Os últimos cinqüenta anos têm marcado
substancialmente a vida alimentar das pessoas em
todo o mundo. Qualquer um com mais de cinqüenta
anos pode avaliar as diferenças no comportamento
alimentar entre a nossa geração e a dos nossos
filhos e netos. Nossas refeições eram muito bem
definidas, comíamos sempre à mesa os alimentos
preparados em casa, caminhávamos até a escola,
brincávamos de correr em horas vagas, dormíamos
cedo, fazíamos lanches muito pequenos e nos
finais de semana, tínhamos no máximo
refrigerantes em uma refeição e bolo no lanche
da tarde. Quando observamos as famílias, nos
dias de hoje, podemos notar uma ampla mudança de
comportamento, com influências marcantes nas
relações familiares e na alimentação, capazes de
marcar uma geração de pessoas com grande
propensão à obesidade.
Somos atualmente mais de 1,6 milhões de pessoas
com sobrepeso em todo o mundo, de acordo com o
doutor Barry Popkin, professor de Nutrição da
Faculdade de Saúde Pública da Carolina do Norte
nos Estados Unidos. De acordo com Popkin, esse
número assustador já ultrapassou há muito tempo
os 800 milhões de desnutridos espalhados pelo
mundo, fazendo da obesidade uma pandemia,
responsável direta ou indiretamente pela maior
taxa de mortalidade imposta por qualquer fator
de risco existente.
As grandes mudanças absorvidas pela humanidade,
a partir da Segunda Guerra Mundial, vêm sendo
estudadas pelo professor americano, que descreve
com propriedade em seu livro The World is Fat,
algumas delas, dando-nos uma contribuição
valiosa de alguns pontos de partida para que
possamos retomar um caminho contrário a esse que
estamos trilhando, por ele ser arriscado, em
relação a todas as doenças crônicas relacionadas
à obesidade.
Uma dieta baseada em
lanches
Com a crescente industrialização dos alimentos,
a maior participação da mulher no mercado de
trabalho, o aumento da carga horária nas
empresas com indefinição de horários para as
refeições e a expansão das redes de fast food,
as refeições sofreram uma completa
descaracterização. Passamos a fazer lanches, ao
invés de almoçar e jantar, muitas vezes, esses
lanches são mais calóricos e ricos em gorduras
do que uma refeição balanceada. Isso vale para
as famílias de todas as partes do mundo, do
ocidente ao oriente.
A alimentação sofreu a mais deletéria
globalização. Passou a ser rica em gorduras, sem
micronutrientes ou fibras, rica em carboidratos
refinados e sal, muito mais palatável do que
frutas, verduras e legumes. Além de tudo isso,
essa refeição moderna e advinda dos
supermercados é muito mais frugal, ou seja,
causa saciedade muito curta, de modo que a
sensação de fome ocorre muito mais precocemente,
dado à falta de resíduos e à rápida absorção dos
seus componentes.
A saída para esse impasse é a organização das
refeições, com um modelo alimentar que se
imponha pelo menos uma refeição diária
balanceada, nos moldes do nosso arroz com
feijão, associada à dois lanches maiores, que
substituiriam as outras duas refeições. Esses
lanches devem sempre priorizar carboidratos e
pães integrais, carnes ou embutidos magros e não
abrir mão de alimentos naturais, como uma fruta
no café da manhã e saladas, acompanhando o
segundo lanche.
Porções "super size"
Nos últimos quinze anos, o tamanho das porções
de refrigerantes, pipocas, batatas fritas e
mesmo dos hamburgueres aumentou
assustadoramente. Servem-se baldes de pipocas,
copos que cabem litros de refrigerantes,
sanduíches astronômicos e pizzas gigantes, com o
apelo de serem mais baratos. Além disso,
agrupam-se alimentos muito calóricos como
batatas fritas, sanduíches, refrigerantes e
sorvetes em promoções que, individualizadas,
sairiam mais caras, induzindo ao maior consumo
desses alimentos. Com as grandes porções desses
alimentos, compramos mais calorias por unidade
de moeda de qualquer país e acabamos
erroneamente por achar isso vantajoso, compramos
muito mais do que comeríamos e comemos muito
mais do que deveríamos.
A saída para essa armadilha é entender que não
há vantagens nessas escolhas. A estratégia é
fugir das promoções combinadas de alimentos e
questionar sempre os malefícios dos mesmos,
principalmente agrupados ou em grandes porções.
Procurar alternativas a esses grandes lanches e
"ofertas mirabolantes" é uma tarefa de todos.
Nas cidades brasileiras, os restaurantes por
quilo ainda são a melhor saída para esses
alimentos. Neles, escolhemos o que gostamos e
pagamos pelo que comemos. Mais justo e
confiável.
A desorganização
alimentar dos finais de semana
Outra grande diferença embutida em nossa
alimentação nas últimas décadas é a
desorganização dos finais de semana. São grandes
quantidades de alimentos e bebidas ingeridos
todo sábado e domingo, ou o que é ainda pior,
sexta, sábado e domingo. Sim, porque para
muitos, sexta feira já faz parte do final de
semana. Começa com um happy hour na sexta e
acaba com uma super pizza no domingo à noite.
Nesses três dias, muitas vezes, as pessoas
acabam por comprometer todo o benefício da
rotina alimentar da semana. Tudo isso com a
alegação de que precisam descansar ou relaxar,
como se para isso precisassem causar tamanha
desorganização. Outras vezes, o lazer é
confundido com todas as refeições fora de casa,
começando por um café da manhã na padaria,
almoço num rodízio de japonês e o jantar numa
cantina com uma lasanha a bolonhesa. Sem se
esquecer da sobremesa e da bebida, é claro.
A saída é se permitir uma refeição fora do
trivial, com direito a uma bebida alcoólica para
os apreciadores e uma sobremesa. Além disso, o
final de semana é uma ótima opção para um lazer
ativo, caminhadas, passeios em lugares abertos
como os parques e até sair para dançar. No mais,
a alimentação deve ser versátil e bem preparada,
com a vantagem de que nos finais de semana ela
pode ser compartilhada com toda a família.
As cozinhas de enfeite
Nossas cozinhas hoje são modernas, bem
decoradas, com eletrodomésticos de última
geração... Temos toda a linha gourmet de panelas
e utensílios... Entretanto, não vemos nenhum
indício de que ali se prepara algum alimento.
Nem mesmo um cafezinho, pois já temos as
máquinas de café expresso nas empresas. Tudo se
compra pronto, pede-se pelos "deliveries" e
muitas famílias fazem todas as refeições nos
restaurantes. Nem por um momento as pessoas
questionam o que estão comendo fora de casa.
Tratam-se de alimentos muito mais salgados,
gordurosos e calóricos e, algumas vezes, de
higienização duvidosa.
Aprender a cozinhar. Eis uma atitude
inteligente, moderna e revolucionária no século
vinte e um. Apesar de prática, a atitude de
abrir latas, dissolver "shakes", diluir sopões e
comer os mesmos lanches, todas as noites, tem
nos deixado insatisfeitos com a monotonia do que
comemos e elevado a ocorrência de obesidade a
cifras alarmantes. As evidências científicas têm
mostrado que as cápsulas vitamínicas não
funcionam como comer frutas e verduras e
precisamos entender que as crianças precisam da
chance de formar vínculos com alimentos
saudáveis, antes de serem seduzidas pelo sabor
dos alimentos industrializados. Evoluímos com a
liberdade que alcançamos em todas as esferas e
dividimos as tarefas domésticas até o ponto dos
homens também prepararem o jantar e das crianças
ajudarem na cozinha e darem palpites no
cardápio. Preparar refeições saudáveis passou a
ser uma tarefa de todos. Podemos realizá-la de
maneira prazerosa e criativa, desde que
entendamos que os maiores beneficiados seremos
nós.
Ir para
página principal...