Deus havia lhe
confiado e era por eles que ela ainda continuava
sua caminhada em busca de uma saída para sua
vida, alguma solução, apesar de que, no fundo,
não tinha mais esperanças. À noite dormiam nos
becos junto de alguns mendigos que, em sua
miséria, ainda repartiam um pedaço de pão ou
algum cobertor rasgado mas que protegiam do frio
da madrugada e, numa das noites de maior frio,
André começou a tossir, ficando febril no dia
seguinte.
(...)
Dizem que a fome é mais dolorosa que o fio de
uma espada a nos atravessar o estômago de forma
impiedosa. A pobre mãe, em total desespero de
causa, deu o que tinha ao filho, mas sabia que
aquilo não seria o suficiente, não era nada.
André precisava de remédios e também de
alimentos, pois corria sério risco por estar
extremamente enfraquecido em virtude da
subnutrição. Quando descia a rua, observou a
alguns quarteirões de distância, uma mercearia
com várias frutas expostas. Poderia pedir algo
para se alimentar, com certeza encontraria
corações piedosos que não haveriam de negar,
pois estava pedindo por seus filhos, não por
ela. Sim, - pensou consigo mesma - pegaria os
filhos e caminharia até lá e certamente ninguém
haveria de se incomodar com algumas bananas,
laranjas ou mesmo maçãs. Pensando assim, chamou
o filho tentando animá-lo:
- Filhinho, mamãe vai pedir-lhe ainda mais um
pouco de paciência, pois temos que ir até aquela
mercearia pedir alguma coisa para que possamos
comer. Com certeza encontraremos criaturas
piedosas que não nos negarão alimento, nem um
copo de leite.
- Ai, mamãe, eu não agüento mais caminhar,
queria descansar mais um pouquinho. Meus pés vão
doer novamente se eu andar - reclamou o garoto
com lágrimas nos olhos.
(...)
Qualquer transeunte que observasse mais
atentamente poderia questionar: o que aquela
senhora de aspecto repugnante, com as roupas em
farrapos e os cabelos em desalinho, fazia na
fria madrugada paulistana com duas crianças
dormindo sobre um amontoado de papelão?
Possivelmente muitas pessoas poderiam
questionar, mas ninguém realmente estava
preocupado com aquela cena insólita de forma que
os raros carros que circulavam pelas ruas
passavam céleres, enquanto das Dores, uma
criatura de aparência horripilante, uma
marginalizada pela vida, esquecida dos poderosos
do mundo, poderia ser uma ninguém, mas no fundo
era um verdadeiro anjo da caridade, pois trazia
em seu coração sentimentos de solidariedade e
amor, apesar dos infortúnios de sua vida.
Era já quase madrugada quando das Dores
finalmente chegou a seu destino. O vento frio
açoitava seu rosto macilento e sofrido, enquanto
os primeiros albores da aurora tingiam o
horizonte com o fulgor do sol, trazendo as cores
da vida para mais um dia na existência humana.
A carroça que rotineiramente retornava carregada
de papelão e materiais recicláveis, naquele dia
que se iniciava trazia uma carga bem diferente,
muito mais preciosa. Aquela criatura sofrida e
miserável poderia ser para muitos apressados
apenas um farrapo humano, dos muitos que
encontramos no dia-a-dia, caídos pelo chão,
embaixo de pontes e viadutos, vestidos de
miséria e andrajos. E das Dores, pela sua
aparência, correspondia plenamente a esta
descrição, mas trazia dentro de seu peito uma
centelha divina viva, pulsante, com um brilho
luminoso que a identificava como um anjo. Um
verdadeiro anjo de amor e devotamento, em uma
jornada de renúncia e abnegação. (...)
O Instrutor silenciou por instantes em pequena
pausa natural enquanto eu fazia minhas
anotações, para em seguida prosseguir em sua
explanação:
- A humanidade vive hoje dias difíceis e
turbulentos, Virgílio, bem característico de
finais de ciclo em que os escolhidos têm que dar
testemunhos constantes e perseverar em nome do
Cristo para não caírem no desespero e no
desalento. Assistimos, no dia-a-dia, cenas de
selvageria e brutalidade sem limites de
violência gratuita que campeia em todos os
cantos. Vemos que os bons costumes foram
subvertidos, prega-se uma liberdade perigosa e
descompromissada com a moral, a educação foi
relegada a segundo plano, pratica-se cada vez
mais o sexo de forma irresponsável e desregrada,
jovens entregam-se às drogas e à alienação,
crescem cada vez mais ondas de violência e
barbárie, praticam-se crimes hediondos em que
não se respeita mais o sagrado direito da vida,
enquanto as instituições, que deveriam ser o
baluarte moral para preservar os direitos, lutam
para não naufragarem quando defrontam dentro de
seu próprio seio representantes portadores de
terríveis deformidades de caráter que legislam
em proveito próprio, em detrimento dos tristes,
dos oprimidos, dos esquecidos, dos fracos e
desvalidos, dos doentes, dos velhinhos sem
recursos que padecem na penúria do sofrimento
pela falta de remédio, de atendimento médico,
por falta de alimentação adequada enquanto os
espertalhões inescrupulosos se locupletam com a
miséria e o sofrimento dos excluídos e
marginalizados da vida. Por favor, Virgílio,
queira ressaltar em suas anotações que não é
nosso escopo criticar os poderes públicos, nem
instituições respeitáveis, mas enfatizar que
este palco de acontecimentos é próprio de um
período de final de ciclo, que já ocorreu em
outras civilizações que após atingirem o apogeu
se desagregaram moralmente e entraram em
decadência. Apenas que, agora, não são mais em
países esparsos que os problemas são
localizados, mas na humanidade como um todo.
Este final de ciclo em que João, o Evangelista
nos alertou - "Quem é santo, santifique-se
ainda, quem é justo, justifique-se ainda e quem
é sujo, suje-se ainda" - quer dizer: neste
período em que vivemos, surgirão oportunidades
que irão revelar quem somos nós internamente: se
somos santos, teremos que dar testemunho para
nos santificar ainda mais, se somos justos,
teremos que nos justificar ainda mais e se temos
rapina e podridão em nosso íntimo, então teremos
todas as oportunidades possíveis e imagináveis
para nos chafurdar na lama da sujeira. Assim,
aquele que é "esperto" irá se dar bem, pois não
sentirá remorso em se locupletar com bens que
não lhe são devidos, aquele que detém o poder
não se incomodará em desviar recursos destinados
às obras assistenciais, hospitais, remédios,
alimentos, albergues, asilos, para sua própria
conta bancária, nem sentirá drama de consciência
aquele que assalta o erário público em seu
próprio proveito, enquanto os infelizes gemem na
mendicância e na miséria. A verdade é que todos
estes acontecimentos nos deixam tristes porque
percebemos que, apesar da grande mensagem de
amor, da luz que nos liberta pelo conhecimento,
passados mais de dois mil anos, o ser humano
ainda tateia nas trevas da ignorância e da
insensibilidade. Entretanto, cada um colherá
exatamente o fruto do que semeou e na colheita o
joio será separado do trigo, enquanto os lobos
serão separados das ovelhas pelo Divino Pastor.
O que nos resta dizer é que nós mesmos
determinamos onde estaremos, se entre os que
desejam justificar-se ou os que desejam se sujar
ainda mais, conscientes que não somos ninguém
nem temos autoridade para julgar quem quer que
seja, pois todas as criaturas, sem exceção, são
filhos de Deus, trazendo em sua essência a
centelha divina originada do próprio Criador,
destinada à glória do Pai Eterno, mas cada uma
terá que trilhar seu próprio caminho colhendo o
fruto de sua própria semeadura e sofrendo os
percalços de seus próprios equívocos em
existências vindouras. (...)
Passava do meio-dia quando aportamos na grande
metrópole paulistana que eu tão bem conhecia,
mas que se transformara completamente aos meus
olhos. Confesso que me sentia saudoso da cidade
que eu aprendera a amar, em uma era de
romantismo da década de 50. Agora tudo que meus
olhos viam era uma cidade que havia crescido em
demasia, de forma desordenada. O trânsito
caótico e o burburinho no vaivém ininterrupto de
pessoas apressadas aprisionadas em compromissos
inadiáveis e horários impiedosos. Percebia que
muitas pessoas em sua pressa, mal se davam conta
das coisas ao seu redor na ansiedade da corrida
contra o tempo.
A cidade que acolhera criaturas de todos os
cantos do país e do mundo era um celeiro de
bênçãos e oportunidades, trabalho e progresso,
mas à margem do progresso, foi aos poucos
formando uma nova onda de criaturas
marginalizadas, nas grandes favelas que foram
aos poucos tomando corpo e espaço. Criaturas
simples, humildes, atraídas pelos enganos da
grande metrópole aportaram nas terras de
Piratininga em busca de um sonho, de um trabalho
dignificante, mas essas oportunidades que em
algum tempo eram possíveis, foram gradativamente
rareando até se tornar extremamente difícil ou
quase impossível. Infelizmente o progresso traz
em seu bojo condições cruéis que marginalizam
criaturas humildes, selecionando apenas os mais
preparados.
Nessas condições, em que o trabalho é escasso e
as oportunidades mais seletivas, criam-se
situações de desespero para muitos que
abandonaram tudo, ou o nada que tinham, e para
cá rumaram em busca de uma solução desesperada,
mas esbarraram com dificuldades extremas de
trabalho, de moradia, de oportunidades escassas,
agravadas com o despreparo profissional
trazendo, ao longo dos anos, problemas sociais
graves a par de uma desagregação de valores que
geram miséria de forma assustadora.
(...)
Aquela senhora me parecia muito esquisita e sua
prece um tanto quanto estranha. Parecia-me em
grave estado de perturbação, embora eu não
notasse nenhum irmão desencarnado exercendo
influências negativas sobre ela. Notando meu
interesse, o instrutor convidou-me para
acompanhá-la para efeito de aprendizado. Assim o
fizemos, tão logo dona Risoleta deixou a igreja
a seguimos pelas ruas. Apesar da idade,
demonstrava boa disposição caminhando a passos
rápidos. Em vão as mãos se estendiam em rogativa:
- uma esmola pelo amor de Deus - mas dona
Risoleta, apressada, nem sequer olhava para quem
havia proferido o pedido. Assim passou por
vários pedintes que proliferavam pelas ruas
próximas à praça da Sé. Mais adiante, uma
senhora idosa, maltrapilha estendeu as mãos a
dona Risoleta com suplicante pedido:
- Por piedade, minha senhora, me dê um ajutório
para comprar um pedaço de pão, pois estou com
muita fome. Hoje ainda não comi nada. Se a
senhora acredita em Deus e em Nossa Senhora, mãe
de Jesus, é em nome dela que vos peço: sou velha
e quase não consigo mais nem andar, por piedade,
me dê um pedaço de pão ou um prato de comida!
Dona Risoleta pareceu se irritar: ficou parada,
olhando a pedinte com muita raiva, e respondeu
com voz ríspida e agressiva:
- Ora, ora, agora tenho cara de quem é a
palmatória do mundo? Por favor, saia da minha
frente, pois não tenho culpa de sua condição de
miséria! Ora, ora, vá procurar um albergue que
eles lhe darão um prato de comida! Esta é boa,
agora somos nós que temos que alimentar esta
turba de miseráveis que perambulam pelas ruas!
Após pronunciar essas palavras, seguiu em
frente, sem olhar para os lados, até chegar a um
ponto de ônibus, onde tomou um coletivo em
direção a seu destino. Depois de mais ou menos
vinte minutos chegou à sua residência, em um
bairro não muito distante ao centro de São
Paulo. Olhou desconfiada para todos os lados da
rua, certificando-se de que não estava sendo
seguida. Colocou a chave na fechadura e entrou.
Fiquei surpreso com o que presenciei na
residência de dona Risoleta: a casa era espaçosa
com ampla sala, três dormitórios, cozinha e
enorme quintal. Entretanto, o ambiente tanto
físico quanto espiritual da casa era pesado e
asfixiante. O que mais me impressionou é que a
casa estava repleta de gatos que miavam
desesperados com a chegada de sua dona. O ar era
quase irrespirável e insuportável, por causa do
mau cheiro exalado, pois por toda parte havia
excrementos dos animais. Para meu espanto,
considerei que deveria haver naquela casa mais
de oitenta gatos que se engalfinhavam na disputa
pela atenção da dona, que havia chegado. Ante
meu questionamento, o instrutor me esclareceu:
- Este é um problema sério de desequilíbrio,
idéia fixa e autoperturbação, Virgílio. Dona
Risoleta sempre teve fixação por gatos, um
verdadeiro fascínio. Este era um dos motivos do
desentendimento entre ela e o marido, pois
preocupava-se ela mais com os animais que com o
próprio marido e o filho. O número excessivo de
felinos, em casa, era sempre motivo de discórdia
entre ela e o marido. O filho do casal sofria de
bronquite asmática e, a cada crise, os médicos
conhecedores da mania de dona Risoleta
recomendavam a limpeza total do ambiente da
presença dos bichanos, em benefício da saúde da
criança. Mas tudo era em vão, pois ela sempre
dava um jeito de trazer os animais para casa.
Cada vez que dona Risoleta saía, para a rua,
voltava com algum gato nos braços.
(...)
Ao penetrar em sua aura mental, percebi o pesado
teor das energias deletérias que aprisionavam
dona Risoleta. Entretanto, para minha surpresa,
observei que ela se comprazia totalmente,
agasalhando com satisfação as imagens que se
formavam em sua mente. A visão que dona Risoleta
tinha não era a mesma que se manifestava à nossa
percepção: identificava ela, naquela entidade
que se manifestava, um rei com a fisionomia que
se assemelhava a um felino. À sua visão, Septah
era um monarca muito poderoso. Uma coroa cingia
sua fronte, seu corpo estava coberto por um
manto escarlate, enquanto empunhava um cetro
como se fosse o símbolo de seu poder e de sua
força. Diante de sua saudação, Septah respondeu:
- Serva indigna! Já não lhe disse que não
deveria ir à igreja? Esquece suas obrigações com
meus súditos que é sua exclusiva
responsabilidade? Eu já não lhe avisei que o
bem-estar deles é sua prioridade absoluta? Devia
castigá-la, mas não vou fazer isso porque tenho
certeza que doravante irá cuidar de meus filhos
com dedicação.
- Oh! Meu magnânimo soberano, como fico feliz
quando me pede para cuidar de meus bichinhos
queridos. Obrigada, majestade, porque saberei
corresponder à sua confiança nesta sua serva.
- Assim está melhor! Quero dedicação absoluta,
porque saberei recompensá-la na medida do
merecimento.
Dizendo isto, estendeu as mãos e tocou os
cabelos de dona Risoleta que, em estado de
êxtase, exclamou:
- Oh! Grande soberano, saberei ser uma serva
submissa, obediente e prestativa para concluir a
grande missão que me foi confiada.
- Sim, nunca se esqueça disso! Sua grande missão
é cuidar de meus súditos, de meus filhos
queridos. Esta é sua grande missão na Terra.
Aquele estranho diálogo se estendeu um pouco
mais, mas eu já havia observado o suficiente. O
que significava tudo aquilo? O instrutor
olhou-me com tristeza para comentar:
- Este é um problema sério que transcende outras
existências, que remonta desde o antigo Egito,
Virgílio. Dona Risoleta, em tempos recuados, foi
uma sacerdotisa egípcia, e o espírito que se
manifesta como Septah era um sacerdote da era do
faraó Armiteu, uma das últimas dinastias antes
do domínio persa. Mas este episódio que estamos
observando demanda uma análise mais profunda e
nosso objetivo agora é outro.

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